Por Inocência Mata
Ao publicar, em 1957, Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador (com um prefácio de Jean-Paul Sartre que a edição em português substituiu pelo de Roland Corbisier), Albert Memmi (1920 ou 1921?) entrou para a galeria da geração de intelectuais africanos cuja obra incidia sobre relações de dominação e dependência entre os homens, tendo como paradigma a relação colonial (lembre-se de Orfeu Negro, 1948, de Jean-Paul Sartre; Discurso sobre o Colonialismo, 1950, de Aimé Césaire; Pele Negra, Máscaras Brancas, 1952, de Frantz Fanon – para apenas citar três exemplos).
Este Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros é, tal como o outro retrato, o do Colonizado, uma reflexão desapaixonada sobre a psicologia do dominado, neste caso, o descolonizado-imigrante, com base nas suas observações e vivências – ele que tem uma dupla experiência de minoritário: tunisino de origem judaica e imigrante em França desde 1943, onde leccionou na Universidade de Paris.
Partindo de uma situação particular, porventura que o autor melhor conhece – o descolonizado muçulmano – Albert Memmi fala de qualquer colonizado, analisando as diversas causas do fracasso dos países descolonizados (expressão que o autor, no contexto, prefere à de «países independentes»), vinculando-o à gestão feita pelos governantes e à psicologia do descolonizado.
Com uma crueza e uma perspicácia provocatória, e recusando retratar o descolonizado como uma simples vítima do colonialismo, do neocolonialismo e do Ocidente – a que certamente o autor não iliba –, Memmi fala das mistificações da História, tão convenientes para os governantes desses países, atolados em corrupção, álibis para a constituição de «Estados do não-direito», compondo o que o autor designa como «dolorismo» (p. 36), que propicia a inércia e desvios de espírito.
Em dezasseis segmentos que compõem a primeira parte, dedicada, ironicamente, a «O novo cidadão», Albert Memmi discorre sobre as ficções e realidade do mundo descolonizado, em que a pobreza, a corrupção e a violência geraram «a grande desilusão» do «novo cidadão». Memmi descreve e define a ausência de perspectivas do descolonizado face à tripla espera que o «novo» tempo, da independência, anunciara: a espera económica, a política e a cultural. A apresentação do cenário é implacável:
Sob a influência das religiões, favorável a uma procriação sem entraves, e de uma política irresponsável, que com frequência estimula deliberadamente a natalidade, a demografia desenfreada resultante gerou uma juventude excessivamente numerosa, turbulenta e por vezes delinquente, sobretudo devido ao subdesemprego, e que não vê nenhuma outra saída além da emigração. (p. 102)
Da letargia cultural, fortalecida pela omissão e pela catalepsia dos intelectuais, «tomados pela mesma paralisia de pensamento e ação» (p. 49), se aproveita a religião, representada pelos «homens de turbante» (p. 67-71), sendo que o limite dessa marcha um Estado teocrático que da coerção passa à violência, constituindo-se essa realidade numa das mais dramáticas decepções do descolonizado (p. 71), que se torna um «candidato à partida».
A segunda parte deste livro, com dezoito segmentos, sobre «O imigrante», abre-se com «Um exílio duplamente abençoado…», seguido de «… E o duplo fracasso» que fazem a síntese da reflexão sobre a emigração sobretudo de jovens, encorajada e até activamente facilitada pelos governantes que, assim, ganham tranquilidade pois aqueles, face à impotência dos poderes para resolver os seus problemas, são os primeiros a se sentirem tentados à revolta. Memmi denuncia a emigração como moeda de troca dos governantes africanos: face a hordas de populações desesperadas e face ao Ocidente.
Como imigrante, o descolonizado começa um novo calvário, o da «integração», que Memmi define como sendo de «dupla hesitação»: a dos imigrantes em integrarem-se e do país de acolhimento em integrá-lo (p. 190). E se dessa «dupla hesitação» que resulta Memmi conclui que «decididamente, a imigração é a punição do pecado colonial» (p. 112), o autor descreve, em «O gueto, refúgio e impasse» (p. 113-117), com amarga ironia e perspicaz observação da psicologia do imigrante, a ilusão da pátria em que vive o imigrante magrebino (qualquer imigrante nestas condições, aliás), explicando os «segredos» do fracasso da integração, celebrado convenientemente por integristas (religiosos, islâmicos, identitários, autenticistas):
Compreende-se que os integristas sejam partidários do gueto; é lá que a personalidade coletiva tem mais chances de sobreviver; é lá que eles podem alimentar uma agitação permanente, propícia aos seus desígnios. (p. 115)
É no âmbito do integrismo – «acompanhado de fanatismo» (p. 139) – que Memmi insere a discussão sobre o uso do véu, em «O véu ou a mestiçagem» – discussão tão presente em França, que o autor, angustiado, transporta para uma cena mais ampla, o mundo árabe-muçulmano: angústia não apenas porque representa um terrível retrocesso no processo de emancipação da mulher («É como se as mulheres da Idade Média reclamassem o uso do cinto de castidade», p. 118), mas porque «o véu é um gueto portátil, revelador da perturbação identitária que afeta os imigrantes muçulmanos, (…) um recurso, defensivo e ofensivo, a uma outra tradição», enfim, «máquina de sobrevivência da comunidade muçulmana, imersa em universo cristão ou, o que é pior, arreligioso» (p. 119).
Do integrismo, dentro e fora, deriva o autor para a análise do conflito israelo-palestiniano, um «conflito cómodo» porque justifica muitas autarcias. E o autor é muito corajoso na exposição de uma ideia: a sobrevalorização deste conflito (comparado aos outros, é, em termos de mortes). Porquê, então, essa sobrevalorização? (i) Porque não é apenas israelo-palestiniano: é árabe-judeu, isto é, «a quase totalidade dos países árabe-muçulmanos e a maioria dos judeus no mundo» (p. 42); (ii) a fundação do Estado de Israel, de responsabilidade europeia, não é, porém, colonial, o que dificulta as razões dos árabes.
A preocupação de Albert Memmi em estudar o homem, na sua natureza, em confronto com a diferença, tem sido uma constante deste octogenário. Porém, deste livro fica um travão amargo, uma certa desilusão em relação ao género humano:
Toda a sociedade certamente é violenta. Talvez, de maneira mais fundamental, não tenhamos sabido até aqui dominar a violência que está em nós; só soubemos opor-lhe uma outra violência, em vez de considerar todo o tipo de violência fora da lei. (p.77)
Será o peso dos anos ou apenas a consciência da necessidade de um livro que estava por fazer, como lhe disse um dia um jornalista (Posfácio. p. 187)?
Este é um livro escrito sem complexos nem temores, quase como uma necessidade de libertação, de purificação da consciência. Uma catarse. Que pelo menos intelectuais e governantes africanos deveriam ler.
Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros
Albert Memmi
Tradução de Marcelo Jacques de Moraes
Civilização Brasileira
Rio de Janeiro, 2007
* Artigo publicado na edição de Abril da revista África 21
fonte:
http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=8411112&canal=403