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domingo, 30 de junho de 2013

40 anos sem Amílcar Cabral (A Nação)

40 anos sem Amílcar Cabral
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 281, de 17 de janeiro de 2013, p. A26
Amílcar Cabral, o líder maior do PAIGC e da luta pela independência das nações irmãs Cabo Verde e Guiné-Bissau, completará quarenta anos de sua morte no próximo dia 20 de janeiro. Cabral foi um dos nomes relevantes para libertação do continente africano, escrutinando ao longo de sua curta vida político-intelectual uma teoria crítica para a independência plena dos países africanos. A sua defesa pela unidade africana com um novo viés inserido no contexto das lutas anticoloniais perpassava pela união Cabo Verde-Guiné-Bissau, pois “esses territórios por diversas vezes estiveram sob uma mesma administração, conformando uma única província” (ANJOS, p. 163) e retomando de forma subversiva a união formulada pela colônia portuguesa “ao mesmo tempo que representaria uma contribuição original à unidade africana” (CABRAL, p. 45).
Cabral era um líder cônscio dos problemas de seu tempo expostos por fragilidades de diversas ordens, tais como os parcos recursos econômicos substanciados na agricultura e pesca principalmente, as dissidências políticas e as desestabilizações promovidas em meio a uma Guerra Fria bipolarizadora do mundo, passando pelo neocolonialismo motivado pelas autonomias negociadas com as antigas colônias e o empobrecimento de quadros competentes nas futuras nações e os desvios éticos de seus líderes, como afirmava a seguir: “[ele] opõe-se à exploração de sentimentos identitários por indivíduos ou grupos no momento da sua articulação no domínio sociopolítico (...). Os ‘sentimentos étnicos’ não constituem problemas em si próprios. Só existe perigo quando esses sentimentos são exacerbados por dirigentes oportunistas e ambiciosos à procura da sua promoção pessoal” (WICKS, p. 86).
Dentre outros aspectos teóricos, talvez os mais interessantes para a tentativa de criação de uma unidade e efetiva participação dos cabo-verdianos na luta contra o colonialismo tenha sido as provocações de “retorno às origens e reafricanização dos espíritos”, uma vez que esse viés à África foi contrário à valorização da mestiçagem proposta pelos intelectuais da revista “Claridade” e sua aproximação ao continente europeu. Era este o pensamento predominante e também apoiado pelo colonialismo. Para o sociólogo cabo-verdiano Gabriel Fernandes: “é fundamentalmente a partir da recusa dos traços culturais africanos e da plena assunção dos lusitanos que a nova elite intenta afastar-se dos colonizados e aproximar-se do colonizador. Nessa operação, instaura-se uma espécie de dinâmica automutiladora, na qual, sob os influxos teórico-epistemológicos resgatados ao Brasil, idealizou-se ‘um mundo que o português criou’ e em que o africano não entrou ou está prestes a sair” (FERNANDES, p. 17).
Entretanto, para a urgência do momento histórico por que a “estratégia por trás da formulação da identidade mestiça não busca romper, mas situar-se mais confortavelmente no jogo” (ANJOS, p. 156), caso dos intelectuais claridosos e referente ao que Fernandes mencionou como “mínimo cultural compartilhado”, que os mantinha como cidadãos de segunda classe, porém, continua o ensaísta, a emergência das formulações de Cabral do “retorno às origens também favoreceu uma autoconfrontação dos artífices identitários com o anverso e o não-ponderável da sua produção, pondo a descoberto todos os vieses de uma identidade que se afirmou autonegando-se” (FERNANDES, p. 20).
O originário pensamento de Cabral gerou críticas e oposições de diferentes prismas, sendo combatido internamente inclusive. Como suas ideias eram contrárias ao neocolonialismo e de difícil aceitação pelos dissidentes internos, motivaram o seu assassinato. Fato comum aos grandes líderes pan-africanistas da época. Para a literatura, Cabral foi enfático ao defender a transcendência da mensagem da geração claridoso, “o sonho tem que ser outro” e estimulou autores incisivos como Onésimo da Silveira e Mário Fonseca, e encontra na obra poética de José Luis Hopffer Almada a revisitação de seu passado.

BIBLIOGRAFIA:
ANJOS, José Carlos dos. Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde: lutas de definição da identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS; Cabo Verde: Instituto de Investigação Promoção e Património Culturais – INIPC, 2004.
FERNANDES, Gabriel. A diluição da África: uma interpretação da saga identitária cabo-verdiana no panorama político (pós)colonial. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002.

WICK, Alexis. A nação no pensamento de Amílcar Cabral. In: LOPES, Carlos (Org.). Desafios contemporâneos da África – o legado de Amílcar Cabral. São Paulo: Editora da UNESP, 2012. p. 69-106.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carlos Lopes: Desafios contemporâneos da África - O legado de Amílcar Cabral


Desafios contemporâneos da África
O legado de Amílcar Cabral
Lopes, Carlos

ISBN: 9788539302291
Assunto: História
Idioma: Português
Formato: 14 x 21
Páginas: 216
Edição: 1ª
Ano: 2012
Acabamento: Brochura
Peso: 270g


Sinopse

Este livro, constituído de um conjunto de artigos escritos pelos principais especialistas na obra de Amilcar Cabral, é um convite à reflexão sobre a complexa situação do continente africano. Mas por que voltar ao pensador e revolucionário morto em 1973? A resposta está na importância de sua obra, a qual abre caminhos para compreender a situação atual da África, que se livrou do colonialismo, mas mergulhou em infindáveis lutas armadas sem ideologia que não podem dar respostas a seus problemas políticos, sociais e econômicos. “É justamente esta a razão pela qual é tão oportuno que aqueles que admiram Cabral paguem a ele o tributo de se aprofundar na difícil trilha da compreensão dos fenômenos atuais”, escreve o guineense Carlos Lopes organizador deste livro.
Tal compreensão passa pela obra desse pensador, considerado um dos mais inovadores e criativos já nascidos na África e um herói da emancipação do continente – Cabral foi fundador e líder do movimento de independência na Guiné-Bissau e Cabo Verde e um ativo participante da luta armada contra o colonialismo português nos anos 1970.

Cada um dos artigos reunidos neste livro reflete um ângulo diferente da obra do pensador. A apresentação, escrita por Peter Karibe Mendy, enfoca a situação da Guiné-Bissau colônia, que levou Cabral e seus camaradas a ingressarem na luta armada pela libertação dos guineenses e também dos cabo-verdianos. AlexisWick, Lars Rudebecke Ibrahim Abdullahfalam de sua originalidade ao tratar conceitos complexos com simplicidade e pragmatismo. Georges Nzongola-Ntalaja, John Fobajonge Carlos Lopes concentram-se na relevância das formulações de Cabral para a compreensão de dilemas persistentes, como a construção do Estado, o pan-africanismo e as dimensões éticas. Já Abebe Zegeyeaborda as ideias do intelectual sobre cultura num texto sobre sua influência na literatura africana.

Esta obra é, enfim, uma grande fonte de informações sobre o pensamento e a personalidade de Amílcar Cabral, que contribuiu de modo expressivo e definitivo para o processo que culminaria na independência das colônias portuguesas na África e representa uma chave para a compreensão daquele continente nos dias atuais.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Abraão Vicente – O Trampolim (resenha)

Abraão Vicente – O Trampolim

Por Ricardo Riso
Publicado no semanário A Nação, nº 171, de 09 de dezembro de 2010, p. 10.

Abraão Vicente, o jovem e renomado artista plástico nascido na ilha de Santiago, concretiza sua estreia literária com o romance “O Trampolim”, sob a chancela da editora Kankan Studio.

A narrativa inicia-se com a observação amargurada do narrador de fotografias do passado da sua família. Apesar do tom melancólico, recordo Roland Barthes de “A câmara clara” no qual afirma que a força constativa da fotografia incide sobre o tempo, autenticando aquilo que foi; segundo Barthes, as fotografias devem ser habitáveis ao observador, conduzindo-o tanto a um tempo adiante – utópico – quanto a um tempo passado; desejo atingido durante a descrição das imagens, pois “essas fotos poderiam ter sido tiradas em qualquer bairro, vila ou cidade de Santiago ou de Cabo Verde, nos anos oitenta”.

Romance de memória, o narrador recorrer à infância, apropria-se dos amigos imaginários e das “reminiscências do rapaz ‘cabeça de ventos’, pegadas dos dias em que era dois, vivia façanhas inventadas e ouvia vozes que lhe pediam para voar”, e a partir daí tratar de diversos aspectos da condição humana.

Ambientado na periferia de Lisboa, apropriando-se do falar dos negros cabo-verdianos, recriados literariamente pelo autor com criatividade e ousadia ao subverter a língua portuguesa, ainda enriquecida por vários estrangeirismos, ou seja, “trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”, como disse Barthes em Aula. Um falar peculiar, das ruas, que não causa conflito à compreensão do texto, experiência semelhante a de Allan da Rosa, destacado escritor da literatura periférica de São Paulo/BR.

Nas intermináveis conversas do(s) Zé(s) os assuntos são diversos, atropelam-se. Surpreende o racismo, o desejo de embranquecimento dos negros ao tentar relacionar-se com mulher branca: “com uma branca qualquer boa, como faz todo preto decente que quer causar boa impressão e um pouco de inveja aos seus frendes cá na terra”, e concretizado pelo Nhô André, tornando-o exemplo a ser seguido. Assim como é racista a insensibilidade de políticos que vêm crianças disputarem o lixo dos parlamentares, pois tiram “daí o seu alimento de cada dia”.

A emigração forçada dos africanos em razão da crise econômica – consagrada na célebre exposição “Pass Ports” do autor/artista –, a assimilação dos negros e a amnésia induzida, no sentido empregado por José Luis Hopffer Almada; denúncias que fazem recordar a necesssária “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral: “de investigar como eram as coisas e como se transformaram”, no dizer do Zé; para além de um intenso humanismo, da conquista da igualdade – “querer o meu não é roubar o seu/ pois o que quero é só função de eu”, de Raul Seixas –, de respeitar a alteridade, “igualdade vem de saberes porque és diferente e entender a razão dos outros”.

Cabe ressaltar alguns procedimentos literários de imenso agrado, tais como o diálogo com a escrita automática surrealista – “uma coisa é escrever palavras da língua que eu sei ler e entender, outra coisa é escrever tudo que te passa pelo capacete e na língua que te mais te convier”; o dadaísmo do “jogo do absurdo”, as teorizações acerca da arte contemporânea e o uso de cartas enviadas para si mesmo, tal como o jovem Fernando Pessoa.

Para finalizar, apetece mencionar as pertinentes questões ontológicas levantadas ao longo do romance, as severas críticas à sociedade de consumo e ao vazio existencial dessa condição – e recordo o Zigmuth Bauman de Vidas para Consumo; entretanto, e sobretudo, celebrar o desejo permanente de sonhar e de voar como impulsionadores e motivadores frente às adversidades da vida e a defesa inconteste da liberdade individual em um mundo cada vez mais igual, previsível e competitivo. Esses são alguns dos grandes méritos apresentados durante a leitura d’O Trampolim, de Abraão Vicente. Um belo sopro de renovação à literatura cabo-verdiana.

sábado, 11 de setembro de 2010

Movimento Pró-África (sítio)

Uma boa dica de sítio que pensa as diversas problemáticas do continente africano, chama-se Movimento Pró-África.

Desde já, recomendo a leitura dos artigos de José Luis Hopffer Almada, sob o título Breves apontamentos a propósito de recentes polémicas sobre a identidade literária caboverdiana e o artigo de Hermenegildo Carvalho, intitulado Revisitar Amílcar Cabral (I), fundamentos da sua Liderança.

Abraços,
Ricardo Riso

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Para sempre Amílcar - por Ricardo Riso


Para sempre Amílcar
Por Ricardo Riso
Publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, número 149, 08 de julho de 2010, p. 14.

(...) para a exaltação das multidões enraivecidas
exultantes com o herói do povo
aclamado como abel djassi
festejado como messias-fundador
adorado como cristo negro dos rabelados de santiago
sempre gratamente louvado como cabral
sempre simplesmente chamado amílcar
(ALMADA, José Luis Hopffer C. Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade.
Praia: Spleen Edições, 2009. p. )

No eterno combate às desigualdades sociais, à exploração e detrimento de muitos para favorecimento de poucos em uma constante metamorfose da dominação opressora, convém estarmos atentos aos discursos estabelecidos e enfrentarmos a perigosa memória seletiva que tenta conduzir à amnésia coletiva personagens importantes do passado. Por isso, em razão de mais um 5 de julho cabo-verdiano independente, a recordação pertinente de Amílcar Cabral.

Não se pretende neste curto espaço falar dos incontáveis feitos do grande líder da união Guiné-Cabo Verde, do PAIGC, da sua atuação como engenheiro agrônomo, da iluminada intelectualidade e do humanismo exacerbado – africano e universal –, para além de todos esses venerados atributos queremos aqui relembrar os seus poemas e a influência dos seus ideais na poesia.

Da consciência política adquirida desde cedo à afirmação intelectual concretizada na prolífica convivência na Casa dos Estudantes do Império, ao lado de nomes como Alda Lara, Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade, Amílcar, em “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”, percebe na poesia de “Claridade” e “Certeza” as marcas da cabo-verdianidade: “Os seus poetas sentem e sabem que, para além da realidade cabo-verdiana, existe uma realidade humana de que não podem alhear-se. (...) E dizem, querem dizer ‘um canto... que cruze nos mares mais distantes e entre nos corações dos homens... um canto com contornos de paz e relevos de esperança’”.

É na crença na esperança de uma nova luz que o faz versar “para além de um Sol já velho defraudado/ há um puro Sol cruzando os infinitos/ vivificando a Vida. (...) Que amanhã na planície conquistada/ da terra redimida/ libertada/ os Homens irmanados colherão/ o saboroso Pão”. Sol contrapondo-se à noite colonial manifestada pela insularidade aprisionadora: “colinas sem fim de terra vermelha/ – de terra bruta –/ rochas escarpadas tapando os horizontes,/ mar aos quatro cantos prendendo as nossas ânsias!” Mas é na força proposta pela “reafricanização dos espíritos” na qual o insistente e ansioso pedido do poema “Regresso” visualiza a chuva que renova o tempo: “Mamãi Velha, venha ouvir comigo/ o bater da chuva lá no seu portão./ (...) Dizem que o campo se cobriu de verde,/ da cor mais bela, porque é a cor da esp’rança./ Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde/ – É a tempestade que virou bonança...// Venha comigo, Mamãi Velha, venha,/ recobre a força e chegue-se ao portão./ A chuva amiga já falou mantenha/ e bate dentro do meu coração”.

Orientados pelos ideais cabralinos, por um “destino nosso, livremente escolhido”, letras armadas de poetas surgidos ao final dos anos 1950 como Onésimo Silveira e na “postulação irritada da fraterninade” de Mário Fonseca, construíram o seu fazer poético consubstanciado pelo desejo irrevogável de libertação do país, por conseguinte, do continente africano, escancarado por Fonseca em “Eis-me aqui África”.

Sensível não só ao injustificável colonialismo português, mas a todas as formas de opressão aos países africanos e do 3º mundo em geral, esse “Guevara de África”, tão bem alcunhado por Alda Lara, ganhou uma correta homenagem pelo seu legado de homem, político e poeta na antologia temática organizada por Mário Pinto de Andrade, “O Canto Armado”, com uma seleção de poema: Kabral ka morrê.

Na produção contemporânea cabo-verdiana podemos citar as passagens do supracitado “Praianas”, de José Luís Hopffer C. Almada, nas quais o “verbo livre e urgente” do líder é recordado e exaltado. Com isso, concluímos essa pequena homenagem ao homem de “perfil visionário da aura carismática” que foi Amílcar Cabral.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Cabo Verde - 5 de julho, 35 anos de independência




Amílcar Lopes Cabral (Bafatá, Guiné-Bissau, 12 de Setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973)

REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!


POEMA

Quem é que não se lembra
Daquele grito que parecia trovão?!
– É que ontem
Soltei meu frito de revolta.
Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,
Atravessou os mares e os oceanos,
Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,
Não respeitou fronteiras
E fez vibrar meu peito...

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,
Confraternizou todos os Homens
E transformou a Vida...

... Ah! O meu grito de revolta que percorreu o Mundo,
Que não transpôs o Mundo,
O Mundo que sou eu!

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,
Muito longe,
Na minha garganta!

Na garganta de todos os Homens



ROSA NEGRA
 
Rosa,
Chamam-te Rosa, minha preta formosa
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.


Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...

Mas temo tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos...
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente
Ser’as uma negra
E eu temo a tua sorte!
 
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!



 ILHA

Tu vives - mãe adormecida-
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som das músicas sem música
das águas que nos prendem...

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Fonte: http://www.didinho.org/apoesiadeamilcarcabral.htm