Bela montagem de texto de Mia Couto cativa o público
Por Ricardo Riso
Transpor para o teatro o universo literário extremamente particular e inovador de Mia Couto não é uma tarefa simplória, exige de quem resolve encarar tal desafio, um profundo mergulho nos vários aspectos intangíveis trabalhados em sua escrita, tais como: a memória, o sonho, o tempo, o animismo africano e a sua criativa maneira de subverter a língua portuguesa, criando um “português moçambicano”. E é dentro desta experiência com a oralidade que Mia desfila a sua genialidade ao inverter provérbios, modificar a sintaxe etc.
Fruto de uma parceria banhada pelo Índico, “Mar me quer” alia o diretor das Ilhas Reunião Mickael Fontaine, o músico Matchume e um afinado elenco de atores moçambicanos, para encenar a história de Zeca Perpétuo e Dona Luarmina. Os dois moram à beira do mar, solitários. Ela, desfolhando uma flor invisível e querendo esquecer o passado quer ouvir as histórias de Zeca, enquanto este evita falar do seu passado e tenta conquistá-la de diversas maneiras sem obter sucesso. A memória tenta ser esquecida, ambos não desejam revelar o outrora que coincide com a violenta guerra civil do país. Os segredos do nebuloso passado são revelados a partir do momento que surgem as inserções do pai e do avô de Zeca Perpétuo e de um narrador. Assim, começamos a compreender que a história de Zeca e Luarmina vão se entrelançando.
A pluralidade cultural moçambicana está presente no texto, identificada nas três gerações dos Perpétuos. Seu avô representa o negro, apegado ao chão e às tradições; o pai assimila-se e procura aproximar-se da cultura do branco invasor, condição que será cobrada pelos antepassados o deixando cego e com os olhos azulados se tornando um adivinho que passa a ser procurado pelos pescadores. Enquanto Zeca sofre o conflito de viver entre culturas opostas – a negra e a branca do colonizador –, pois foi criado por um padre e em meio a livros, mas que busca o mar e a rede de pesca com a mesma constância que se afasta dos livros. Já a senhora Luarmina é uma mestiça, a mescla de raças que formam a nação moçambicana.
Diante dos conflitos entre tradição e modernidade, além da presença da memória, dos sonhos esgarçados e de certo mistério comuns na prosa coutiana, a direção da peça encontrou soluções cênicas interessantes e criativas que enriqueceram a narrativa bela e pungente. Sábia e caprichada a presença da música de Matchume, aliando tambores e sons eletrônicos sem jamais sobrepor as vozes dos autores. A presença constante do vídeo a pontuar os esgarçamentos da memória da velha Luarmina, simbolizados por um corredor interminável e vazio, ou a visão do mar e os momentos de fuga de Zeca Perpétuo fechando-se naquilo que quer encobrir. Os momentos de tensão e de presença do avô de Zeca são encenados dentro de uma tela circular em que ora o jogo de luz demarcar o ator, ora são as suas mãos e o seu rosto de encontro à tela a demonstrar os conflitos que passam os personagens. A iluminação do cenário, com destaque para a forte cor azul, também capta com bastante sutileza as passagens e tensões vivenciadas.
A atuação do elenco é segura, sem maiores sobressaltos, o que valoriza e reverencia a força do texto de Mia Couto. Zeca Perpétuo e Dona Luarmina são representados sem exageros, discretos e simples, angustiados com seus conflitos internos, de encarar seus medos, rever seus erros, de liberar a palavra e revelar o que está dentro de si. Daí a opção de Luarmina em refugiar-se na escolha de seu futuro (bem-me-quer / mar-me-quer) desfolhando as pétalas de flores invisíveis, enquanto Zeca Perpétuo escuta os gritos insistentes das gaivotas. Já o narrador possui a sobriedade e a serenidade necessária para pontuar os acontecimentos.
“Mar me quer” encenado pelo Grupo Tijac (Moçambique/Ilhas Reunião) convence por saber traduzir os aspectos essenciais do texto de Mia Couto, gratifica pela leveza de como os assuntos são tratados, por respeitar o sonho e, principalmente, por nos fazer refletir, a partir das tensões de Zeca Perpétuo e Luarmina, a maneira como encaramos nossos conflitos internos, nossos medos, os segredos sombrios que nos atormentam, que tentamos ocultar e esquecer, por conseguinte, travam a nossa evolução. “Mar me quer” fascina e emociona pela bela montagem, pelo final surpreendente como o é em todos os textos de Mia Couto. “Mar me quer” é uma peça obrigatória, naturalmente.
Última apresentação: 11/07 – 19h – Sesc Ginástico
Ficha Técnica:
Texto: Mia Couto
Adaptação e Direção: Mickael Fontaine
Elenco: Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão
Duração: 01:00h
Música: Matchume
Técnico: Hassan Aboudakar













