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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Naguib – Tatuagens d’Alma (exposição)

Naguib Elias Abdula – Tatuagens d’Alma
(Ricardo Riso)

https://www.youtube.com/watch?v=MKjN26QjbIU

Da multiplicidade do caos surge a Arte em diferentes facetas, suportes, cores, formas, figuras zoomorfas, hieróglifos de um tempo ido, também nosso, muito nosso, pois fala, toca, sente o nosso hoje, expande o agora. Arte que pressiona o que sentimos, que questiona o que vemos, que nos conduz a vivenciar o Belo ali traduzido.
Impactar.
Arte para desolhar o nosso tempo, para, a partir do encanto-espanto, confrontar o texto da constituição da república moçambicana e mergulhar naquele ontem-hoje que se prolonga, fragmentado como algumas formas ali expostas.
Corrosão.
Karingawa ua karingawa, recorda o Velho Cravo, e assim a Arte propõe o ato de decifrar o passado para tentarmos compreender esse cotidiano de injustiças, de crianças maltratadas, entregues à própria sorte. Por isso, o artista interfere no espaço, suas instalações e sites specifics gritam, “gritos sem som”, mas que ensurdecem nosso olhar, massacram nossos sentidos.
Desestabilizar.
“Pediatras do impossível”, os carrinhos de bebês, “amo-te mamã, amo-te papá”, pássaros estirados... lembro Malangatana Valente que na crua e rude finita possibilidade de materiais para construir a série “Desenhos da Prisão” exortava de seu interior um exterior de mulheres e crianças entristecidas, mas unidas, fortes, esperançosas pelo fim da longa noite... noite que perdura em novas máscaras.
“O facto de não veres lágrimas nos meus olhos, não significar que não estou a chorar”. A recusa da inércia... inquieta-nos o artista.
Seguir.
E caminhamos na imensidão do azul como retirantes para longe da Dor e do Desespero em busca de um novo tempo, trilhando as reinvenções plásticas de Naguib Elias Abdula que benzem Esperanças de Beleza como sorrisos moçambicanizados tatuando nossas Almas.

(Tatuagens d’Alma. Exposição de Naguib até 04 nov. 2014, Museu Nacional de Arte, Av. Ho Chi Min, nº 1233, Maputo, Moçambique)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Eduardo White: universidades, bienais do livro e mercado editorial


Eduardo White, escritor moçambicano, expõe sua indignação acerca de alguns problemas que envolvem a relação escritores africanos-mercado editorial-bienais do livro-universidades brasileiras. A postagem foi feita no Facebook e autorizada para publicação aqui.

Caro Ricardo Riso, já ligeiramente corrigido o meu texto, quanto 'a questão que me puseste e muito bem:

 

Não esta' em causa o lançamento dos livros de dois escritores de muito mérito e da minha geração com quem não tenho divergências nenhumas a não ser as que sempre tivemos e haveremos de ter e ao longo das nossas vidas e salutarmente.

 

Ninguém pode tirar o mérito aos distintos confrades que ai e muito bem vão representar Moçambique.

 

O que é facto é que a vossa Bienal do Livro é a mais importante feira no espaço dos falante e dos "escreventes" da Língua Portuguesa e um mercado que pode possibilitar a ponte definitiva para o intercambio das culturas dos nossos Países. Depois dessa seguem-se todas as outras que ocorrem em Portugal, Angola e Cabo-Verde.

 

O que me vem indignando desde há algum tempo a esta parte é a quantidade de mestrados e teses que se tem feito no Brasil sobre a minha obra e sobre a orientação de duas Professoras Doutoras que ai vão estar como palestrantes de quem em seu nome, inclusivamente, tenho recebido alguns dos seus Doutores em Maputo, nunca se terem dignado, jamais, a dirigirem-me uma tese por correio ou um convite para qualquer dessas sessões ou defesas de teses ou mestrados e ou organizado contactos com os meritíssimos leitores que ai tenho no Brasil. Ao longo deste tempo todo e como você poderá pesquisar na Internet só me tenho surpreendido.

 

Inclusivamente, bem nos recentes anos ai esteve um delegação com o Luis Abel dos Santos Cezerilo em que a minha obra era um dos temas em debate e em Maputo fiquei para trás. E como esse exemplo existem vários, tanto cá, como em Portugal, como com vários convites que me chegam pelos canais que deveriam chegar, toda a gente sabe qual, e vão outras pessoas em minha representação.

 

Mas isso é de outro fórum.

 

O que eu fico surpreendido é que Alcance pretende internacionalizar um autor que já está quase meio internacionalizado, passe-se a expressão, e desconhece tudo sobre o autor que tinha.

 

Os meus livros, tanto da Texto Editora como da Alcance Editores, são todos impressos em Portugal e não se justifica que não tenha eu um único livro actual com prémios ganhos, este ano, aqui e lá, no mercado Português. E nem hajam, igualmente, os que editei em Portugal no mercado Português. E se os há alguns sou eu que os levo e os deixo porque faço eu o trabalho que as editoras deveriam fazer. Comprova a MIL, Movimento Internacional da Língua Portuguesa com a doação que fiz dos Nudos por achar aquele Movimento com pernas para andar.

 

Se esse acontecimento que agora decorre no Brasil e que aplaudo vivamente tem em vista uma maior participação dos autores africanos e afro-brasileiros na Bienal do Livro, como se justifica que os meus livros, faz anos, nunca tenham surgido nas feiras dos livros, como aconteceu bem há' pouco tempo em Lisboa? E no Brasil?

 

Há qualquer coisa que está errado.

 

Da Prof. Dra. Carmen Tindo' Secco e outras, bem antes de eu seguir para Portugal para receber o Prémio Gloria de Sant'Anna de que existem duvidas quanto 'a legitimidade das razões do mesmo me ter sido atribuído, dei de caras com um dos seus orientandos na Livraria Conhecimento, em Maputo, que procurava pelo meu ultimo livro para levar para o Brasil para um trabalho na Universidade onde ela lecciona.

 

Pergunto:

 

Que papel tem então África e os seus autores de Língua Portuguesa nessas reuniões aonde a gente não participa mas estão lá eles?

 

E a CPLP, o que faz?

 
Desculpa este atabalhoado todo, mas estou cansado de ver nitidamente o que se passa e de estar calado e por isso o "mito" - e todas as catalogações - de que o Eduardo White temperamentalmente é um autor irreverente e uma serie de bujardas a meu respeito.

 

Eu é que represento o meu trabalho e se o meu me confere o direito de o representar, então sou eu e não eles.

 

E não me vou calar perante o que se esta' a passar comigo vivo porque depois de morto a única herança e a melhor memoria de mim que deixarei para os meus filhos e netos que já' os tenho, e' apenas esta loucura minha de me ter casado com a escrita."

domingo, 30 de junho de 2013

Rinkel e Vera Duarte (A Nação)

Rinkel e Vera Duarte
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 245, de 10 de maio de 2012, p. E11
Os problemas oriundos da imposição da subalternidade às mulheres nas sociedades africanas contemporâneas são desvelados com extrema urgência pela poesia comprometida com questões de gênero, escancarando os preconceitos de diversas ordens sofridos por elas. Em razão do predomínio masculino na literatura não abordar com a devida atenção essas questões, vozes poéticas insubmissas apresentam, a partir de um ponto de vista feminino, as opressões impostas, a revolta e o acalanto para todas as mulheres, transformando os seus poemas em representações de dramas coletivos.
A escritora e jurista cabo-verdiana Vera Duarte e a moçambicana Rinkel são legítimas representantes dessa escrita comprometida a combater o machismo e as desigualdades sociais, pois constroem uma poesia de intervenção social e em defesa intransigente da mulher. Rinkel, pseudônimo de Márcia dos Santos nasceu em Inhambane, em 1977, e já publicou três livros de poesia: “Almas Gêmeas” (1998, AEMO), “Revelações” (2006, AEMO) e “Emoções e Abstrações” (2011, FUNDAC). Hoje, Rinkel é uma destacada voz poética feminina moçambicana, ao lado de Tânia Tomé e Sónia Sulthuane, seguidoras de importantes nomes do passado, tais como Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna.
Tal como em Cabo Verde, tímida é a presença das poetisas na literatura moçambicana, por isso a relevância das obras “Revelações”, de Rinkel, e "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança", de Vera Duarte, para a representação de vozes silenciadas, visto que a persistência é a mola propulsora desse "escreviver". A perseverança permanece acesa para iluminar um futuro sem as desigualdades da contemporaneidade. Assim diz Rinkel: “Eu queria./ Queria muito./ Tanto mais que acreditei que iria conseguir!/ Enfim.../ Nem tudo se consegue.../ Mas continuo acreditando./ Ainda quero./ Quero bastante”. Já em Duarte a perseverança incontestável no porvir: “... até que um dia/ farta já da mediania/ dos voos rasantes// que planam sem ousar// me arme de um hino revolucionário/ e parta// em direcção a uma madrugada diferente”.
Contra as atrocidades do cotidiano, o sujeito lírico de Rinkel é rebelde e insubmisso diante dos preconceitos patriarcais. Revolta-se, atenta as mulheres para o destino cruel que as espera caso se mantenham inertes e as convoca para a libertação de uma consciência feminina: “Encara a realidade mulher!/ (...) Serás escrava do trabalho da tua própria casa,/ Não terminarás os estudos/ Serás amante de um barrigudo/ Teus filhos serão drogados// Não queres nada disso?/ Se não lutares para conquistares teus objetivos/ Vais acabar assim/ Por isso, minha irmã/ Mulher! Mãe!/ Vamos à luta!// Sem homens no comando,/ Sem ninguém dizendo que não conseguirás/ Apenas luta!/ Tu és capaz! A vitória é tua!” Enquanto Duarte mantém uma postura corrosiva, a palavra contestatária firme e direta a tocar nas mentes obliteradas: “Tempos novos/ ideais recuperados/ brilho no ar e transparência em tudo/ serão espelho/ onde se refletirá/ a imagem/ diferente e subversiva/ da mulher de hoje/ a ganhar forma/ a ganhar corpo/ a crescer/ a VIVER”.
Observadoras dos problemas de ontem e de hoje, Rinkel escancara as vidas destruídas, de famílias dilaceradas por ‘companheiros’ ausentes, capazes de abandonar suas mulheres grávidas entregues à própria sorte, como no sugestivo título do poema “Lei da Família Moçambicana”: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes”. Enquanto Duarte demonstra as consequências desse abandono e de sonhos dilacerados: “(...) Queria ser uma mulher sensual/ De formas cheias/ E peito redondo//(...) Queria ser.../ ... e não sou// (...) Queria mas o meu peito/ se exaure/ na busca desesperada do leite/ para a criança/ que me morre nos braços”

Por fim, Vera Duarte e Rinkel são vozes poéticas que incomodam a ordem estabelecida, vozes assumidamente feministas e corrosivas, imprescindíveis nas literaturas de seus países. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Emmy Xyx - Contar Ser Gregos (lançamento)


Lançamento do livro da poetisa moçambicana Emmy Xyx, Contar Ser Gregos, em Maputo.




Contar ser gregos
 
Contar um dia ser gregos
Contar segredos infinitos
um por um, viver do rego
em chuva de meteoritos

 
A gregória vem sem glória
nesta quinta categoria
contar ser gregos ou contar a história
fica-se nesta alegoria
 
Ser grego quem conta sem medo?
Conta em que canto a saia curta?
Consta que santo perdeu e cedo
segrega ao poente a gula fruta.
 
Crer segredos
impôr degredos
comungar de gregos
desencontrar medos
desapontar dedos
segregar toledos
contar cem gregos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Amosse Mucavele - Poesia Uma Realidade Supra Sensível

Uma reflexão poética de Amosse Mucavele (Moçambique), jovem do Movimento Kuphaluxa, para apreciação dos leitores do blog.
Abraços,
Ricardo Riso
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Poesia Uma Realidade Supra Sensível

A poesia é o sol da imaginação que ilumina o nosso mundo real; um sol que já há séculos vem queimando o iceberg dos sentimentos do poeta vs leitor.

Mas este aquecimento da poesia, diga-se, Global, sente-se no árduo trabalho de limar a matéria-prima que fabrica o poema, e esta está ao alcance de todos seres viventes, vividos e ente-viventes.

António Carlos Cortez diz o seguinte: “ Ao fabricar um poema há ainda uma sensação de que a escrita se autonomiza, não para se tornar nossa por separação do autor, mas para se tornar um corpo orgânico que vive por si só”.

Cabe a nós leitores “atentos” da nossa realidade, seja ela tangível ou intangível, aperfeiçoar a técnica do saber: “ ver o que está à frente dos nossos olhospoisexige uma luta constante

George Orwell subscreve a ideia da “luta constante” sem tréguas com a realidade que nos circunda; uma vez que a produção poética tem como seu paraíso um mar de águas profundas, onde a sensibilidade das geografias imaginárias e a insensibilidade das geometrias reais fazem o cerco ao mar que encarcera o poeta. E é neste cárcere que o poeta sente-se livre como um pássaro no chão do seu vertiginoso voo, onde antes da partida o mesmo acaricia os 4 ventos das grades que o prendem.

Dentro das grades o poeta cria uma pluralidade de espaços, de convívios, de interrogações, e afectos que desaguam na singularidade da poesia detentora de um “Estatuto Topológico (um lugar onde e donde) ” (COELHO, 1972. pag 299.)

“Um lugar onde”  “a linguagem poética se fala e se escreve”( BLANCHOT,97,pag 47); ”um lugar donde” a imaginação resplandece e espalha-se no reino da realidade.

Segundo Leyla Perrone Moisés, “A poesia não pretende mais a primazia entre os discursos; assume-se como linguagem à parte não comunicativa, hermética, passando a ter um valor em si mesma, torna-se núcleo irradiador de sentidos infinitos, desafiando o leitor a dar prosseguimento ao acto criativo.” (2000,pag 27 in A inutil Poesia de Mallarmé)

                                              ILUSÃO

O espelho não reflecte os medos que encharcam o meu silêncio. Muito menos as alegrias que degolam o meu sorriso.

                                                As Vezes

O espelho mente a dizer verdades na inocência das incertezas que se amotinam na vista alegre das minhas angústias.

A tocar flautas. Ao som do triste olhar da lupa

A atirar pedras. Para os olhos que se olham a procura da verdade das certezas pintadas a vermelho dos semáforos.

Paragem! Miragem?

As 4 rodas roncam (a morte, a angústia, o silêncio, a memória) na abstracta estrada da ilusão, onde

F                                 l                         o                      r                       e                  s    apodrecem no verão esburacado da objectiva da maquina fotográfica. Múltipla visão (ordem e caos, verdades e mentiras) de olhos bem abertos na fechadura da alma amedrontada pela doce aparição do labirinto.

As flores atravessam a primavera (que a muito clama por elas) com sapatos de neve (cuidado o Verão e eterno) chutam o silêncio que habita a escuridão. e lá                                                          e lá .

E lá do outro lado da margem, em pleno suar do inverno uma flor (esta) sem arvores nega de dar a voz as pedras.

Insiste. Persiste em aprender a ética da memória das flores que se escondem na estacão última do tempo (o sono) com amarguras de alegrias e angústias. Deitadas no prato hasteado nas lágrimas da bandeira do futuro.    

E no presente? Vejo a minha face multiplicada por 2 no quadro dos olhos deste Deus da Carnificina chamado espelho.



Assim sendo este poema toma de forma subjectiva uma realidade tangível a poesia que se instala nos olhos do leitor faz nos crer que a mesma é feita de inutilidades que no decorrer da sua digressão nas mãos do leitor a tornam útil para humanidade.

É neste prisma que apraz me dizer o seguinte: escrever poesia é colher perigos no covil do leão, onde parte-se com o conhecimento de causa dos dois destinos predefinidos

1º Assumir esta “morte vil” viagem sem volta, internacionalizar as duvidas, e procurar o suicídio desta voz rizomatica no rugir do leão.

2º-procurar (sobre) na eternidade desta perigosa realidade, e afirmar a coragem de que é possível plantar sonhos nas garras do leão.

Há aqui indubitavelmente no poema acima lido uma paixão, uma sensibilidade supra sensível, com as coisas que a priori do ponto vista de um cidadão comum não tem nenhuma missão neste universo, e este poema vem mais uma vez mostrar, dar a conhecer os sentimentos do silêncio, as lágrimas das pedras, os sonhos das flores, os labirintos da memória e o tropel que a morte provoca.

Por exemplo: quando uma pedra estatela-se na poltrona da sua arca e um homem a pisa ou a chuta e em seguida o mesmo fica a contorcer-se de dores, com a pedra acontece o contrário ela fica alegre pois conseguiu mostrar ao homem a sua grandeza, a sua capacidade de o fazer chorar, e a sua forca aglutinadora, consequentemente fê-lo ouvir a sua voz e dentro dela diz - eu sou capaz.

Estas coisas sem vida, mas com vida, convidam e transportam todas as musas para o infindável teorema da poesia. Um espaço impar onde a inutilidade das coisas e a utilidade dos  sonhos reais procuram o aconchego para as suas vozes; vozes de medo, vozes de solidão, vozes de alegria cavalgam em constante mutação para o silencio onde de forma (in)consciente tomam de assalto a folha em branco:

As abelhas fabricam o seu zumbido ao anoitecer dos dias

E ao clarear da noite vendem a dor na matriz do mel amargo que as nossas bocas chupam

O zumbido das abelhas é multiritmico como a marrabenta.

Doce como os desenhos afiados da navalha em linhas horizontais que a cada tracejado a vida calha e a morte não  falha.

Mais uma vez assistimos um diálogo entre o zumbido da abelha e a malevolência da navalha e assim sendo surge a seguinte questão:

Como é que estas duas vozes que falam silêncios podem apagar a ternura da folha em branco?

Cesariny responde –“ pela saturação duma personalidade a disparar em todas as direcções, e não só nos textos”

Quando fala-se de todas as direcções refere-se a sensibilidade do poeta, a super realidade que vem de dentro (a transpiração) e a realidade que nos circunda (a inspiração).

Japone Arijuane - dois poemas (Moçambique)

Novíssima lavra da poesia moçambicana nas letras de Japone Arijuane, um dos representantes do Movimento Kuphaluxa, em mais uma troca afro-rizomática. Boa leitura para os dois poemas que seguem abaixo.
Abraços,
Ricardo Riso

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É, OU NÃO É?



Força fere feridas na alma, nauseabundos excrementos na bunda da cidade fede excitante

Vagina em líquidos d’agua jejuada

desafectação vil inspira e respira ar condiciona-se!

Conjunturas só para a minoria avermelhada.



 O vaivém dos Xapas antes cheios hoje enchidos: carnes vivas de bafo fúnebre há divisão dos perfumes, corpo sob corpo racismo sem problemas?

Leva frasco quando chegar abra o racismo, aliás, perfuma-se

Culatra opaca a tirar à vida bala ballet Marrabenta na dança da morte

TV sapataria vai escovando os mais sujos, vê! É o que não é, pensa pança cheia de fome.



Amanha nunca será novo dia,

Se continuas o mesmo: seiva da nação!

Antes flor que sempre murchou, regada de esperma, poder hipnotiza: cifrão: vai indo histérico não gera acções enquadra-se numa das gerações….

É, ou não é?

Responde, sempre é!



O que não é, você não vê, é, ou não é?

Muda plante tantas mudas, se urinol serve rega… reza dê a dízimos universais, mas nada muda, mas, vai! Muda! Talvez assim ninguém e nada muda-te.

Outro canal vê: ordem e progresso: sexo e violência: excremento tropical e a sua martirizada cultura? O ministério cuida! Cuida você de ti. 

Sétima classe.

Sétima ignorância.



Isca no coração da modernidade: cidade peixe bem ao fundo do mar desértico, fedendo em fedelhos à fidelidade corrupta, aversão digna de indignidades soberanas fezes quantas vezes suportaremos as politicarias? Fôlego as acácias, folga as carícias à venda na avenida, matem a pobreza com a mesma fome, vem Machimbombo bomba na hora de ponta vermelha de sangue, rostos militares com fome na guerrilha dos transportamentos, pó cores de urnas dejectos falaciosos, já agora mudos sem olfacto, como ser alguém, num país de donos






Discurso póstumo de um recém-forjado herói

(As marcas de uma guerra doem mais do que as turbulências em campos de batalha, [Holyba Wotene])



Profiro pela graça da força

das forcas dos sentidos

da garça louca furtiva de alegrias inócuas

pólvora perfume a fragrância estrondosa

quebra olfacto

e todos outros sem

tidos ou mal sido no meu ser!



Quase perco a vida, mas ganho a morte,

à única forma de ter indescritíveis sentidos

e sentir os em concomitante.

Pelo pássaro e o tambor:

guerra e pobreza

mortes e mortos

loucuras e maluco(ras).

 Aqui vai, pelos dezasseis anos, minha gratidão

do gatilho e indicador aglutinados em prol de nada,

nada que se faziam as vidas:

sem culpas,

sem direitos,

sem pecados na fé do idealizado,

lixado em dementes opacas, hipnotizadas a culatra:

caninos,

lobos,

bestas ferra,

tudo menos nada:

nada ao povo,

nada sei hoje porque… porque?

Por actual medo doutrem que suja língua e limpa vossas botas de garras de guerras?

Ou por poderio absolutamente interino?

Vivam,

comam,

bebam,

tudo façam.



Nada é eternal, além da mudança!

Nada é imortal, além da matança!

Hoje aí,

 amanhã aqui!

Virão e verão,

maçons que sois,

o inferno que vos espera,

o mal só gera o mal!



Falo pelas graças das forças das forcas dos sentidos…

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Domi Chirongo e Alexandre Chaúque lançam livros em Moçambique

NOVA LITERATURA MOÇAMBICANA. O Conselho Municipal da Cidade de Maputo e a Associação de Escritores Moçambicanos tem a honra de convidar ao lançamento dos livros Ndekeni, de Alexandre Chaúque, e Nau Nyau e Outras Sinas, de Domi Chirongo, a ter lugar no dia 19 de Junho de 2012, pelas 16h, no Átrio do Conselho Municipal da Cidade de Maputo. As duas obras foram vencedoras do Prémio Municipal 10 de Novembro, em 2010 (Domi Chirongo) e 2011 (Alexandre Chaúque). Entrada Livre.

sábado, 24 de março de 2012

Mia Couto - Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade

Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade* Mia Couto

Quero, antes de mais saudar os professores.

Durante anos, fui professor. E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições.

Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redações, nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo que só faz quem ainda está a aprender?

Lembro-me como se fosse hoje: o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas. Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar.

Depois, quando anunciou o título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas, dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno gesto.”

Havia qualquer coisa de profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos, sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias entregam tanto ao futuro deste país.

Comecei por saudar os professores. Parece que me esqueci dos estudantes. Ou que os coloquei em segundo plano. Mas não.

Todos somos professores, mesmo que não o saibamos. Perante os outros, perante os nossos pais, perante os amigos, perante nós mesmos, com bons ou maus exemplos, com tristes ou gratificantes lições, todos somos professores. Um dos maiores professores do nosso tempo é um homem que nunca deu aulas. É um homem que ensinou a sermos mais humanos. Mais do que isso, é um homem que ensinou a ter esperança num mundo tão desesperançado. Esse professor de toda a humanidade, de todas as raças e credos, é um africano. Chama-se Nelson Mandela. A sua vida foi uma interminável lição. Mandela é hoje uma bandeira mundial não apenas porque foi um político que dignificou a política, mas porque nos dignificou a todos nós, seres humanos. 

Deixem-me falar de Mandela. Este homem, que agora está doente e cansado, viveu encarcerado durante vinte e sete anos. Vinte e sete anos são mais do que o tempo de vida da maior parte dos presentes nesta sala. Vinte e sete anos de prisão é tempo suficiente para criar raiva, ódio e insuperáveis ressentimentos. Contudo, este homem converteu esse potencial negativo em força construtiva e reconciliadora. Um dos motivos de inspiração de Mandela foi ter encontrado num poema que se chama “Invictus”. Vou ler esse poema.

Do ventre da noite que tudo cobre

Negra como o fundo da cova escura

Agradeço aos deuses de todos os céus

Por quanto a minha invencível alma perdura



Ante as garras do cruel acaso

Nem eu tremi, nem o medo me turvou

Sob o peso da ameaça e da desumana violência

Eu sangrei mas a minha alma nunca se curvou



Não importa se a passagem é estreita

Não importa quantos castigos devo penar

Eu sou o dono do meu destino

Eu sou o capitão da minha alma.



Estes versos, meus amigos, foram uma espécie de suporte moral que deram força a Nelson Mandela. Vezes infinitas o prisioneiro 46664 da Ilha de Robin regressou a estes versos para não sucumbir. Como escritor e poeta, dá-me grande alegria saber deste poder da poesia. Neste caso, há qualquer coisa que deve ser acrescentada.
Na verdade, este poema foi escrito em 1875. O seu autor não foi um poeta sul-africano, não foi sequer um poeta africano. Quem escreveu estes versos foi um britânico chamado William Ernest Henley. Estes versos viajaram para além de séculos e continentes e iluminaram a esperança de um homem que, em vez de se vitimizar e procurar a vingança, nos deu uma eterna lição da crença nos outros. 

Eu venho falar para a Escola de Comunicação e Artes. Por isso me demorei nestes episódios. Porque acredito que a comunicação e a arte são ferramentas de mudança tão importantes como a política. Mandela fez da política um instrumento de comunicação da verdade. Ele fez da política uma obra na arte da reconciliação, numa nação dividida pelo preconceito. Talvez a cultura seja o mais poderoso e duradouro instrumento de intervenção social. No nosso continente isso é bem claro. Vejamos um exemplo:

Desde há 50 anos, quando começaram a acontecer as independências, o nosso continente conheceu mais de 210 presidentes. O desafio que vos faço é o seguinte: digam o nome de 10 (apenas 10) destes dirigentes que se tenham notabilizado como figuras humanas de referência. Terão dificuldade. Será muito mais fácil enumerarmos artistas e intelectuais dignos de serem lembrados. E é aqui que a figura de Mandela é tão importante para nós, africanos. Podemos não nos lembrar de muitos políticos africanos que nos dignifiquem. Mas o nome de Mandela basta para compensar toda essa ausência e devolver o orgulho de sermos quem somos.
Caros amigos, vou entrar agora no tema central desta alocução.

Todos os dias centenas de chapas de caixa aberta transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo essa forma de transporte é aceitável. Quem se transporta assim são animais. Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós esse atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados.

O caso dos chapas é apenas um exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser visíveis. Na nossa sociedade essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre, gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo, adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria. Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de ostentação dessa minoria.

O assunto que quero abordar convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria vida.

Estamos perante uma espécie de formatação mental e moral. A mensagem é a seguinte: querem dizer-nos as nossas doenças sociais são incuráveis. Resta-nos viver de remendos e expedientes.

Visitou-me um escritor amigo da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba. A primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria – depois de 50 anos de exportação de petróleo - é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em garrafas e jerricans nos passeios públicos. Para alguns esse é um processo natural em África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se apoderou dos circuitos formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a questão politica que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue, se tornou normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber. É mentira. A dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos impostos, para escapar das obrigações para com o património público. Quando o meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte:

- A minha surpresa não foi tanto o que eu vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria.

O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia da Republica nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem incomodados com a passagem da letra que diz: Nenhum tirano nos irá escravizar. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes misérias.

A invocação da chamada “africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples facto de andarem de calças. Mulheres de calças não é uma coisa africana – foi o que invocaram os agressores. Em nome de África se agrediram e mataram pessoas apenas porque eram homossexuais. Em nome da pureza africana se continua a impedir que, apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus estudos. Em nome de África se cometem os maiores crimes contra África. O nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes.

As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo. Porque achamos que não tem a ver connosco. Ou porque fazemos cálculos. É melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca do nosso silêncio e da nossa cumplicidade.

O mecanismo da invisibilidade foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos. Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo.

Eu rabisquei uma lista de fenómenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem extensa. Mencionarei apenas de alguns.

A violência contra os mais fracos

O primeiro desses fenómenos é a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é verdade. Mas os povos todos, do mundo, são pacíficos por natureza. O que muda é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional. Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas, invisíveis e perversas.

Hoje somos uma sociedade em guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos. Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um recado, uma definição de hierarquias. Quem chega primeiro à reunião, onde se senta, quem não comparece à cerimónia, com que carro chegou, de quem se faz acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão, sou chamado de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu queria comprar. Deixe que escolho um carro compatível com o seu estatuto.  

Estamos em guerra connosco mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes, os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são objecto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal, acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável natureza.

E conto-vos três episódios reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas:

Em Cabo Delgado 17 homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para que houvesse uma insuficiente resposta.

Em Manica dois jovens violam sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez.

Em Tete um homem mata a criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher porque a meio do dia ele chegou a casa e a mulher recusou fazer sexo com ele. O jornalista da televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do ato ao perguntar: “o senhor devia estava necessitado não é verdade?”.

Reclamamos a violência da rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70 por cento dos actos de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60 por cento dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afectado de modo particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por razões que se dizem culturais. Nós ainda banalizamos muito facilmente. É ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver connosco, que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é, desresponsabilizamo-nos. Mesmo sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver connosco.  

OUTRA GUERRA - AS VIUVAS

Sugiro que leiam o livro de Fabrício Sabat, chamado As viúvas da minha terra, para ficarem com uma ideia do crime generalizado que é cometido contra mulheres que vivem um momento dramático da sua vida. E nesse exacto momento de fragilidade, são assaltadas pelos próprios parentes. Levam-lhes os bens, os filhos, o sossego.

CASO DAS VELHAS

Acusadas de feitiçaria, roubaram-nas durante a vida, fizeram sumir a sua infância e juventude e, no final, roubaram a possibilidade de uma velhice tranquila, usufruída com os netos e as lembranças. Está longínqua a imagem de África como um lugar especial porque os velhos são respeitados.

GUERRA CONTRA OS GAYS E AS LÉSBICAS

Moçambique nem é dos países menos tolerantes. Há países que consideram formal e legalmente um crime o simples facto de ser ter uma orientação sexual diferente. Mesmo assim, há entre nós, uma enorme intolerância.

CASO DOS DOENTES MENTAIS

Nós estamos tão ocupados com outras doenças que esquecemos que não é apenas o HIV SIDA que tem implicações do ponto de vista do estigma social. As doenças mentais são outro mal não visível. Não creio que existam estatísticas da prevalência de doenças mentais em Moçambique. Mas a média em África é de 14 por cento da população.

ALBINOS  

Vou contar-vos um episódio real. Conheci um pedreiro que chamarei apenas por Fabião, que certa vez executou uma obra para minha casa. Um dia, uma moça albina veio à minha porta pedir água. O pedreiro desceu do escadote onde trabalhava para me dar conselhos: “é melhor não dar, ou usar um copo que depois deita fora”. Quando lhe perguntei porquê, ele respondeu: “aquela tjidajna é alguém que tem muitos problemas”. E reproduziu os habituais mitos e preconceitos sobre os albinos. No final confessou: “ainda bem que na minha família nós não temos disso».

Passaram-se anos e a semana passada o mesmo Fabião ligou para mim a perguntar se era possível entrar sem convite na exposição “Filhos da Lua”, na Fortaleza de Maputo. Ele ouviu na rádio que a exposição tinha por tema “os albinos” e estava muito interessado em levar a sua filha a esse evento. “É que a minha filha nasceu albina.” Fabião não podia nunca imaginar ser pai de uma tjidjana. Mas foi. E ele agora, por amor a essa menina, queria enfrentar junto com ela os preconceitos que ele mesmo guardava dentro de si. Chamei Fabião e ofereci-lhe que levasse para a sua filha dois discos. Um de Salif Keita, outro do nosso Aly Fake. E disse “esses são os melhores copos de água. Refrescam a alma”.

Muitas vezes pensamos que essas diferenças vivem fora de nós. A diferença está dentro de nós. Um em cada 35 moçambicanos é portador do gene do albinismo. Um em cada 35 pessoas é portador dessa gente. Nenhum de nós sabe à partida se poderá ser pai ou mãe de uma criança albina.

GUERRA COM OS MORTOS

Até aqui falei de conflitos com mulheres, crianças, velhos. Mas todos esses segmentos sociais são compostos por gente viva. O mais triste é que a nossa sociedade entrou em guerra com os seus próprios mortos. Este é o sintoma mais grave da nossa patologia social: passamos a maltratar até os nossos mortos. O que acontece nos nossos cemitérios é um atentado contra os mais básicos princípios morais. As famílias enterram os seus entes queridos e são obrigadas a retirar o mais ínfimo valor que acompanhe o falecido. Sabem que no dia seguinte, o caixão foi assaltado, o morto foi despido. As próprias jarras de flores são quebradas antes de serem colocadas para prevenir que sejam roubadas e vendidas. Não contentes em assaltarem os vivos, há gangs que se especializaram em roubar os mortos. Nem depois do último suspiro estaremos a salvo dos ladrões.

Meus amigos

Eu disse que estávamos em guerra connosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin Luther King disse O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus. É o silêncio dos homens bons.

A lista das nossas guerras domésticas estende-se por mais domínios. Os exemplos que escolhi ilustram o facto de que não somos a sociedade pacificada que pretendíamos ser. Há um percurso enorme a percorrer e esse caminho é sobretudo uma viagem interior. Essa viagem só acontecerá se vocês souberem ver, souberem não aceitar. Tudo o que aqui disse pode ser resumido em dois textos pequenos de autores alemães. Peço-vos que escutem. O primeiro é uma parábola e diz o seguinte:

“Um dia, vieram e levaram o meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram o meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram-me mim. Nessa altura, já não havia mais ninguém para reclamar.”

O segundo texto é um apelo na forma de verso, escrito pelo dramaturgo Bertolt Brecht:



"Nós pedimos-vos com insistência:
Nunca digam - Isso é natural.
Diante das barbaridades de cada dia,
Numa época em que corre sangue
Num tempo em que a arbitrariedade tem força de lei,
Num momento em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
Se aceitamos as coisas como naturais

este nosso mundo torna-se imutável



Caros amigos



O nosso tempo também está em guerra contra os jovens. À nossa frente, e não falo apenas de Moçambique, se anunciam tempos difíceis. À nossa frente está um futuro magro em que parece que apenas alguns podem caber. O que nos sugerem é que briguemos uns com outros para ver quem cabe nessa estreita porta. Mas talvez seja possível criar um outro futuro mais amplo.



Vão ser assediados. Por forças políticas que estão mais preocupadas com o Poder do que com a resolução efectiva dos problemas. Por forças que se lembram dos jovens quando se trata de colher votos. Por forças que falam aos jovens, não falam com os jovens.

Vocês são jovens. Ser jovens é uma condição inerente, que se exerce sem esforço. Mais do que jovens, sejam diferentes. Tragam para o nosso tempo o inesperado, o que é novo, o que é historicamente produtivo.

Uma nova classe está povoando o poder político em Moçambique. São os papagaios. Reproduzem o discurso dos chefes. A maior parte deles são jovens. Mas são jovens de alma envelhecida. Os papagaios podem pensar que o seu futuro está assegurado porque olham o país como se fosse um aviário. Mas o nosso futuro como nação não se constrói senão com ousadia, com vitalidade e um infinito respeito pelos outros.

Ficamos muitas vezes à espera, ficamos à espera que o governo faça. Temos medo de tomar iniciativa. Achamos arriscado. Não agimos porque dizemos que faltam recursos, falta orçamento, falta autorização do chefe. Mas existem lições que parecendo pequenas podem tocar alguém para toda a vida.

O professor primário que leu uma redacção sobre as mãos calejadas de sua mãe não imaginava que estaria marcando para sempre um aluno seu. O poeta William Henley não poderia imaginar que versos seus poderiam sustentar, cem anos mais tarde, a vontade de lutar de um africano que iria mudar o destino de milhões de pessoas.

Fazemos o que fazemos não porque sejam grandiosas iniciativas mas porque necessitamos mudar as coisas e melhorar o mundo. Fazemos o que fazemos porque, como diz o poema, nós queremos ser donos do nosso destino e capitães da nossa alma colectiva.

*Fonte: texto gentilmente enviado pelo escritor Andes Chivangue em 14 de março de 2012.