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domingo, 26 de fevereiro de 2012

“Histórias cruzadas" e a nossa história


“Histórias cruzadas" e a nossa história
Ricardo Riso

“Histórias Cruzadas” (The Help, dir. Tate Taylor) tem a ótima e marcante interpretação de Viola Davis, a babá, mulher negra que dedica a vida para cuidar dos filhos dos patrões brancos do Mississipi, cidade sulista e de racismo extremo dos EUA, durante o início dos anos 1960. O corte temporal coincide com as lutas dos movimentos em prol dos direitos civis para os negros, inclusive retratada na película a famosa marcha liderada por Martin Luther King a Washington.

Entretanto, apesar da história ser ambientada no sul racista norte-americano, durante a projeção várias vezes fiquei pensando nas relações étnico-raciais brasileiras. A primeira fala de Aibileen Clark (Viola Davis) apresenta a genealogia das mulheres de sua família. A narradora babá, sua mãe também babá e sua avó, escrava-babá. Isso demonstra a condição estática da mulher negra em uma sociedade marcada por uma ideologia racista, o que remete à situação das mulheres negras na diáspora.

A ideia central do filme se dá com o desejo de uma jovem jornalista, branca, em reunir depoimento dessa babá negra a respeito do seu cotidiano, já que as opiniões de sua categoria profissional jamais foram ouvidas. Inevitável o receio da babá, visto que jamais teve oportunidade de falar abertamente com uma pessoa branca, ainda mais expor a sua vivência. Até que decidem reunir várias babás para que cada uma escreva as suas próprias memórias. A partir daí, babás autoras retratam as diferentes facetas do cotidiano excludente imposto pelo racismo descarado da sociedade branca do sul dos Estados Unidos.

É interessante notar como o conceito de “escrevivência”, desenvolvido por Conceição Evaristo, enquadra-se na literatura produzida por mulheres negras na diáspora e na constituição do empoderamento do ser feminino negro. Com o ato da escrita, logo vem o desejo de narrar as experiências dessas mulheres, ocultas e invisibilizadas pela sociedade. A voz solitária de cada autora transfigura-se como porta-voz de todo um coletivo de mulheres negras, as “Vozes-Mulheres” do poema de Conceição Evaristo, as quais se identificam com os fatos relatados, seus anseios, dúvidas, alegrias e decepções, e a oportunidade de vir à tona os preconceitos de diversas ordens, dentre tantos, os de gênero e os de relacionamento com as mulheres brancas.

Para além do ato da escrita, na película determinadas passagens do cotidiano assumidamente racista daquela época lembram bastante a condição excludente e submissa das empregadas negras brasileiras, também babás dos filhos das mulheres brancas desde o período da escravidão. Assim sendo, trago para recordação apenas duas cenas de “Histórias Cruzadas”:

1. Quando uma babá cria coragem para pedir dinheiro aos patrões para que seu filho possa ingressar na faculdade e se depara com a indiferença do marido, que logo se levanta e parte para o trabalho ignorando completamente o que a babá falou, e o olhar de pouco caso, desprezo mesmo, da patroa que escora sua resposta na importância do trabalho e na hipocrisia da fé – afinal, Deus ajuda quem trabalha – não lembra a insensibilidade dos nossos patrões com suas empregadas? Quem não conhece alguém da família ou uma mulher negra que não tenha passado por situação semelhante?

2. O banheiro externo exclusivo para as babás e a proibição de usar o banheiro da casa, acompanhado dos devidos comentários das patroas brancas cheias de asco ao mencionarem a absurda possibilidade de partilhar o vaso sanitário com uma negra, suja por natureza e espírito. O que são os nossos banheirinhos de empregadas? Aqui se recomenda o não uso do banheiro dos patrões.

São casos assim mais as demissões por motivos banais, a babá que vira a mãe negra da criança branca, as raríssimas opções no mercado de trabalho, os deprimentes almoços beneficentes para ajudar os necessitados negros, que remetem à realidade brasileira, ao nosso cotidiano conturbado das relações raciais. Por essas lembranças, pelos olhos secos, tal como no poema do angolano Agostinho Neto, da personagem de Viola Davis que traduzem os sentimentos das mulheres negras diante dos absurdos impedimentos e injustiças de um poder marcado pelo racismo, olhos secos que demonstram uma história “que só os NEGROS/ Sabem contar/... Que poucos podem/ Entender”, como no poema “Ponto Histórico” de Éle Semog, por mencionar indiretamente as nossas vivências que “Histórias Cruzadas” merece ser visto, para além do ótimo elenco feminino, com destaque especial para Viola Davis.

PS: Em um dado momento, aparece no jornal da televisão Malcom X discursando a respeito dos negros unirem-se para boicotar os produtos da Capitol. Lembro que os negros do sul dos EUA ficaram mais de um ano sem utilizar os ônibus locais após a prisão de Rosa Parks, a mulher que se recusou a ceder o lugar para um branco. Portanto, o boicote deve ser usado por nós, pois boicotar o consumo ou qualquer produto, ou pessoa, que remeta a práticas racistas é a única lógica que o mercado/pensamento hegemônico branco e racista entenderá e a partir daí escutará as nossas reivindicações. Quando atingiremos essa maturidade e organizaremos essas ações?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child



Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child
Por Ricardo Riso

O Festival do Rio Internacional de Cinema sempre reserva boas supresas, traduzidas em excelentes filmes e/ou documentários. Na edição deste ano, aguardei com imensa expectativa o documentário Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child (2009), de Tamra Davis. Trata-se de uma entrevista realizada em 1986 pela diretora com o artista plástico norte-americano Jean-Michel Basquiat que ficou sem ser editada por mais de vinte anos.

Basquiat estava no auge da fama, o doc intercala a entrevista com imagens de diversos momentos de sua carreira e depoimentos do artista plástico e diretor de cinema Julian Schnabel (dirigiu o filme “Basquiat”), dos galeristas Larry Gagosian, Bruno Bischofberger e Tony Shafrazi, do grafiteiro e amigo Fab 5 Freddy, e amigos que conviveram com este artista que tomou de assalto o mundo das artes, tornando-se o primeiro negro a vencer no discriminatório circuito da arte contemporânea ocidental.

Basquiat vivenciou um momento de agitação e grandes mudanças em Nova Iorque na virada dos anos 1970/1980. A cidade passava por um período de muita violência e alto consumo de drogas, por outro lado, emergia na comunidade negra a cultura hip hop com seu grafite, a break dance e o rap; assim como uma nova geração bastante inquietante buscava seu espaço com vanguardas que diferiam da ordem vigente. Nessa época destacaram-se três grafiteiros: Kenny Scharff, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Este começou a chamar atenção com os grafites intitulado com o nome Samo (same old shit - mesma velha merda, uma parceria com Al Diaz), viria a ser o mais bem sucedido artista de toda a sua geração.

Com menos de 20 anos, Basquiat já se apresentava como um artista pronto, seguro e determinado em relação à sua arte. Faltava apoio financeiro para este jovem artista que vivia nas ruas, ou em casa de amigos ou namoradas para sobreviver, fato comum entre vários emergentes do meio artístico da época. Quando isso aconteceu, sua carreira decolou com uma velocidade jamais vista na arte contemporânea. Sua primeira exposição solo teve todos os quadros vendidos e desde então sua ascensão foi fulminante, tornando-se uma celebridade pop que convivia com artistas como Madonna e Andy Warhol.

Seu pungente neoexpressionismo foi o contraponto necessário para determinar o fim da supremacia do minimalismo e da arte conceitual que dominaram as décadas de 1960/1970 e consagraria o retorno triunfante da pintura. Suas imagens viscerais, em grande formato, com forte e intrigante presença textual impactaram a todo o meio da arte, que parecia não estar preparado para algo tão inovador e agressivo. Mesclando o seu conhecimento de história da arte, a sua origem de pais imigrantes – pai haitiano e mãe porto-riquenha –, a linguagem das ruas dos bairros negros, a pop art, o jazz e uma ambição desmedida para vencer, ele foi erguido ao máximo que uma pessoa pode chegar em pouquíssimo tempo. Isso tudo teve um preço e foi cobrado do artista.

Por sua origem das ruas, ser pobre e um homem negro, Basquiat sofria com a discriminação da crítica especializada e de importantes galerias e museus que não aderiram ao seu estilo. Algo que o irritava profundamente, e com razão, a ponto de responder com rispidez a um repórter quando perguntado se ele era obrigado a ficar trancado em um porão para pintar, o que imediatamente o fez reclamar se tal indagação seria feita dessa maneira caso ele fosse um branco ou, sendo um branco, o comentário da repórter seria de algo como “o artista estava em reclusão”.

Consciente da discriminação racial na sociedade americana, Basquiat fazia questão de posicionar-se como negro, por conseguinte, homenageou diversos ícones de nossa cor em sua obra, dentre vários, podemos citar o lutador de boxe Sugar Ray Robinson e músicos de jazz como Charlie Parker, para além de denunciar a violência policial aos jovens negros, exatamente como ocorrer aqui no Brasil, com a célebre tela que mostra o espancamento de Mike Stewart.

Basquiat sabia que era manipulado e tentava jogar com isso, mas a perversa engrenagem das celebridades era mais forte que ele e não teria forças para vencer o inimigo maior, as drogas. Após a avalanche de críticas negativas à má sucedida parceria com o amigo Andy Warhol, o artista mergulha na heroína, situação que pioraria com a morte do papa da pop art. Suas obras diminuíram em intensidade, apesar da genialidade ainda marcante, por sinal são agonizantes as referências à morte na sua última exposição: em uma tela há a repetição da frase “man dies” e em outra, o título e a figura assustadora em “Riding with the Death”. Todavia, a crítica resolveu retirar a máscara que sustentou no início da carreira do jovem artista “selvagem” e frisa a decadência. Com isso, Basquiat perdeu-se e entregou-se cada vez mais até vir a falecer em 12 de agosto de 1988, antes de completar 28 anos de idade.

Riquíssimo em imagens da época, abrangente ao explorar a personalidade de Basquiat e os efeitos nocivos da mídia, para além de dar a devida importância à discriminação racial ao qual o artista sofreu, o documentário Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child presta uma justa homenagem à memória deste jovem extremamente talentoso, vítima de uma engrenagem voraz pela qual não foi preparado para viver e foi engolido por ela.

Jean-Michel Basquiat, o maior e mais completo artista de sua geração, ícone do século XX. Negro Orgulho.

Encerro com o poema de Langston Hughes que abre o documentário:

GENIUS CHILD



This is a song for the genius child.
Sing it softly, for the song is wild.
Sing it softly as ever you can -
Lest the song get out of hand.
...

Nobody loves a genius child.



Can you love an eagle,
Tame or wild?
Can you love an eagle,
Wild or tame?
Can you love a monster
Of frightening name?



Nobody loves a genius child.



Kill him - and let his soul run wild.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Boas risadas em filme que tinha tudo para ser banal
Por Ricardo Riso

Neste final de semana assisti ao novo filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, uma comédia com garantia de boas risadas diante da qualidade do elenco com destaque para o trio formado por Rebecca Hall (a mulher “certinha” seduzida pelo desejo), Scarlett Johansson (a espevitada que se entrega a qualquer paixão momentânea), Javier Bardem (o típico latin lover) e a mais bela atriz da atualidade, Penélope Cruz (uma estridente e insana mulher). Como podemos perceber, personagens que conduziriam a película a mais uma comédia de clichês, se não fosse dirigida por Woody Allen, um dos raros diretores de cinema em atividade, capaz de construir diálogos inteligentes diante de situações românticas previsíveis.

Com belas locações das cidades de Barcelona e Oviedo, e excelente trilha sonora, o filme narra a história de duas jovens Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) que decidem passar o verão na Espanha. Quando chegam em Barcelona, encontram um artista galanteador muito bem sucedido (Javier Bardem). Ele as convida para conhecer Oviedo e iniciar um breve relacionamento. A partir daí, o desenrolar da história flui com agradável sensibilidade e fina ironia – algo raro –, guardando os momentos de “tensão” para as calorosas e hilárias discussões entre os personagens de Bardem e da histriônica interpretada por Cruz.

Ao mostrar o envolvimento de duas mulheres que se deixam seduzir por um relacionamento longe do que seria “racional”, causando intensos conflitos em suas personalidades, Allen conseguiu criar um filme leve, ainda assim sério e equilibrado. Vicky Cristina Barcelona equipara-se aos seus melhores filmes. O Cinema agradece.

domingo, 29 de junho de 2008

Banhos


No mínimo, são interessantes os filmes que tratam das mazelas da modernidade e da globalização e, principalmente, da condição humana, tão desmerecida pelo modelo social vigente que condena valores como solidariedade, amor e compaixão com o próximo. Até a família ou algo que lembre tradição é atropelado pela maneira competitiva e neoliberal de ser.

Banhos” (Shower, em inglês, Xizhao), filme chinês de Zhang Yang realizado em 1999, retrata o retorno de um bem sucedido jovem chinês (Da Ming) da cidade de Beijing ao convívio familiar com o pai e o irmão deficiente mental, que vivem do trabalho em uma tradicional casa de banhos chinesa.

A película já começa a mostrar o contraste entre a tradição e a modernidade logo em sua primeira seqüência: ao vermos o jovem Da Ming banhando-se em um chuveiro público moderno, que nos faz recordar imediatamente a semelhança com as máquinas lava-jato de automóveis. Em uma cena mais à frente, teremos a comprovação disso com um carro sendo limpo em um posto. Logo, podemos estender a comparação com a condição insensível imposta pelo mundo atual.

Da Ming resolve visitar sua família. A maneira como vivem não o agrada, por isso o afastamento e a rara presença. Ao chegar, vemos como é o funcionamento da casa de banhos administrada por Mestre Liu, seu pai, e ajudado, apesar das limitações, por Er Ming, seu irmão. Destaca-se o tratamento personalizado com os clientes, as milenares técnicas de massagem e o ritmo lento e descomprometido com o tempo – se compararmos com nossa vida acelerada –, com espaço para conversas, jogos (uma surpreendente briga de gafanhotos) e banhos intermináveis. Todo esse panorama causa estranhamento e repúdio para o ocidentalizado e globalizado Da Ming, que se mantém distante das atividades da casa de banhos e trata com frieza o pai e o irmão, não compreendendo a harmonia, a vida simples e sem maiores perspectivas levada pelos os dois.

Contudo, um breve mal-estar ataca Mestre Liu, que fica com a saúde debilitada devido à idade avançada. Com isso, Da Ming percebe que precisa participar do serviço da casa de banhos, pois Er Ming só pode assumir pequenas tarefas, e esse retorno ao trabalho passa a ser a redescoberta de sua origem e de reaproximação de sua família.

Todavia, o bairro em que se localiza a casa de banho será reformulado com a construção de um shopping center e tudo será demolido. É a presença do neoliberalismo e a sua sanha predatória em adaptar as pessoas e o meio ao seu modelo, eliminando completamente qualquer vestígio da vida tradicional levada naquela região, em que Mestre Liu cresceu e criou seus filhos.

O idoso Mestre Liu morre antes da demolição do bairro. Como não poderia deixar de ser, tais mudanças afetam os homens que convivem naquele ambiente com a aproximação do despejo, que pressentem um futuro nebuloso, carregado em incertezas e fazem críticas ao modo agitado e rápido como se vive na atualidade.

Deve-se destacar a beleza e a delicadeza das cenas de nu, principalmente feminino, sem as costumeiras vulgaridades e apelações que beiram o pornográfico, comuns na televisão e cinema brasileiros. Obrigatório louvar as passagens sensíveis e singelas protagonizadas pela inocência de Er Ming, muito bem interpretado por Jiang Wu. Enquanto isso, a apresentação do contraste entre a China contemporânea e seus hábitos milenares nos fazem refletir sobre as mazelas e o individualismo perpetrados pelo neoliberalismo, com sua sede de ganância, novidade e artificialidade. “Banhos” é um bom filme.

Ricardo Riso

As informações a seguir foram retiradas de
http://www.adorocinema.com/filmes/banhos/banhos.asp

Ficha Técnica
Título Original: Xizhao
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 92 minutos
Ano de Lançamento (China): 1999
Site Oficial: www.spe.sony.com/classics/shower/index.html
Estúdio: Imar Film / Xi'an Film Studio
Distribuição: Sony Pictures Classics
Direção: Zhang Yang
Roteiro: Shangjun Cai, Yinan Diao, Xin Huo, Fendou Lin e Zhang Yang
Produção: Peter Loehr
Música: Ye Xiao Gang
Direção de Fotografia: Zhang Jian
Direção de Arte: Meng Tian
Edição: Hongyu Yang

Elenco
Jiang Wu (Er Ming)
Pu Quanxin (Da Ming)
He Zheng (He Bing)
Zhu Xu (Mestre Liu)
Zhang Jin Zao

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

L.A.P.A.

Na próxima sexta-feira, dia 25/01, em frente aos Arcos da Lapa, passará o documentário L.A.P.A., de Cavi Borges e Emilio Domingos, dentro da programação do “CINEMA NA RUA – VERÃO 2008. O evento começará às 20h com a apresentação de vários curtas e terminará com o filme do Emilio. A programação completa encontra-se no final deste texto.

Eu tive a oportunidade de assistir ao documentário na 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, em novembro de 2007, que agora terá sessão aberta ao público. O documentário retrata como o bairro da Lapa serve de ponto de convergência entre MC’s e rappers de todo o Rio de Janeiro. Além disso, a proposta é mostra o cotidiano, muitas vezes conturbado, desses artistas: onde moram, o que fazem, como ganham a vida, como produzem suas músicas entre outros detalhes.

Estão presentes no documentário nomes de destaque no movimento hip-hop carioca, tais como Black Alien, B Negão, Marcelo D2, MC Macarrão, MC Chapadão, MC Aori e tantos outros que aos trancos e barrancos tentam fazer sua arte. São jovens sem condições financeiras, nascidos em famílias humildes dos subúrbios da cidade maravilhosa, mas que com garra, talento, humor, indignação e revolta procuram expressar o que sentem os garotos excluídos do consumismo imposto pelos meios de comunicação, que sofrem na pele o preconceito da sociedade e convívio diário com a violência policial, e a falta de emprego ou o subemprego, a versão neoliberal do eterno regime escravocrata.

Contundente e impactante é o depoimento de Black Alien, ex-Planet Hemp, ao comentar as artimanhas e manipulação da indústria fonográfica. Um bom tapa na cara para aqueles que acham que no meio artístico tudo é festa, mulheres, drogas e você sairá ileso das garras dos empresários. Para quem não se lembra, o Planet Hemp foi uma das principais bandas dos anos 1990. O Planet escandalizou a mídia ao falar abertamente sobre o uso de drogas, a maconha era o tema principal, o que ocultou um pouco o ótimo cd de estréia, chamado “Usuário”.

Também ex-Planet, B Negão é outro que se afastou dos holofotes da grande mídia e manda o seu recado. O outro Planet é Marcelo D2, hoje uma referência na música do país, que conta com muito humor passagens interessantes do início do movimento carioca ao lado do amigo Skank, já morto.

Já que os rappers têm a palavra como o veículo de informação, o documentário acerta ao não apresentar um narrador, mas sim ao deixar que os próprios artistas se expressem. E como nos surpreendemos com os depoimentos desses griots urbanos. A consciência de que estão fora de um esquema considerado normal e social é escancarada por todos, denunciar as injustiças sofridas no decorrer da vida é a principal inspiração para esses garotos. Sendo assim, apresentam um discurso fora da grande mídia, porém sério, fundamentado, sincero e, por que não?, em alguns momentos, hilário.

Macarrão e MC Funkero, mostram a origem humilde, a vida difícil de quem tem que ralar e muito para sobreviver e ainda assim, cantar e sonhar que um dia vencerão com a música, com a própria arte. E o que conseguiram com o rap é apresentado e mostrado com orgulho e devido agradecimento. Sonho compartilhado por Chapadão, que meses depois apresenta uma nova realidade de dificuldade e mesmo assim, com perseverança e ótimo astral, cria um rap de improviso durante o seu emprego como eletricista.

Ao demonstrar como é o cotidiano desses artistas, tanto nas apresentações como a vida nas casas e trabalhos, o documentário L.A.P.A. marca com imenso interesse, leveza, seriedade e humor como são as pessoas que integram a cultura hip-hop no Rio de Janeiro. Um belo registro desses tempos em que se insiste em mostrar que favela e subúrbio só tem miséria, tráfico e violência, e só uma tropa de elite para contê-los.

L.A.P.A. mostra que há vida inteligente, pessoas honestas e conscientes que buscam de alguma forma apresentar que o destino de um jovem pobre não é na boca-de-fumo ou ser morto por tiros antes de completar 25 anos. O grande mérito de L.A.P.A. é mostrar que ainda há esperança, e ela jamais morrerá. Vale a pena conferir!

Aqui deixo meus parabéns ao meu amigo Emilio, o DJ Saenz Peña da festa Phunk!, parceiro para qualquer parada desde os tempos da adolescência, IFCS/UFRJ...

Todo o sucesso do mundo para você, brother!!!

Riso
22/01/2008

CINEMA NA RUA - VERÃO 2008.
Um mix de exibições de filmes, free-styles, pré-lançamentos, rap. Nos arcos da lapa, com um telão de 8X18 mostrando nossas queridas e apreciadas produções.
Dia 25 de janeiro, a partir das 20h nos Arcos da Lapa. Gratuito

filmes:
20h
. CORUJA de Simplício Neto e Márcia Derraik;
. SETE MINUTOS de Cavi Borges, Paulo Silva e Júlio Pecly;
. O LOBINHO NUNCA MENTE de Ian SBF;
. O FILME DO FILME ROUBADO DO ROUBO DA LOJA DE FILMES de Marcelo Yuka, Paulo
Silva e Júlio Pecly;
. AFINAÇÃO DA INTERIORIDADE de Roberto Berliner;
. PRETINHO BABYLON de Emílio Domingos e Cavi Borges;
22h
. PRÉ-ESTRÉIA - PRETÉRITO PERFEITO de Gustavo Pizzi
23:30h
. PRÉ-ESTRÉIA - L.A.P.A de Cavi Borges e Emílio Domingos

Entre as sessões intervenções sonoras com "bastardos" e participação especial de MC Ramon.
FECHANDO O EVENTO: pocket- show com INUMANOS, MARECHAL, FUNKERO, IKY, CHAPADÃO.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O mistério de Picasso (Le mystère Picasso)

Um dia, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tive oportunidade de assistir a um trecho de “O mistério de Picasso” (Le mystère Picasso), do cineasta francês especialista em filmes de suspense policial, Henri-Georges Clouzout, durante uma aula do Professor Charles Watson. Os anos passaram e a vontade de rever o filme não foi abalada, até que nesta semana encontrei-o em uma livraria. Comprei o dvd imediatamente.

Em 1955, Clouzout conseguiu convencer Picasso a pintar para suas câmeras e fez um filme de raríssima sensibilidade. Em setenta e cinco minutos nos deleitamos com o genial Pablo Picasso desenhando e pintando vinte obras. Contudo, o que é interessante na película é a maneira como foi registrado o processo criativo de Picasso, o tal mistério. Clouzout foge da jeito tradicional de filmar um artista criando, vai além do que era até então um documentário. Ele não se dirige ao atelier de Picasso, mas monta um espaço onde pudesse inovar.

Valendo-se de tintas, papéis e telas especiais a filmagem é feita por trás da obra, ou seja, é como se Pablo estivesse pintando sobre a tela do cinema, pois ocupa toda a superfície da lente cinematográfica. Vemos apenas os traços sendo construídos por Picasso, não o vemos, e escandalizamo-nos com a rapidez como volume, forma e cores vão ocupando seu espaço na tela. É um belíssimo exercício de metalinguagem, com breves momentos da câmera mostrando Claude Renoir filmando. É um magnífico filme-pintura, muito além de qualquer “filme de arte”.

Um detalhe importante é que essas obras só existem no filme. Por razões contratuais, todas as obras feitas foram destruídas após as filmagens. Logo, vemos Picasso pintando incessantemente uma tela atrás da outra e, em alguns momentos, ainda era pressionado por Clouzout para que encerrasse antes do término do rolo de filme. Uma situação incômoda. Todavia, com isso temos a oportunidade de conferir uma das marcas do artista: sua imensa vontade de vencer desafios.

Como o grande astro do filme é o processo criativo, quase não há diálogos e temos poucas aparições dos artistas. Vale frisar a sutil e sensível opção pelo preto-e-branco durante a filmagem da realização das obras e nas poucas vezes em que Picasso, Clouzout e os outros integrantes do set são mostrados, deixando que as cores aparecessem somente nas pinturas no momento em que Pablo resolve usar o óleo. E aí o bicho pega porque Picasso cria trabalhos sensacionais.

Extraordinária é a percepção de como Picasso desenvolve as suas obras. A idéia inicial surge logo nos primeiros traços e pinceladas. Entretanto, o tema é progressivo e exaustivamente trabalhado, pintado e repintado incontáveis vezes, criando interessantes variações que são notadas com esplendor quando a filmagem utiliza a técnica da animação em stop-emotion. É uma espécie de palimpsesto pictórico. Dessa maneira, espantamo-nos com as diversas obras que poderiam ter sido feitas em torno de um mesmo tema. E, detalhe, cada variação mais interessante do que a outra, atestando a inigualável maestria e criatividade do artista. Creio, também, que ajuda a entender a quantidade assustadora de obras que Picasso fez ao longo da vida.

Excelente a música feita por Georges Aurenche. Acompanha com dramaticidade devida os temas criados por Picasso. Porém, no meu ponto de vista, a música é criticada com injustiça por François Truffaut em ótimo extra do DVD, que é uma crítica feita pelo também diretor francês na estréia do filme no festival de Cannes de 1956. Para meu estranhamento, Truffaut narra a frieza com que o filme foi recepcionado pelo público, mesmo assim ele não deixa de exaltar a genialidade e inovação de Clouzout na concepção do filme.

Além do ensaio de Truffaut, os extras do dvd contêm biografias resumidas de Picasso, Clouzout e Alains Renais, este último foi um dos líderes da Novelle Vague, filmou o clássico “Hiroshima, meu Amor” (Hiroshima, mon Amour), e comparece com o ótimo, belo e lírico curta-metragem “Guernica”. Neste curta, de intenso humanismo e amor à vida, podemos ver partes de várias obras de Picasso nas mais diferentes fases que percorreu ao longo da vida, acompanhadas de um belo texto em off que denuncia a agressividade do bombardeio sobre a população civil e da estupidez humana.

Para finalizar, uma crítica à infeliz tradução do título do filme tanto para o português quanto para o inglês (notado durante o trailer), pois não se trata d’O mistério “de” Picasso, mas, sim, d’O mistério Picasso, que permanece insolúvel após o término da projeção. O importante é que Henri-Georges Clouzout, com o fundamental auxílio de Pablo Picasso, realizou uma obra-prima do cinema de incomparável lirismo. Trata-se de um filme obrigatório para quem ama o cinema, ama a pintura e crer na ilimitada capacidade criativa do homem.

Riso - 12/01/2008

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Tartarugas podem voar (turtles can fly)


O nosso cinema nacional anda esquecido em retratar o Brasil. Desde a chamada “retomada do cinema nacional” em meados da década de 1990 com filmes como “Carlota Joaquina” e “Terra Estrangeira”, que as películas produzidas por aqui apresentam certo marasmo e ilusão típicos de uma novela do principal canal de televisão, comandante do país. Felizmente, não foi o acontecido com os dois filmes citados.

Foi criado nesses quase vinte anos um cinema que ouso chamar de “cinema de evasão”. Um cinema frio, de estórias românticas paupérrimas, de alegria efêmera, rostos bonitos de atores globais que muitas vezes representam os mesmos papéis das novelas. Isso quando os filmes apresentam uma estética televisiva, caso do fraquíssimo “Olga”. E ainda querem chamar aquilo de cinema.

A hipocrisia que domina nossa sétima arte é tanta que anos atrás, o jovem Erick Rocha, filho de Glauber Rocha, lançou a pertinente polêmica “estética da fome”. Rocha criticava abertamente este cinema de espetáculo, completamente submisso ao poder estabelecido, que conseguia a proeza de filmar um sertão sem miséria. Basta lembrarmos de “Eu, tu, eles”. Reivindicava o retorno a um cinema contestatório e independente no campo das idéias como foi o nosso Cinema Novo, sem que isso refletisse um retorno ao desleixo técnico da época, mas que era utilizado dentro de uma estética pré-estabelecida com os parcos recursos a que tinham acesso.

Hoje, quase não vejo cinema produzido neste país. Ainda temos alguns raros exemplos de diretores que arriscam novas linguagens, planos imprevisíveis, estórias que não seguem necessariamente uma linha narrativa linear e finais felizes. Cito Claudio Assis, de “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, Beto Brant, de “O invasor”, “Crime delicado” e outros filmes impactantes, Matheus Nachtergale com “A Concepção” e, parafraseando meu amigo Luíz Horácio, mais uma meia dúzia de dois ou três. Ah! Não posso deixar de citar o recente e belo “Mutum”, de Sandra Kogut, baseado na obra de Guimarães Rosa.

Pior que não precisamos ir muito longe para termos contato com cinema de alta qualidade, é só assistirmos às produções argentinas que por aqui chegam. Sempre revisitando seu passado, sem medo e sem se entregar aos grupos dominantes que tentam ofuscar a História.

Bom, após esse longo desabafo, vamos ao que interessa. Para quem está acostumado com um cinema que não encara os problemas sociais, políticos culturais etc. do seu país, terá uma surpresa que provavelmente será angustiante e inquietante diante da co-produção iraniana-iraquiana “Tartarugas podem voar” (Turtles can fly), filme que passou no domingo último no Telecine Cult/NET.

O filme narra o cotidiano de um campo de desabrigados curdos em uma região fronteiriça do Iraque dias antes da invasão norte-americana comandada por Bush Filho. A população do referido abrigo é formada por velhos e crianças, pois os homens e mulheres em idade ativa foram mortos, em sua maioria, na primeira Guerra do Golfo, patrocinada por Bush Pai. Irônico, não?

Acompanhamos um grupo imenso de crianças liderado pelo adolescente Satélite, que além de líder é também o responsável pela manutenção das antenas parabólicas do vilarejo e atua como tradutor de inglês (apesar do péssimo inglês e ser admirador dos Estados Unidos) para os mais velhos, líderes da comunidade. Para o sustento de seu grupo de crianças órfãos e muitas mutiladas pelas minas espalhadas pelo território, Satélite organiza a captura dessas minas e posterior venda em mercados da redondeza.

O detalhe curioso é que os atores não são profissionais, as crianças são realmente órfãos e foi o primeiro filme produzido em solo iraquiano após a invasão norte-americana.

É desesperador ver crianças mapeando áreas minadas e desarmando essas famigeradas armas de destruição e morte. Assim é a guerra, faz com que as pessoas sobrevivam em contato constante com a morte, com aquilo que mata.

O filme mostra a miséria e abandono a que são submetidas as crianças. Fome, roupas esfarrapadas, estupros, morte, famílias dilaceradas, ódio e violência são os alimentos diários dessas crianças impedidas de sonhar, de sorrir, de brincar. São seres amargos, embrutecidos pela vida, crianças que prematuramente são obrigadas a amadurecer em um mundo envolto em desencanto.

A personagem traduz em seu olhar um mundo de desesperança, sofrimento e dor. Em sua curta vida presenciou o assassinato de sua família, foi estuprada pelos assassinos e carrega à contra-gosto a criança fruto dessa violência. Arredia, a menina mal consegue se comunicar com outras pessoas, mesmo sendo de sua idade como o apaixonado Satélite, e não sente nenhum apreço ou carinho pelo filho. Procura abandoná-lo a qualquer custo, idéia que não é compartilhada por seu irmão (médium e sem braços), responsável por tentar passar algum amor ao pequeno menino.

Vemos a tensão crescendo com a proximidade do ataque norte-americano, o vilarejo se preparando para o ataque a sua maneira, com pouquíssimas armas para a defesa e uma quantidade mínima de máscaras para os ataques químicos. A agitação do menino-líder é intensa, aos berros comanda suas crianças e tenta dar alguma ordem ao caos.

Enquanto isso a menina abandona seu filho em um lugar que julga ermo e parte para um desfiladeiro onde comete suicídio. Entretanto, o menino retorna e é encontrado em uma área minada. O desespero toma conta das crianças, Satélite vai ao socorro do menino, mas não consegue evitar a explosão da mina que mata a criança e o atinge gravemente.

Satélite fica alojado em uma carcaça de tanque de guerra abandonado. Logo em seguida, o ataque norte-americano é implacável e ocupa a região. Satélite olha para aquilo tudo com desencanto e parte, com muletas, na direção contrária a dos soldados norte-americanos.

Uma dentre várias questões ou várias questões em uma: quando o nosso cinema retratará o cotidiano das crianças que vivem nas favelas, cercadas por traficantes, policiais assassinos, pais alcoólatras e desempregados quando os há, mães sozinhas e ganhando uma ninharia para sustentá-los, esgoto a céu aberto, sem escola, sem posto de saúde, mas com medo, desesperança e morte? Ah? O quê? Ah, tá! O problema é deles, vagabundos que não querem trabalhar e defendem os traficantes. Tropa de Elite neles! Além do mais, não haveria papéis para Alemão, o padrão de beleza nacional, e Graze Massafera. E para finalizar, quem gosta de miséria é intelectual. Quem quer saber e ver desgraças?

“Tartarugas podem voar” está na grade do Telecine Cult/NET e também pode ser visto em DVD.


Riso


TARTARUGAS PODEM VOAR (LAKPOSHTHA HÂM PARVAZ MIKONAND)Curdistão/Irã/Iraque/França, 2004
Direção, roteiro e desenho de produção: BAHMAN GHOBADI
Fotografia: SHAHRAM ASSADI
Montagem: MUSTAFA KHERQEPUSH, HAYDEH SAFI-YARI
Música: HOSSEIN ALIZADEH
Elenco: SORAN EBRAHIM, AVAZ LATIF, SADDAM HOSSEIN FEYSAL, HIRESH FEYSAL RAHMAN, ABDOL RAHMAN KARIM, AJIL ZIBARI
Duração: 98 minutos

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Habana Blues

Habana Blues (2005)
Direção: Benito Zambrano
Elenco: Alberto Joel García Osorio, Roberto Sanmartín, Yailene Sierra, Tomás Cao Uriza, Zenia Marabal, Marta Calvó, Roger Pera.

Um filme baseado na música cubana traz logo à mente o belo Buena Vista Social Club, com suas salsas, merengue e tais de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e outros. Uma Havana que podemos dizer folclórica. Felizmente, isto não acontece na película de Benito Zambrano, Habana Blues, que retrata a cena underground contemporânea de Havana, com muito rock, reggae, rap, heavy metal e outras misturas (Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga, do Planet Hemp, lembra? É por aí.) em meio à amizade de dois músicos que vêm seus caminhos sendo separados quando aparece a oportunidade de deixar o país e tocar no exterior.

Tito (Roberto Sanmartin) e Ruy (Alberto Joel Garcia Osorio) são os personagens principais de um filme que possui caráter quase documental ao apresentar os sons feitos pela juventude e a decadência do país. A partir do convite feito por uma dupla de produtores espanhóis, que pretende levá-los para a Espanha, os dois amigos percebem a esperança de vencer na música, sair da ilha e ter uma vida com mais liberdade e sem a miséria que ronda suas vidas.

Contudo, a proposta é baseada em condições que prendem os artistas ao contrato: receberão uma pequena porcentagem, terão que mexer nas músicas e, no exterior, deverão fazer propaganda anti-castrista, ou seja, tornar-se-ão escravos de um capitalismo feroz. A partir daí, os dois amigos ficam com a amizade abalada pela escolha de diferentes caminhos. Tito é jovem, solteiro, detesta as condições de vida oferecidas pelo sistema político cubano. Sente-se sufocado pela falta de liberdade e pelas dificuldades financeiras para produzir música e sobreviver. Enquanto Ruy tem um relacionamento conturbado, próximo da ruptura, com a esposa Caridad (Yailene Sierra), mãe de seus dois filhos, que não agüenta a incerteza da vida de Ruy.

O filme mostra o dilaceramento das vidas de uma geração que presencia o pior momento do socialismo em Cuba, que não possui mais a ajuda financeira da extinta União Soviética e sofre com o perverso bloqueio econômico norte-americano. São pessoas que sentem que suas vidas serão desperdiçadas enquanto estiverem na ilha, tendo que agüentar a falta de energia, bicos que podem envolver contrabandos para aumentar os parcos salários, o telefone comunitário, a cidade em ruínas.

A condição insular só piora a situação dos personagens. Caridad resolve abandonar Ruy e encarar o perigo de uma viagem clandestina rumo a Miami com seus filhos. Tito, desesperado com a recusa do parceiro em ir para a Espanha, briga com o amigo e ameaça denunciar os produtores espanhóis caso a viagem seja cancelada. E Ruy, perdido e confuso com os recentes acontecimentos, vivencia a contradição de continuar com a sua carreira incerta no país, a vontade de partir, mas sem se vender à exploração capitalista, pois como diz: “Eu já traí muita gente na vida, mas minha música não”, além da impotência em reconquistar a esposa e nada fazer para impedir a viagem. Com tudo isso acontecendo com as pessoas mais importantes em sua vida, agarra-se ao show de lançamento da banda em um teatro decadente de Havana, tentar aparecer no cenário cubano e, assim, permanecer no país.

O problema é que o personagem de Ruy é indeciso, um tanto estranho. Aceita com passividade que sua mulher vá para os EUA com seus filhos. Mesmo quando rompeu o contrato com os espanhóis, alegando que não serviria ao neoliberalismo, não apresenta em outras passagens maiores preocupações políticas. E o seu desejo de sair não é tão forte quanto o de Tito. Ruy talvez retrate bem os jovens de hoje.

Ao expor as contradições de uma juventude desencantada com o país, Benito Zambrano realizou um filme comovente e triste que denuncia a situação atual de Cuba. Contudo, não apresenta alternativas à realidade cubana, fica apenas nas imagens de pobreza e decadência da cidade e no vazio da existência indefinida de Ruy. O que não deixa de ser um sentimento típico dos jovens dos países periféricos, que percebem seus países assolados pela corrupção, miséria, violência e distopia. Mas o que fazer diante de tanta desilusão?

Riso

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O descontrolado Ian Curtis


Cantor-poeta é retratado com brilhantismo em filme
Texto publicado em http://www.cinemacafri.com/filme.jsp?id=1239

Para encerrar a maratona de filmes proporcionada pelo Festival do Rio, resolvi, como fã assumido do Joy Division e da poesia angustiante de Ian Curtis, rever Control (Controle – a história de Ian Curtis), primeiro filme de Anton Corbijn, famoso pelos clips de U2, Depeche Mode e outras bandas dos anos 1980. O longa-metragem é inspirado no livro Touching from a distance de sua esposa Deborah Curtis e procura retratar o ambiente inglês da década de 1970, daí a opção acertada do diretor pelo preto e branco.

O ator Sam Riley está impecável no papel de Ian Curtis, pois consegue captar o jeito arredio, isolado, triste e inquieto de um jovem em constante crise existencial. Reconhecemos os sons que faziam a cabeça do cantor-poeta como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed, ou seja, alguns dos principais nomes do que ficou conhecido como glam rock, Sex Pistols entre outras bandas. Vemos o início de seu relacionamento com Deborah Curtis, o precoce casamento, o bizarro emprego onde atende pessoas tão problemáticas quanto ele, o nascimento da filha, os momentos de inspiração para os poemas que seriam futuras músicas do Joy Division, o início da banda com o nome Warszawa, os shows, o contrato com a Factory, a amante linda e a crescente angústia com a aproximação do sucesso e a indecisão típica de uma mente conturbada.

Talvez os grandes momentos do filme estejam nas clássicas apresentações da banda e das performances de Ian Curtis sobre o palco, com sua dança única que inspirou vários vocalistas dos anos 1980, inclusive aqui no Brasil, basta lembrarmos de Renato Russo. Está lá o lendário ataque epilético de Curtis durante uma apresentação, problema que o deprimia, a conseqüente ovação da platéia e o estímulo do produtor Tony Wilson (personagem principal de 24 Hour Party People - A festa nunca termina, filme que também retrata Curtis e o Joy Division) que afirma sobre o caráter positivo que tal acontecimento terá para o grupo junto à mídia e público. Em contrapartida, um desesperado Ian declara o quanto é difícil para ele estar sobre o palco, o quanto se dá, o quanto se entrega. É a pressão da fama a encurralar o artista.

Ingenuidade e precipitação acompanharam a trajetória do sensível Ian em algumas passagens da sua conturbada e curta vida, que vão desde o pedido de casamento inesperado ao rompimento com a esposa, o posterior pedido para retomar a relação e a opção pelo suicídio após a frustrada tentativa de reconciliação às vésperas da primeira turnê pelos EUA, o que os levaria sem sombra de dúvidas ao estrelato.

Control vale como documento histórico de uma personalidade marcante e criativa, da banda que tinha tudo para dominar a década de 1980, fato que, de certa maneira, se concretizaria com o New Order, sendo este bem menos depressivo. Ian Curtis e Joy Division praticamente moldaram o espírito da época com uma sonoridade estridente e temas existenciais, como seriam comuns em The Cure, Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, The Mission e tantas outras bandas inglesas.

Control é uma bela homenagem ao descontrolado Ian Curtis.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll

para o meu brother Fabio


Comprei esta semana o dvd Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll, inspirado nos personagens da extinta e saudosa revista Chiclete com Banana, de Angeli, publicada nos anos 1980 e em alguns dos principais jornais do país, como o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo.

Retomar o contato com a dupla de velhos hippies é, de certa maneira, recordar algumas passagens da minha adolescência e um pouco da minha formação cultural através das HQs. Foi mais ou menos assim: em meados dos anos 80, acho que em 86/87, comecei a ter contato com as revistas Circus, Chiclete com Banana e Animal, revistas alternativas de temática underground que em nada pareciam com as bobagens de super-heróis da DC e Marvel Comics. A Circus posteriormente desmembrou-se na já citada revista do Angeli, Piratas do Tietê (Laerte) e Geraldão (Glauco), e os três criaram a famosa tirinha Los 3 amigos, que também lançou algumas edições.

A Chiclete caracterizava-se pela crítica aos tipos sociais da capital paulistana, tais como o punk Bob Cuspe, o garanhão Bibelô, a junkie Rê Bordosa, Walter Ego, os Skrotinhos entre outros. Anos depois, Angeli aprimorou o estilo e criou as séries República dos Bananas e Tipinhos Inúteis, escancarando o ridículo de determinadas figuras urbanas. Mas foi com a dupla bicho-grilo Wood & Stock que mais me identificava e me divertia. Através das tirinhas dos dois personagens perdidos no tempo, que tive estímulo para conhecer diversas bandas de rock dos anos 60 e 70, como Grand Funk, Free, The Cream, e a procurar informações sobre acontecimentos e pessoas que envolviam o universo da contracultura, tais como Timothy Leary, Aldous Huxley, Jim Morrison, Arembepe, Mutantes etc. Assim como a inevitável experiência de fumar orégano. Uma grande merda.

O filme? Bom, a história trata da tentativa de retomada da banda que a dupla tinha nos loucos anos 70, o Chiqueiro Elétrico, para participação em um festival de música e, assim, pagar as dívidas do apartamento de Wood com o dinheiro da premiação. Este, passa por diversos problemas: abrigou o amigo Stock após ser despejado de casa, agüenta a barra da separação da esposa Lady Jane que resolveu dar um tempo no relacionamento, e a incompatibilidade de gênios com o filho careta Overall.

É engraçado, legal, as dublagens estão ótimas, Tom Zé como Raul Seixas, Rita Lee ataca de Rê Bordosa e tal... os movimentos engraçadíssimos... trilha sonora ótima e a banda Chiqueiro Elétrico é do caralho! Contudo, as passagens do filme são as mesmas das tirinhas, optaram por não criar uma história específica para o filme. Considero uma falha, pois para quem conhece as mesmas o filme não acrescenta muito, só a curiosidade da animação. Mesmo assim, valeu! Mas poderia ter sido mais ousado. Provavelmente seqüelas de quem fuma orégano.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Controle – a história de Ian Curtis

O Festival do Rio traz finalmente o novo filme sobre a vida do vocalista Ian Curtis, da lendária banda inglesa Joy Division, intitulado “Controle – a história de Ian Curtis” (Control), direção do estreante Anton Corbijn, e baseado no livro “Touching From A Distance” escrito pela viúva do músico Deborah Curtis.

O Joy Division foi um grupo fundamental para compreender a cena do rock no decorrer dos anos 1980, mais precisamente o cenário inglês da cidade de Manchester, e a fusão do rock com o eletrônico. De curtíssima duração, surgiu no meio da onda punk em 1979, e deixou lendárias apresentações com direito a ataques epiléticos de Ian Curtis. A banda formou uma legião de fãs enquanto durou até o suicídio de seu vocalista e principal compositor em 1980.

Arredio, solitário e um tanto estranho: Ian Curtis. Suas letras eram carregadas de um lirismo depressivo, angustiante, com temáticas obscuras fortalecidas por uma sonoridade incômoda que influenciou diversas bandas de Manchester. Happy Mondays, Stones Roses... e, claro, New Order. Este, aliás, se tornou um dos mais influentes grupos dos últimos anos e foi formado pelos outros quatro integrantes do Joy Division, que partiram para um som mais eletrônico, porém ainda guardando um certo ar sombrio nas composições, herança de Curtis.

Apesar de sua rápida passagem por este plano, a beleza das composições de Ian Curtis imortalizaram-no, como ficou comprovado com o excelente álbum, que acabou póstumo, “Closer”, lançado três meses após a sua morte aos 23 anos de idade.


Controle, a história de Ian Curtis
Titulo Original: Control
Direção: Anton Corbijn
País: Reino Unido
Ano: 2007
Duração: 119min

Sinopse: Os últimos anos da vida de Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa Joy Division. Curtis, que teve uma trajetória curta e intensa, ficou famoso por seu talento de letrista e por suas performances épicas à frente da banda. Sofrendo com os ataques de epilepsia, sem saber como lidar com o seu talento e dividido entre o amor por sua mulher e filha e um caso extraconjugal, ele se enforcou em 18 de maio de 1980, aos 23 anos. Baseado no livro de Deborah Curtis, viúva do cantor. Menção Especial na Camera de Ouro da Quinzena dos Realizadores em Cannes 2007.

Mostra: Midnight Movies
Domingo - 30/09/2007 Espaço de Cinema 1 23:30:00 hs EC164
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 16:30:00 hs PL242
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 21:30:00 hs PL244
Quinta - 04/10/2007 Est Barra Point 2 19:00:00 hs BP255


Composições

Love Will Tear Us Apart

When routine bites hard,
And ambitions are low,
And resentments ride high,
But emotions won't grow,
And we're changing our ways, taking different roads.

Then love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.

You cry out in your sleep,
All my failings exposed.
And there's a taste in my mouth,
As desperation takes hold.
Just that something so good just can't function no more.

But love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.


Atmosphere

Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.

Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away


I Remember Nothing

We were strangers.
We were strangers, for way too long, for way too long,
We were strangers, for way too long.
Violent, violent,
Were strangers.

Get weak all the time, may just pass the time,
Me in my own world, yeah you there beside,
The gaps are enormous, we stare from each side,
We were strangers for way too long.

Violent, more violent, his hand cracks the chair,
Moves on reaction, then slumps in despair,
Trapped in a cage and surrendered too soon,
Me in my own world, the one that you knew,
For way too long.
We were strangers, for way too long.
We were strangers,
We were strangers, for way too long.
For way too long