segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraão Vicente lança "O Trampolim" na Cidade da Praia


O artista plástico, cronista e agora escritor Abraão Vicente lança a sua primeira aventura literária intitulada  “O Trampolim” na livraria Nhô Eugénio, Cidade da Praia, Ilha de Santiago/Cabo Verde, no dia 2 de Dezembro, a partir das 18h30. O autor informa que a apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto, para além de leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.


Sobre o Livro:

“O Trampolim” é um livro feito de estória que não chegam a ser contos, muito menos um romance. Estórias que são antes conversas de um miúdo de várias idades: 5,6,7 ou 8, se calhar até 9 anos. Conversas de um miúdo, que se chama Zé, com o seu amigo imaginário (ou se calhar seu alter ego) também de nome Zé. Por se repetir demasiadas vezes o nome Zé fica-se sem saber quem é a personagem real e quem é a fictícia. Falam da infância e de coisas sérias: Deus, amor, tecnologia, morte, emigração, racismo, dominação, arte. Coisas sérias faladas a brincar. Usam a linguagem da rua, o português mal falado, uma tradução quase literal do crioulo para o português. O livro está escrito em português mas também poderia ter sido em crioulo pela cadência, pelo ritmo e pelo imaginário. Um vocabulário muitas vezes inventado, recriado, enrolado, se calhar um livro para se ler em voz alta.

Como é que dois miúdos, ou se calhar apenas um, sabem tanto do mundo e dos seus mistérios? Não se sabe bem. Mas também não é se para entender. Linha da estória? Se houver uma, é a estória do miúdo que quer aprender a voar e pede ao amigo imaginário (ou será o contrário?) para lhe construir um trampolim. Enquanto esperam que o Trampolim seja construído os dois vão tecendo lembranças.

Este livro foi escrito em 2003 na Assomada. É lançado sob a chancela da editora Kankan Stúdio que, tal como as personagens deste livro, também ela é imaginária.
 
Fonte: e-mail de divulgação para a imprensa enviado pelo autor em 29 de novembro de 2010.

Mito Elias - MAJINA - 30 anos 100 Lennon



video
http://www.youtube.com/watch?v=w-w8hIPpkpk


MITO ELIAS

apresenta

MAJINA - 30 anos 100 Lennon
Celebração Vídeo-Poética à paz e à memória de John Lennon

Mito Elias - Vídeos, Poemas, Sonorizações e Vozes

Convidados :
Elmano Caleiro - Contrabaixo, Percurssão e Voz.
José Brazão - Percurssão e Voz.
José Cunha - MC - Poeta Residente

7 de Dezembro - 21.00 H

Livraria CE Buchholz
Rua Duque de Palmela, 4 - Lisboa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Palestra na ONG Projeto Legal

Hoje, a partir das 16h30, ministrarei a palestra "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa - ler para amar" na ONG Projeto Legal, à Av .Marechal Floreano, 199 - sala 502, Centro/Rio de Janeiro.

ÁFRICA E AFRICANIDADES - Ano III - nº 11 - nov/2010

ÁFRICA E AFRICANIDADES - www.africaeafricanidades.com.br

Ano III - nº 11 - novembro de 2010 - ISSN 1983-2354

Sumário

Problemáticas lusógrafas e o papel da língua portuguesa na emergência da identidade literária caboverdiana e na universalização da poesia caboverdiana contemporânea
José Luís Hopfffer C. Almada

The arts of resistance in the poetry of Linton Kwesi Johnson
Jair Luiz França Junior

A valorização da história e cultura afro-brasileira por Luiz Carlos da Vila
Maria Angélica Ventura Ferreira

Memórias na escrita de autoria feminina afrobrasileira
Assunção de Maria Sousa e Silva

Strategizing renewal of memories and morals in the african folktale
John Rex Amuzu Gadzekpo e Orquídea Ribeiro

Consciência coletiva, identidade negra e cidadania: uma perspectiva pós-colonial para as construções sociais no Brasil
Bruno Diniz Fernandes

Baara, de Souleymane Cissé
Wanessa Tenório Bezerra

O ensino e a pesquisa sobre África no Brasil e a lei 10.639
Luena Nascimento Nunes Pereira

Cabelo bom. Cabelo ruim: a construção da identidade afrodescendente na sala de aula
Sayara de Brito Félix

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Ricardo Riso

A construção da identidade negra em territórios de maioria afrodescendente
Tarcia Regina da Silva

Da cor do preconceito: o negro na teledramaturgia brasileira
Alex Santana França

População negra no Ceará e sua cultura
Marlene Pereira dos Santos e Henrique Cunha Junior

O outro pé da sereia: uma viagem no tempo-espaço
Aparecida Cristina da Silva

Afrocentricidade e educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado
Renato Nogueira dos Santos Junior

A reconfiguração da identidade nacional moçambicana representada nos romances de Mia Couto
Josilene Silva Campos

Água e azeite: políticas afirmativas e a democracia racial no Brasil
Natália Neris da Silva Santos

O outro e o eu: a cama, nas narrativas de Niketche e A cor púrpura
Waltecy Alves dos Santos

“Sonéá: exaltação da tradição oral guineense nos moldes da escrita”
Jusciele C Almeida de Oliveira

Esporte, integração social e a aplicação da lei 11.645/08 No 2º segmento do Ensino Fundamental da E.M. Professor Washington Manoel de Souza – Queimados – R.J
Denise Guerra dos Santos

Legislação portuguesa para o ultramar
Esmeralda Simões Martinez

Memória e espaço: sentimentos insulares pintados e cantados por Luísa Queirós e Conceição Lima
Eneile Santos Saraiva

Da invisibilidade do negro nos estudos sobre a cultura sertaneja
Salatiel Ribeiro Gomes

O uso da literatura de base africana e afrodescendente junto a crianças das escolas públicas de Fortaleza: construindo novos caminhos para repensar o ser negro
Geranilde Costa e Silva

Crédito pecuário a mulheres de moçambique: dinâmicas sociais de gênero
Maria Henrique Cândido e Marta Júlia Marques Lopes

Diálogos entre Brasil e Angola: a recriação literária da infância em obras autobiográficas
Karina Mayara Leite Vieira

África negra e a formação da africanidade
Tarcia Regina da Silva

Dança do chorado: facetas do corpo e cultura vilabelense
Belnidice Terezinha Figueiredo Fernandes

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz
Por Ricardo Riso
Consagrado como um dos principais nomes das artes plásticas de Cabo Verde, Tchalé Figueira desde o início dos anos 1990 apresenta a sua verve como escritor, passeando pela poesia, novelas e contos. De sua lavra são “Todos os naufrágios do mundo”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”, “Solitário”, “Contos de Basileia” (este ainda no prelo) e participações em antologias como “Tchuba na desert” para além de publicações em jornais e revistas das ilhas.

“O Azul e a Luz” foi o seu mais recente livro de poesia, publicado em 2002 pelo Instituto da Biblioteca Nacional, composto por trinta e um poemas, oito desenhos do próprio Figueira e prefácio de Isabel Lobo. Nesse livro deparamo-nos com um sujeito lírico angustiado, melancólico, amargurado com o meio e o tempo em que vive, que busca a força da palavra poética, por isso suplica “é urgente a luz...”.

Sim, a luz para o fim da insensibilidade entre os homens, o término das injustiças perpetuadoras do caos e da dor presentes na contemporaneidade, estimuladas por políticos inescrupulosos a determinar o trágico destino de milhões de vida: “Vivo num Planeta azul de fogo/ Onde a hiena e o chacal se beijam/ Esmagando corações e flores”. Sendo assim, “Com fervor, peço à criação/ Que um dia os generais do Mundo/ Acordem-se poetas e os banqueiros/ Da Wall Street Cristos na multiplicação/ Dos peixes”.

O sujeito lírico é ciente da hipocrisia predominante e da bestialização da condição humana, por isso em “Epitáfio a um poeta”: “Sonhou toda a vida acalentando a morte/ Para melhor viver num mundo de mentiras”, conduzindo-o a rememorar nossa ancestralidade e perguntar-se(nos): “Qual foi o erro na evolução de LUCY/ Nestes milhões de anos?...”, da crueldade de um mundo tomado pelo desenvolvimento da tecnologia que não diminui as desigualdades, mas que proporciona o aumento do terror, ceifando vidas na “era cibernética/ Que faz máquinas que não amam/ E impiedosamente matam”.

Contrapondo-se a isso, o sujeito lírico transfigurado em australopiteco trará o novo homem, persistente em seu clamor, deflagrador da mudança para um novo tempo: “Eu sou um australopiteco da era cibernética/ E vivo num planeta triste em sangue// Também sou um australopiteco poeta da era cibernética/ E grito todos os dias a palavra LIBERDADE...”

A insensibilidade predomina entre os seres, ofusca a luz, a impossibilidade do amor apodera-se da poesia: “Beijei constelações de melancolia// Na cegueira de um reencontro triste,/ Desvaneci-me na ilha do meu sentir e/ Naufraguei no frio dos teus beijos,/ Terrivelmente ausentes de luz”. Apesar da melancolia apreendida pelo sujeito lírico diante das atrocidades que dilaceram as pessoas, a “utopia do poeta” determina a sua trajetória, o seu compromisso para com os homens, o seu sentimento solidário permanece intocável: “Irei pelas ruas do Mundo delirando/ Com o cheiro (a)mar das ilhas/ E farei com que meus cabelos/ De mil pássaros voando, sejam/ A anunciação da contiguidade”.

A redenção está no Amor, o lirismo socorre o sujeito lírico: “Hoje acordei com o sabor a pão da tua boca/ E fui ao mar pedir aos Deuses que nos trouxessem/ A purificação no amor.// Regressei a luz com lábios de sal/ E beijei-te num solene baptismo de amantes/ Temperando o alimento da vida”.

O sujeito lírico propõe o retorno à tenra idade, com os “olhos de uma criança/ Encontro a luz lírica do mundo”, para assim reconstruir os caminhos, reformular as escolhas por meio da “serenidade rítmica da luz”, luz que iluminará as consciências e conduzirá os homens a tempos de paz e de igualdade. Da luz para o azul, azul do céu, do infinito, do universo onírico, do sonho que jamais morrerá por um mundo melhor retratado na delicadeza dos desenhos e nos poemas deste incansável contestador, o poeta-pintor Tchalé Figueira.

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo, dia 26/11 - 22h, TV Brasil

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo
Filme mostra legado que o poeta deixou à cultura cabo-verdiana

Eugênio Tavares – Coração Crioulo, filme de Cabo Verde, dirigido por Júlio Silvão

Eugênio Tavares, o poeta que melhor soube expressar os sentimentos da alma cabo-verdiana, é a figura central do documentário Eugénio Tavares – Coração Crioulo, de Júlio Silvão, e que a TV Brasil exibe nesta sexta (26), às 22h.

O filme foi rodado na Ilha Brava, terra natal do poeta, escritor, músico e jornalista
, na Praia, e em Lisboa. É um elogio à maestria com que Eugênio Tavares explorou na música e na poesia a trilogia Ilha, Mar, Amor, três objetos inseparáveis do seu pensamento poético-literário.

Uma trilogia muito bem explorada. “Ninguém até hoje entrosou melhor do que Eugénio Tavares esses três objetos, e de um modo tão íntimo, quase vivo, servindo ao mesmo tempo de palco para venerar o amor, através da mulher cabo-verdiana, na sua musica “Ô mal de Amor ca bu matan, Ô mal de Amor ca bo dexam”, afirmou o diretor Julio Silvão.

E continuou: “Nunca a alma de um povo encontrou, tão perfeitamente, a sua expressão, numa única manifestação de arte. Através dos poemas e das músicas de Tavares e do cruzamento dessa trilogia com o pensamento dos diferentes escritores de gerações procedente, dos testemunhos dos velhos da ilha, dos músicos e declamadores, pode-se compreender a verdadeira dimensão desta trilogia e a sua manifestação na alma crioula, a maneira de ser, sentir e agir das gentes das ilhas, as histórias de amor, irreverência, emigração, saudades e liberdade”.

Ano: 2010 Gênero: Documentário. Duração: 52 min. País: Cabo Verde. Direção: Júlio Silvão. Co-produção: Júlio Silvão/Silvão Produção, Filmes/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa–CPLP.

O DOCTV CPLP é uma iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação/TV Brasil, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura. A série leva ao público nove documentários inéditos produzidos nos países da CPLP e em Macau, que serão veiculados simultaneamente na grade de programação das TVs que integram a Rede DOCTV CPLP. A iniciativa integra uma operação de fomento e teledifusão do audiovisual em TVs públicas nos nove países da Rede, que são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau.

Horário: Sextas, às 22h

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

100 anos da Revolta da Chibata (RJ), viva João Cândido!

Hoje completa-se 100 anos da Revolta da Chibata, liderada pelo negro João Cândido Felisberto. Em 22 de novembro de 1910, dois mil marinheiros tomaram quatro navios de guerra após a violenta punição de 250 chibatadas sofridas por um marinheiro.
Veja o programa especial do canal Globo News que conta, infelizmente, com as tristes declarações do historiador naval legítimo representante do racismo à brasiliera.
Ricardo Riso

Mostra Brasilidade - CCJF/RJ

Programação CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL/RIO DE JANEIRO
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
cep:20040-009 – Rio de Janeiro- RJ
Até 01 de dezembro.
Fonte: http://mostrabrasilidade.wordpress.com/centro-cultural-justica-federal/programacao/
CURADORIAS: PROGRAMADORA BRASIL, DOC TV CPLP, DOCTV BRASIL.
E CHAMADA PÚBLICA CPLP (filmes brasileiros e estrangeiros inscritos na chamada pública)
Modalidade: SESSÕES DE FILMES & DEBATES

Terça-feira, 23 de novembro

14h – O Judeu (Brasil)
16h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)
O Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)

Quarta-feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)
16h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
Victor Lopes (Brasil)
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta-feira, 25 de novembro
14h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
16h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
18h – Exterior (Brasil)
Uma Lulik (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil / RS)
21h – O Rei do Carimã (Brasil / SP)

Sexta-feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil / PE)
21h – HU (Brasil / RJ)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne (Brasil)
18h – Um Dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil / BA)
21h – Álbum de Família (Brasil / BA)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema, uma transa amazônica (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – DEBATE com realizadores do Vídeo Nas Aldeias
20h – Carta Sonora (Brasil / SP)
21h – Jesus no Mundo Maravilha (Brasil)

Terça-feira, 30 de novembro
14h – Carmem Miranda
Carmen Miranda: Bananas is My business
16h – Os Anos JK – Uma Trajetória Política
18h – Divina Previdência
Cronicamente Inviável
20h – Periferia.com (Brasil / SP)
21h – Bagatela (Brasil / SP)

Quarta-feira, 01 de dezembro
14h – Segunda Feira
A Grande Feira
16h – Carolina
A Negação do Brasil
18h – Serras da Desordem
20h – DEBATE A Brasilidade no Cinema Brasileiro

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção
Por Ricardo Riso

que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro
(Éle Semog. A chave da cor brasileira. p. 111)

Após um longo tempo, Éle Semog, pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, lança em 2010 um novo livro de poesia, Tudo que está solto, pela editora carioca Letra Capital. O livro conta com prefácio de Nelson Olokofá Inocencio e texto de aba de capa de Salgado Maranhão.

Tudo que está solto é formado por um conjunto de cento e dez poemas, subdivididos em seis partes temáticas de emblemáticos títulos, só para citar algumas: Um cotidiano de ironias e fatalidades, Contrários contrastes do tempo e Afirmando outras versões da história. Generoso, o poeta introduz cada parte com um excerto de nomes consagrados da literatura afrobrasileira e angolana, tais como Cuti, Miriam Alves, Arlindo Barbeitos e Lia Vieira.

Gratificante constatar a maturidade da poesia semoguiana no decorrer das páginas deste livro. A poesia permanece corrosiva, aliás, aprimora-se nesse quesito, mostrando o caráter de “negro insurreto” intransigente ao racismo que se perpetua em nossa sociedade. O sujeito lírico demonstra voracidade perante a hipocrisia: “Basta de brancos e negros assimilados/ como penduricalhos da tolerância e integração./ A riqueza da nação não mente/ e não deixa mentir:/ branco é branco, negro é negro/ e isso não tem nada de irmão” (p. 68). Não foge do olhar ácido do sujeito lírico a perversidade da nossa democracia racial, que impõe o embranquecimento do negro, a negação de suas raízes, para ser aceito nas camadas altas da nossa sociedade, é o tema do poema “A chave da cor brasileira”: “uma outra razão turva e pesada,/ insinuosa e despudorada/ oferece uma das chaves/ que abre o mundo dos brancos.../ É para eu entrar, mas sozinho/ e lá poderei ser pitoresco e faceiro,/ desde que deixe os meus no caminho/ e tranque para sempre o negro/ que também sou, fora de mim” (p. 111).

Chocou-se? Que bom! Como afirma Inocencio no prefácio: “muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas” (p.11-12). O sujeito lírico semoguiano posiciona-se aberta mente a favor de nós, negros, com veemência revisita o nosso passado e procura reformular a nossa história, dando-nos o lugar de agente ao qual nos foi usurpado pela história oficial e o consequente ato de elevar a nossa autoestima: “(...) Não me curvo ao silêncio/ dessa versão perversa e lúcida, que torna invisível tudo que estou,/ como se o que penso pudesse ser/ desconstruído, pela expressão estúpida/ desses alcoviteiros cheios de estórias,/ que roubam detalhes, fingem fatos,/ e inumanos desfiguram vidas e verdades./ (...) Pertenço a uma História/ feita pelo meu povo/ e penso como meu povo,/ (...) Sou um negro como tantos outros/ negros e negras que esbanjam respeito/ mas que também atiçam o seu medo./ E é melhor assim.” (p. 77-78)

Dentro desse processo de reconstrução da história brasileira, os poemas reunidos em “Afirmando outras versões da história” são simbólicos, de extrema criatividade e rigor na pesquisa ao passado, vide a maneira poética como se dá a explicação da origem do nome Rio de Janeiro para a cidade. Sob o título “Ralando faz tempo no BR”, temos uma sequência de poemas que buscam reconstruir a trajetória da nossa colonização, sendo emocionantes os longos poemas que reescrevem a história da Bahia (Bahia dos vice-reis), Pernambuco (Terra pernambucana) e Rio de Janeiro (Carioca do Rio), sobrelevado pelo caráter didático configurando-se um ótimo material para professores trabalharem em sala de aula as nossas questões etnicorraciais. Cáustico, o sujeito lírico escancara as nossas feridas jamais cicatrizadas: “Com sincera fé católica e voraz volúpia/ por quase quatro séculos Portugal,/ seu rei, suas elites/ construíram a história mais triste/ que a humanidade tem para contar/ (...) de lucrar com a carne do negro/ como se não houvesse amanhã./ Comprar e vender aquela gente negra/ que ao embarcar o clero batizava por dinheiro,/ e em nome dos céus dava o inferno inteiro” (p. 80-81). O sujeito lírico ainda atenta-se aos perigosos revisionismos da elite branca contemporânea que pretende minimizar o cruel processo escravocrata: “Restam poucos documentos sobre isto,/ ninguém sabe, ninguém viu,/ como se aquelas multidões nos portos,/ nos porões, nos pelourinhos,/ fossem no tempo e na história uma miragem,/ e o algoz um erro acidental, um descaminho” (p. 81).

Resgatar a nossa história negra implica a coragem em desconstruir os cânones literários impostos pelo poder, tarefa que o sujeito lírico assume, cumprindo o fundamental papel destinado ao escritor negro comprometido com seus pares: “Vide o que vi e li/ do padre Antonio Vieira,/ quando fazia sermão/ quase perdia a estribeira,/ puxando o saco do papa e do rei,/ falando um montão de besteira./ Dentre outras sandices/ foi esse padre que disse,/ que a Senhora do Rosário/ abençoava a escravidão” (p. 85).

Sempre provocativo, os poemas lembram-nos as imutáveis violências as quais somos submetidos, “desde o tempo que o Direito/ tirou o direito da gente” (p. 105). O direito ao negro, a nossa condição humana até os dias atuais não é plenamente aceita. No passado, até o leite materno das mães negras era negado aos nossos antepassados: “É saber que os bebês negros,/ desde cedo, muito cedo,/ eram filhos, mas viravam bichos/ e perdiam do aconchego do seio/ o direito do alimento perfeito” (p. 73). Para nós, há o direito sim de sermos exterminados por uma polícia racista, programada e orientada para dizimar nossa juventude negra, principalmente a que vive em áreas carentes, por sinal e estranha coincidência, de maioria negra. Novamente o sujeito lírico versa a sua ferocidade, denuncia o triste óbvio do nosso cotidiano democraticorracial e, em feliz neologismo, apresenta os negrotérios: “No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios” (p. 52).

Essa tensão típica do caos urbano da contemporaneidade, “que sufocam a minha lógica tribal” (p. 70), mostra a insensibilidade social do poder perante os seus pares, impondo deveres mas jamais oferecendo direitos: “Estou cercado por deveres,/ obrigações, tensões urbanas/ (...) Às vezes me respingam/ manchas de sangue, noutras/ multas, e impostos, e juros,/ e crianças mortas./ Muitas crianças mortas/ na lama dessa democracia./ Enchentes, roubos, gente cão,/ e filhos aspirados por essa/ ideologia global” (p. 70).

Apesar de todo o comprometimento de Éle Semog com a justiça social, a denúncia do racismo e a valorização do negro, é importante frisar a versatilidade formal e estética deste poeta que utiliza com desenvoltura o recurso aos versos livres; de intensa ironia – “Não escrevo/ como se fossse um/ necrófilo./ Sinto isto em cada letra./ Mesmo quando/ os poemas se espalham/ feito coisas mortas” (p. 17). o lirismo amoroso e negro: “Essa beleza inteira negra,/ delicadas tranças e carapinha,/ coloridas curvas ímpares/ que eu sei pegar com os olhos/ faz-me pensar que mulheres/ lindas assim, iguais a você, são mais raras” (p. 107); poemas longos e curtos que lembram os da poesia marginal dos anos 1970 e a urgência do ‘aqui e agora’: “...Falo de sensações/ passageiras./ Aquelas eternas naquele momento.” (p. 23) ; a própria tessitura poética, a dificuldade de fazê-la e da sua importância frente à perda de sensibilidade dos homens versada por um amargurado sujeito lírico: “a poesia me irrita (...)/ A poesia me consome inteiro/ como um beijo aflito/ que quer ser visto/ na boca de quem ama/ Sou poeta e também sou assim,/ deformado, que se resume poema,/ que se expressa pela natureza/ dos limites do porvir./ (...) A poesia me elucida/ - isto tem sido tão raro -/ quando o amor que vejo entre as pessoas,/ é um defeito, um acaso./ Deixo-me imolar pelo silêncio/ até que uma lágrima perigosa/ vasa ao limbo do pranto,/ como se o meu espírito lamentasse/ pelos mortos construídos/ com radicais banalidades,/ que todas as poesias evitam evitar” (p. 52-54); e o recurso criativo da metapoética com seus próprios poemas, “O drama afro de Bigu e Juliana” e “Anotações sobre o ato de escrever”, versando a respeito da força do verbo poético, da libertação da palavra que conduz o poeta em um embate no qual a palavra sempre sai vencedora: “o poema é o que eu quero,/ não o que a inspiração tem vontade/ (...) Não gosto quando/ o texto me ilude,/ engole e me abafa.../ não gosto mesmo/ quando o texto é mais/ vaidoso que eu./ E foi isto que aconteceu/ nesse poema afro/ do drama de Bigu e Juliana” (p. 109-110).

Para concluir, é necessário celebrar este Tudo que está solto, a palavra depurada e madura, a versatilidade formal e temática deste militante negro de Nova Iguaçu (RJ), participante de diversas antologias como “Cadernos Negros” e “Ebulição da escrivatura”, com textos publicados na Alemanha, Estados Unidos e Itália, para além dos seus, dentre outros, “Curetragem – poemas doloridos” e a biografia de Abdias Nascimento, “O griot e as muralhas”. Corrosivo sim, agressivo também, sobretudo, verdadeiro e sincero nas suas intenções. Éle Semog brinda-nos com um livro obrigatório, de excelente qualidade poética, de confirmação do seu nome entre os maiores da literatura negra brasileira, por conseguinte, entre os melhores da literatura brasileira. Um brado poético contra o racismo em nossa sociedade, uma feliz leitura para nós negros. É o que tenho a dizer a respeito de Tudo que está solto e agradecer ao seu autor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Éle Semog lança Tudo que está solto na Funemac/Macaé, dia 18/11, 18h (participação Ricardo Riso)

O escritor afrobrasileiro Éle Semog lançará TUDO QUE ESTÁ SOLTO (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010), seu recente livro de poesia na FUNEMAC/Macaé no dia 18 de novembro, a partir das 18h. Além do escritor, a mesa será composta pela Profa. Dra. Sonia Santos e por mim.

Abraços,
Ricardo Riso

Alguns poemas do livro de Éle Semog.

VOLTANDO DE GRAMACHO PELA LINHA VERMELHA
A cidade cresceu ao meu redor
e agora me devora pra fora,
como acontece com um botão
na casa de uma camisa...
Mas sou um negro insurreto,
que não se dobra aos infernos
que me oferecem.
Estou cercado por deveres,
obrigações, tensões urbanas
e municipalistas,
que sufocam a minha lógica tribal.
Mesmo vivendo isto,
com essas coisas tão naturais
não consigo ser cidadão.
Às vezes me respingam
manchas de sangue, noutras,
multas, e impostos, e juros,
e crianças mortas
na lama dessa democracia.
Enchentes, roubos, gente caô,
e filhos aspirados por essa
ideologia global.
Ainda assim, dia desses,
peguei um por do sol com uma lua tão linda,
ali pelos lados da ponte Rio Niterói,
que até Deus se assombrou
com a emoção que expressei,
só com esse restinho de gente
guardado dentro de mim,
que não sabia que estar viva.
Eu sou um desses homens
que cuida da casa, das crianças e da mulher.
Já sei me libertar, só não preciso saber
para que ser livre.
(p. 70-71)


A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(p. 110-111)

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos (resenha)


Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Por Ricardo Riso


Hoje não é nenhum absurdo nem exagero afirma que Conceição Evaristo é a principal voz feminina da nossa literatura afro-brasileira. Por isso, devemos celebrar o lançamento de “Poemas de recordação e outros movimentos”, pela editora Nandyala, em 2008, antologia poética que reúne poemas do passado e inéditos dessa mineira de Belo Horizonte, nascida em 29 de novembro de 1946.

Desde os anos 1970 radicada no Rio de Janeiro, formada em Letras, Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e Doutora em Literatura Comparada pela UFF/RJ, Evaristo teve sua estreia literária em 1990, na série Cadernos Negros, publicação anual editada pelo Grupo Quilombhoje com o intuito de lançar escritores afro-brasileiros, projeto iniciado em 1978. A partir daí, a poeta começou a ter seus textos, que navegam entre a poesia, o conto e o romance, em diversas antologias nacionais e estrangeiras. Individualmente, publicou os seguintes romances: “Ponciá Vicêncio” (2003 e já na segunda edição) e “Becos da Memória” (2006).

A obra de Conceição Evaristo conduz-nos a um profundo mergulho na memória que navega entre as recordações individual e coletiva, “a memória bravia lança o leme:/ Recordar é preciso”. Logo somos banhados pelas “águas-lembranças” de Evaristo que se posiciona como mulher negra e da comunidade negra em geral para transformar em poesia as suas “escrevivências”. Estas são motivadas pelas lembranças familiares, formadoras do binômio vida-poesia, destacando-se a convivência com a mãe, “mulher de pôr reparo nas coisas,/ e de assuntar a vida”, e que “me ensinou,/ insisto, foi ela,/ a fazer da palavra/ artifício/ arte e ofício/ do meu canto/ da minha fala”, o aprendizado oral pelos provérbios, “quando se anda descalço/ cada dedo olha a estrada”, e também do contato frutífero com a Tia Lia que “temperando os meus dias/ misturava o real e os sonhos/ inventando alquimias./ (...) Houve um tempo/ em que a velha/ me buscava/ e eu menina/ com os olhos/ que ela me emprestava,/ via por inteiro/ o coração da vida”.

O cruel desenvolvimento das adversidades pelas quais passam as mulheres negras através dos tempos, configurando a dor e as experiências de injustiças sociais, são demonstrados no poema “Vozes-Mulheres”, no qual o sujeito lírico retoma as dores sofridas pela bisavó no passado de violenta escravidão, como ecos na memória de “lamentos/ de uma infância perdida”. Relembra a submissão sofrida pela avó ainda escrava diante da “obediência/ aos brancos-donos de tudo”, recorda os ecos das dores de sua mãe “no fundo das cozinhas alheias/ debaixo de trouxas/ roupagens sujas dos brancos”. Até chegar no tempo presente, na sua voz que ainda “ecoa versos perplexos/ com rimas de sangue/ e/ fome”, para atingir a consciência madura de sua filha, voz que “recorre todas as nossas vozes” e que se quer livre: “Na voz de minha filha/ se fará ouvir a ressonância/ o eco da vida-liberdade”.

A condição feminina aparece com frequência em seus poemas. Em “Do fogo que em mim arde” a coisificação da mulher é combatida: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ não aquele que te apraz”; conduzindo à metapoesia e à afirmação de um sujeito feminino pleno: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ aquele que me faz,/ e que molda a dura pena/ de minha escrita./ É este o fogo/ o meu,/ o que me arde/ e cunha a minha face/ na letra-desenho/ do auto-retrato meu”. Portanto, verifica-se a rigidez de um sujeito lírico que possui a força de dar a vida, por fim, dar movimento ao mundo e que diz: “Eu fêmea-matriz/ Eu força-motriz/ Eu-mulher”.

Ao posicionar-se como negra e ao fazer literatura com cariz afro-brasileiro, torna-se inevitável apresentar temas que não integram o cânone e são excluídos por ele, tal como a denúncia do racismo presente em nossa sociedade que a ordem estabelecida insiste em negar e persiste com a mentira de que vivemos em uma democracia racial. Os poemas de Evaristo invocam este e outros assuntos referentes ao nosso cotidiano de cidadão negro e o poema “Meu Rosário” é um excelente exemplo por tratar da religiosidade híbrida brasileira – “Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo/ padres-nossos, ave-marias” –, a discriminação permanente que o negro é submetido em uma cerimônia cristã – “As coroações da Senhora, em que as meninas negras,/ apesar do desejo de coroar a Rainha,/ tinham de se contentar em ficar ao pé do altar/ lançando flores” –, escancara o subemprego dos nossos pares – “As contas do meu rosário fizeram calos/ nas minhas mãos/ pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,/ nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo”. Entretanto, permanecem os “sonhos de esperanças” e a transformação do verbo em poesia – “E neste andar de contas-pedras,/ o meu rosário se transmuta em tinta,/ me guia o dedo,/ me insinua a poesia”.

Intertextualizando com Carlos Drummond de Andrade, para nós negros há sempre incontáveis “pedras no meio do caminho”. Para suportar e superar “a áspera intempérie/ dos dias”, necessita-se assumir “a ousada esperança/ de quem marcha cordilheiras/ triturando todas as pedras/ da primeira à derradeira”, “moldando fortalezas-esperanças” para sobreviver diante de tantas desigualdades e perseguições ao nosso povo, principalmente aos jovens, vítimas constantes da violência policial e demonstrada com sutileza pelo sujeito lírico: “E pedimos/ que as balas perdidas/ percam o rumo/ e não façam do corpo nosso,/ os nossos filhos,/ o alvo”. Fatos recorrentes que revoltam, o incômodo por séculos de opressão não segura mais a língua metamorfoseando a conjungação dos verbos: “E não há mais/ quem morda a nossa língua/ o nosso verbo solto/ conjugou antes/ o tempo de todas as dores”. Sendo assim, o sujeito lírico atua como agente de mudança da História e propõe o seu grito de liberdade: “E o silêncio escapou/ ferindo a ordenança/ e hoje o anverso/ da mudez é a nudez/ do nosso gritante verso/ que se quer livre”.

Devemos frisar que o poeta afro-brasileiro é um partícipe ativo – e por sinal, incômodo – da presença negra na literatura brasileira, assim como possui plena consciência da necessidade de uma revisão crítica da História oficial que minimiza o passado de séculos de escravidão e a exclusão social que se perpetua para a maioria de nossos pares na contemporaneidade. Só resta ao sujeito lírico cumprir seu papel e assumir essa condição, ou seja, denunciar “o que os livros escondem,/ as palavras ditas libertam. E não há quem ponha/ um ponto final na história”.

Com isso, os poemas de Conceição Evaristo possuem o predomínio temático das diversas e urgentes questões afro-brasileiras e também da mulher, todavia, sua poesia navega com desenvoltura pela metapoética, demonstrando reverência ao verbo poético, transbordando lirismo e emocionando as retinas: “Quando eu morder/ a palavra,/ por favor/ não me apressem,/ quero mascar,/ rasgar entre os dentes,/ a pele, os ossos, o tutano/ do verbo,/ para assim versejar/ o âmago das coisas”.

E é assim “crivando buscas/ cavando sonhos/ aquilombando esperanças/ na escuridão da noite” e cosendo “a rede/ de nossa milenar resistência” que a poesia de Conceição Evaristo insiste na defesa inquestionável dos negros, persiste com as denúncias às condições discriminatórias sofridas por nós e amadurece em sua estrutura estético-formal. “Poemas da recordação e outros movimentos” mostram um verbo depurado de uma autêntica artífice da linguagem, marcando a sua posição destacada na construção de uma literatura afro-brasileira autônoma, para além de configurar a inclusão do nome de Conceição Evaristo entre o que vem sendo produzido de melhor qualidade na literatura brasileira contemporânea.

Macaé Odara - dia 19/11, 13h, Centro Macaé de Cultura


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Sonia Santos, coordenadora da CORAFRO.

Literacia e a Semana da Consciência Negra

Prezados(as),
No Literacia compareço com duas resenhas de livros de escritores afrobrasileiros, Cuti e a antologia poética Negroesia, e Conceição Evaristo com o seu Poemas de Recordação e outros movimentos. A seguir, o informe da revista.
Abraços,
Ricardo Riso

Caros Amigos de Literacia,
O Dia da Consciência Negra é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história, desde a
época da colonização do Brasil, tentando garantir seus direitos sociais.

O Dia da Consciência Negra também é marcado pela luta contra o preconceito racial, além de temas como mercado de trabalho, discriminação política, etnias,e homenagens aos negros que se destacaram na construção de nossa História.

Nesta Semana da Consciência Negra, publicamos artigos, ensaios, resenhas e teses, que julgamos merecem leitura atenta e reflexiva , tais como:

I.*Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil [Registros Históricos]

II.*A importância do Negro -Teodoro Sampaio-[Engenheiro , Geógrafo e Historiador Brasileiro]

III.*Diferentes na cor, iguais em OPORTUNIDADES?-por Sonia Regina Lourenço

IV.*Carolina Maria de Jesus-Favelada,Escritora, publicou seu primeiro livro Quarto de Despejo em 1960. [Obra que foi traduzida para 13 idiomas]

V.*Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos- por Ricardo Riso

VI.*Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira- por Ricardo Riso

VII.*Negrice- por Lilian Maial

Ler em: http://literaciaracismoecrime.blogspot.com/

anadeabrãomerij
[Literacia]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mário Lúcio Sousa - O Novíssimo Testamento (livro)


E se Jesus ressuscitasse mulher?

No tempo em que os Portugueses imperavam sobre o arquipélago de Cabo Verde, aconteceu num domingo de Páscoa, na minúscula freguesia do Lém, estar a morrer a mulher mais beata que a ilha de Santiago conhecera. Interpelando-a as netas sobre a sua última vontade, não quiz ela, como seria de esperar, chamar o padre, respondendo em vez disso que gostaria de ser fotografada. Porém, assim que o flash disparou, um mistério inexplicável varreu a ilha de lés a lés; e, quando, ao fim de muitas peripécias, a fotografia foi finalmente revelada, a surpresa foi tão impossível que não houve, no mundo inteiro, uma só alma que conseguisse manter a boca fechada. A ilha quase ia ao fundo com a confusão… Se o Antigo Testamento anuncia a vinda do Messias e o Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, este Novíssimo Testamento é uma autêntica revolução: pois dá testemunho da reencarnação de Jesus no corpo de uma mulher – ilhéu e africana – que parece ter vindo inaugurar a Terceira Idade do Mundo mas não está livre de enfrentar os preconceitos sociais, religiosos e políticos do seu tempo.

Mário Lúcio Sousa é autor de uma obra literária que vai da poesia (Sob os Signos da Luz) à ficção (Vidas Paralelas, premiado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, em 2003), passando pelo teatro (Saloon, de 2004). O Novíssimo Testamento é o seu primeiro livro a ser editado em Portugal.


Título: O Novíssimo Testamento
Autor: Mário Lúcio Sousa
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores Língua Portuguesa
Ano de edição: 2010
 
Fonte: Na esquina do tempo, blog do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo

domingo, 7 de novembro de 2010

IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS

Prezados, estarei no IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS, de 8 a 11 de novembro, na UFOP/MG, apresentando a comunicação Memória, pan-africanismo e revisão crítica da história no poema “Australidades”, de José Luis Hopffer C. Almada, no dia 10 de novembro, a partir das 18h no IFAC - sala 1, ao lado dos colegas LETÍCIA NUNES GOMES (UFRG) – Ilha e Ilhéu: fusão do espaço-personagem, em A louca de Serrano, de Dina Salústio; KLEYTON R. W. PEREIRA (FAFIRE) – Identidade, gênero e diáspora – uma análise das personagens femininas nos contos de Lília Momplé, Maria Margarida Mascarenha e Orlanda Amarilis; RUBENS PEREIRA SANTOS (UNESP/Assis) – A novíssima poesia caboverdiana: a poética de José Luis Tavares.
Uma mesa que muito me atrai por apresentar a produção contemporânea de Cabo Verde, a partir das obras de J L Tavares, Dina Salústio (felizmente não será Mornas eram as noites) e José Luis Hopffer Almada.
Até lá!
Abraços,
Ricardo Riso

Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

NOTA DE IMPRENSA


Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

Tchalê Figueira está de regresso à Praia para uma exposição promovida conjuntamente pelo Palácio da Cultura Ildo Lobo e pelo IC-Centro Cultural Português que, pela primeira vez, reúne pintura e desenho daquele que é um dos mais internacionais artistas cabo-verdianos.

Partindo do propósito criativo que Tchalê definiu como orientador para a exposição - “Entre a realidade e o onírico, a minha liberdade de intervir e inventar” – foram seleccionados dois acervos de obras que traduzem essa tentativa “de perceber e intervir sobre o tempo e o espaço, seja o destas ilhas, seja do Mundo”, bem como essa mitologia pessoal que o artista constrói, urdindo “bichos estranhos, homens e mulheres, habitantes do meu subconsciente”.

Assim, o Palácio da Cultutra Ildo Lobo acolherá 10 telas de grande dimensão que constituem a mais recente produção de Tchalê Figueira, que já este ano expôs em Zurique (Suíça), na Bollag Galleries, em Pontedera (Itália) e Ponte Sôr (Portugal), no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas e nas Canárias (Espanha) no quadro do projecto “Horizontes Insulares”, bem como numa exposição colectiva sobre José Saramago, em Azinhaga (Portugal), tendo elaborado uma obra tendo por base o livro “As Minhas Pequenas Memórias”, da autoria do escritor recentemente desaparecido.

No IC-CCP serão pela primeira vez exibidos os desenhos produzidos por Tchalê Figueira para a ilustração de 4 obras. Para “Marianinha”, conto infanto-juvenil escrito por Giselle Silva, Tchalê criou os 11 desenhos que acompanham e recriam a história. A longa amizade com Brito Semedo suscitou a sua participação em “Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá”, para o qual produziu 10 ilustrações, o mesmo número de trabalhos criados para a colectânea “Tchuba na Desert”. Finalmente, para “Contos de Basileia”, livro da sua autoria no prelo, Tchalê produziu mais 5 ilustrações. No total, estarão assim exibidos 36 desenhos “reinvenção de outras reinvenções”, como refere o artista.

A abertura da exposição de pintura decorrerá no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no dia 9 de Novembro, às 19.00h e estará aberta ao público até dia 28. No dia 11, às 18.30h, terá lugar no auditório do IC-CCP a abertura da exposição de desenho, que ficará até dia 23.

Praia, 02/11/10
 
Fonte: Arco da Velha  - http://www.tchale.blogspot.com/

sábado, 6 de novembro de 2010

Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira


Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira

por Ricardo Riso

sou a ave da noite / sou ávida noite / que bate asas de vento / e traz um canto agourento / ao sonho dos opressores / e traz um canto suave / a despertar outras aves / pro revoar da justiça
 (CUTI. Ave. p. 76)

A epígrafe assinala o compromisso de Cuti, pseudônimo de Luís Silva, na conscientização do negro brasileiro. Além de ser um dos criadores e mantenedores da importante publicação “Cadernos Negros”, Cuti tornou-se nome de referência destacando-se no panorama literário, social e intelectual brasileiro por sua expressiva produção literária, pela coerente defesa dos seus ideais e reivindicações em prol da população afro-descendente, massacrada por séculos de submissão e opressão.

Com uma produção multifacetada, Cuti passeia com desenvoltura, rigor e excelência pela poesia, prosa, teatro, ensaios etc. sempre tendo como preocupação primeira revelar as desigualdades impostas pelas relações étnico-raciais e em elevar a autoestima do afro-descendente brasileiro. Com isso, o reconhecimento e o respeito ao seu trabalho ultrapassa as barreiras “invisíveis” da sociedade brasileira impondo-se pela ótima qualidade de sua escritura, o que fica evidente na leitura dos 84 poemas selecionados pelo autor na antologia “Negroesia” (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007).

Abrangendo sua produção poética desde 1978, ano de sua estreia, Cuti acrescenta dez poemas inéditos na edição de “Negroesia”. Dividida em quatro partes: Cochicho, Aluvião, Chamego e Axé, anunciam as temáticas que perpassam os textos reunidos por um sujeito lírico criativo, inovador e dissonante na maneira como subverte o discurso da ordem estabelecida, reformulando pensamentos e atitudes, chamando atenção para as injustas condições sociais e sendo incisivo na crítica à consciência submissa do negro.

A preocupação em denunciar as mazelas da língua revela-se em diversos poemas, sendo enfrentadas pelo sujeito lírico que recorre a figuras de linguagem como anáforas, assonâncias e aliterações; ora é lúdico, ora é lírico; às vezes irônico e sarcástico; ora polissêmico, ora em surpreendentes neologismos. Em relação à forma, encontramos poemas curtos e longos, alguns em prosa demonstrando a versatilidade do autor.

A perversidade do racismo à brasileira é escancarada na constante autocensura do negro em várias situações humilhantes do cotidiano: “às vezes sou o policial que me suspeito / me peço documentos / e mesmo de posse deles / me prendo / e me dou porrada (...) / às vezes sou o meu próprio delito / o corpo de jurados / a punição que vem com o veredicto (...)” (p. 53). Tal consciência do negro, reveladora de sua baixa autoestima, torna-o incapaz de ser agente da história e conquistar sua dignidade, mostrando o quanto é pernicioso o discurso dominante. O curto poema “Medo Medular” expõe esse problema: “todo mundo tem medo / da vingança do preto / até o preto” (p. 48).

Por outro lado, o sujeito lírico está “atento / contra o jogo da humilhação e / do cansaço” (p. 39), em sua luta diária para afirmar sua identidade negra desprezada por séculos pela elite social branca. Não se entrega, resiste, faz da fruição poética o espaço para almejar os novos tempos conduzidos por um novo homem negro, “o negro pronto (...) com suor dilui espinhos / do horizonte cria músculos / e semeia o novo no crepúsculo” (p. 39-40). Como “está se fazendo sempre” (p. 39), o sujeito lírico, como “um peixe fora d’água”, insurge contra manifestações aparentemente inofensivas de desprezo a sua etnia, recorre à polissemia para demonstrar sua posição em “Para ouvir e entender ‘estrela’”: “se o papai-noel / não trouxer boneca preta / neste natal / meta-lhe o pé no saco!” (p. 42)

No seu papel de conscientização e de elevar a moral do negro, o sujeito lírico utiliza a metapoesia em diversas situações, reconfigurando as significações, abalando os sentidos, desestruturando as certezas e rebelando-se contra a linguagem opressiva busca metáforas impactantes para eliminar a autocensura, cria neologismo (poesídios) para libertar-se do encarceramento imposto, como em “Negroesia”:

“enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos / por onde passam carroções de palavras duras / com seus respectivos instrumentos de tortura // entre silêncios / augúrios de mar e rios / o poema acende seus pavios / e se desata / do vernáculo que mata // ao relento das estrofes / acolhe os risos afros / embriagados de esquecimento e suicídio / no horizonte do delírio // e do âmago do desencanto contesta as máscaras / lançando explosivas metáforas pelas brechas dos poesídios / contra o arsenal do genocídio.” (p. 29)

Mostrando-se atento ao seu tempo e compromissado em diminuir as injustiças até então perpetuadas a seus pares, o sujeito lírico revolta-se contra a hipocrisia da classe dominante que destina espaços específicos e limitados para suas reivindicações, e manifesta sua indignação em “A Trajehistória”:

“então dirigi meu verbo indignado aos palacetes onde anos a fio passei a desfiar meu rosário de denúncias com a fé inabalável de que as flores brotariam em maio e os frutos em novembro. distintas senhoras e senhores conversavam na varanda ouviam meus discursos aplaudiam e quando minhas palavras secavam ordenavam que me servissem bebidas finas. e diziam: – estamos estudando... estamos estudando... estamos estudando... as suas reivindicações... (p. 79)

Quando “a noite entrou toda nua e decidida com seus versos iansânicos” (p. 79), o sujeito lírico apreende que jamais terá suas reivindicações atendidas pelos caminhos liberados pelo poder. Resta o abandono à submissão, o sofrimento com as consequências de sua decisão; porém, retorna ao passado e recria com afeto o quilombo, o local que seus antepassados conseguiam manter a autonomia da identidade negra, ainda o espaço simbólico de libertação para os dias atuais e para unir os seus pares nas lutas vindouras:

por isso eu fugi e criei este quilombo no lado esquerdo do peito. Aqui flores e alimento nascem de janeiro a janeiro e outros fugitivos são recebidos com um canto guerreiro e podem adormecer com uma cantiga de ninar. (p. 80)

Apesar da poesia cutiana ser incisiva ao defender o negro, o afeto é frequente como forma de acalanto às dores sofridas por séculos de desprezo e humilhações, fragmentando e dilacerando o negro. Ler os poemas de Cuti é como receber um “abraço fraterno” (p. 67); com lirismo, os versos procuram recompor a história do negro:

eu vou ao mar pedir à maré-cheia / que despeje no meu coração tudo o que é meu / dessa longa e interminável viagem / de ser preso de um lado / retalhado do outro / e desacreditado depois // (...) eu vou ao mar lançar minha rede / tecida em caminhos de fuga / quilombola / pois minha falta de mim / minha falta de tribo / saímos de madrugada em busca de raízes afogadas / raízes suculentas no coração da história (p. 61-62)

Sensível ao problema da educação brasileira, pois “a corte sempre ordena / que se barre a nossa gente” (p. 57), que não se esforça em elaborar um plano educacional inclusivo, a fim de respeitar e considerar a diversidade étnico-racial do país, o sujeito lírico, “em secular esforço / de superar-se coisa e se fazer pessoa” (p. 73), apresenta a defesa coerente do regime de cotas e ações afirmativas: “cota é só a gota afrouxando botas / de um exército / para o exército da equidade // cota não reforça derrota / equilibra / entre ponto de partida / e ponto de chegada / a vitória coletiva / reinventada” (p. 74).

Ao percorrer as páginas de “Negroesia” deparamo-nos com poemas que são como “foice aparando o coice da prepotência” (p. 16) do discurso vigente, de um sujeito lírico que explora os extremos das potencialidades da língua para desmascarar as artimanhas do racismo e fazer da tessitura poética o local para “quebrar todo os elos dessa corrente de desesperos” (p. 50). Por ser “daqueles que cobram o leite derramado” (p. 46), a poesia de Cuti ensina-nos a abrir “a porta enferrujada do silêncio” (p. 70), a abandonarmos nossas angústias, medos e pesadelos. Cuti crê na força do verbo poético atuando na transformação de novas consciências, na afirmação da identidade negra, na valorização da sua história coletiva, na justiça social que um dia se fará.

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar (resenha)

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar e o caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente
Por Ricardo Riso

Em “Outros sais na beira mar”, Filinto Elísio resolve aventurar-se pelo romance. Contudo, seguindo, de certa maneira, as metáforas inusitadas e as experimentações formais e estéticas de sua poesia, o autor subverte o gênero romance (ou antirromance ou um rol de apontamentos esparsos, como questiona ao leitor em dado momento) para construir uma narrativa híbrida, fragmentada por anotações de diários, crônicas de jornal, troca de e-mails, blogs, poemas etc., para além de diversos fatos verificáveis na sua biografia, aproximando-se de uma livre e descomprometida autobiografia, além da intertextualidade com a sua poesia, mais precisamente a do livro “Das frutas serenadas”.

Nesse caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente, a alinearidade apresenta-se entre fatos pessoais (como as diversas mulheres que marcaram a vida do narrador) e a história recente de Cabo Verde, porém descompromissada com a verossimilhança, pois, ao citar o Agaton de Aristóteles (e por que não o João Vário de Exemplo Coevo?): “é verossímil que sucedam as coisas contra toda a verossimilhança”; assim como as constantes indagações do narrador ao leitor acerca da verdade dos fatos.

O espaço geográfico do romance (?) é Cabo Verde, a cidade da Praia, mas é também o da diáspora: Brasil, EUA, Itália, Guiné-Bissau etc. Entrecortada por esses lugares, a narrativa passa pela guerra colonial, pelos estranhos acontecimentos que marcaram a morte de Amílcar Cabral, a euforia com o país livre e o temor da contrarrevolução chegando ao extremo de uma baleia encalhada na praia ser alvejada por balas ao ser confundida com um submarino imperialista, os anos de partido único e multipartidarismo até a decadência da Praia e do país no início deste século.

A corrupção e a impunidade dominam a nação. Cabo Verde integra a rota internacional do tráfico de drogas. O narrador-cronista denuncia o caos e a desordem que passam a ser comuns. “Este é um país deveras geoestratégico”, a triste ironia escancara a inescrupulosa aliança Guiné-Bissau-Cabo Verde entre políticos e empresários, interesses que em nada lembram a união justa e nobre proposta por Amílcar Cabral que desencadearia na guerra colonial.

“Só se mete medo a quem tem medo, o que não parece ser o caso deste cronista”, vaticina o narrador em suas “crónicas implacáveis” diante das mazelas que dilaceram o país. Nada passa despercebido pela sua escrita feroz: as drogas inseridas na economia, o enriquecimento ilícito de políticos e “narcoadvogados”, violência urbana, pedofilia e turismo sexual, emigrantes clandestinos, a promíscua relação religião-política, o medo asfixiando a sociedade, deixando-a inerte. “Para que tal se inverta só com uma bomba termonuclear, como aquela da poesia de Arménio Vieira”. Acusações motivadas após uma tentativa de suborno feita por um ministro com o intuito de calá-lo.

Além de homenagear seus amores, “Outros sais na beira mar” celebra poetas que moldaram o apreço de Elísio pela Literatura: Fernando Pessoa, Arménio Vieira, Ovídio Martins, Eugénio Tavares, Charles Baudelaire etc. Ressalte-se a fundamental contribuição desse romance à literatura de Cabo Verde pela via da rememoração da história, aliando-se a nomes como de T. T. Tiofe, José Luiz Tavares e NZé dy Sant’Y’Agu; para além do testemunho da decadência da Praia e do país, aproximando-se das ácidas críticas de Erasmo Cabral D’Almada e do Arménio Vieira de “Caviar, Champagne & Fantasia”, por exemplo.

Corrosivo e irônico com a situação política, desmedido amor pelas mulheres, “Outros sais na beira mar” ratifica o demasiadamente praiense e cabo-verdiano Filinto Elísio entre os melhores de Cabo Verde: “O meu lugar é a cidade da Praia. Fétida cloaca, se me permites dizê-lo. Mas tão minha (...) Aqui, onde nasci, estão todos os ícones da minha fantasia existencial. Aqui, aprendi os relâmpagos da alma, o dom de conversar por metáforas.”


OUTROS SAIS NA BEIRA MAR
de Filinto Elísio
Lisboa: Letras Várias, 2009

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos (UEA)


A Kitabu - Livraria Negra iniciou uma parceria com a União dos Escritores Angolanos (UEA). Agora a livraria terá em suas estantes livros da mais importante editora de Angola.



Para além de proporcionar aos seus clientes a possibilidade de enriquecer suas bibliotecas com títulos de consagrados nomes da literatura angolana contemporânea, ainda sem o devido reconhecimento em nosso meio literário, a parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos é um fundamental intercâmbio à aproximação Angola-Brasil, assim como é uma primorosa contribuição ao desenvolvimento do espírito de cooperação entre os dois países lusófonos.


Acesse o nosso blog ou venha conhecer os mais de trinta títulos de diversos autores da União dos Escritores Angolanos que já estão em nossas estantes. São livros de nomes como José Luis Mendonça, Carmo Neto, João Maimona, Isabel Ferreira, Manuel Rui, Conceição Cristóvão, João Tala e João Melo.
 
 
Satisfação intensa ao anunciar a parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos (UEA).
Motivo para celebrar a vinda do escritor João Tala ao Rio de Janeiro que proporcionou o meu encontro com Carmo Neto, secretário geral da UEA, e o primeiro passo para esta parceria.
Exaltar os mais de trinta livros que já se encontram nas estantes da Kitabu, oferecendo aos estudantes, pesquisadores e público em geral a oportunidade de conhecer nomes fundamentais da literatura angolana contemporânea.
É a realização de um sonho ter contribuído para esse intercâmbio literário.
Os planos são vários, que seja o início de uma efetiva aproximação das literaturas de Angola e Brasil.
Ricardo Riso

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trajanno Nankhova Trajanno - Caminhos da Mente (resenha)


No compasso sistólico e diastólico do passo ou o infindável caminho da poesia de Trajanno Nankhova Trajanno
Por Ricardo Riso

Após o doloroso processo de lutas anticoloniais e a constituição dos estados independentes africanos durante o século XX, acompanha-se com imenso interesse a supressão das carências e as tentativas de desenvolvimento com os parcos recursos financeiros dessas nações em meio a políticas externas – muitas vezes com apoio interno – nem sempre favoráveis ao bem de seus povos. O caso de Angola não foi diferente, principalmente no pós-independência, em razão da longa guerra civil que desestabilizou o país até a reconstrução proporcionada pelo acordo de paz em 2002.

Nesse conturbado cenário angolano a literatura e seus agentes continuaram a desenvolver-se, configurando, já no primeiro decênio deste século, uma elogiável consolidação e amadurecimento de nomes revelados a partir dos anos 1980. Trata-se de uma geração de escritores nascida no período de 1955-1965 que ficou conhecida como a geração das incertezas, como assim define o crítico literário e também poeta Luis Kandjimbo, em virtude de “na obra de todos eles, os temas mencionados emergem de uma profunda experiência geracional avassaladora e catastrófica, em que pesa a revolução, a guerra, a intolerância política” (SECCO, 2003, p. 189).

Nesse período amplia-se a heterogeneidade da poesia angolana, novas estéticas são apresentadas, experiências formais tornam-se constantes e reformulações temáticas passam a ser frequentes, aprofundando o caminho iniciado por nomes como Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho na década de 1970 e deixando para o registro da História o período de engajamento político explícito da literatura angolana. Para Carmen Lucia Tindó Secco, a nova geração apresenta um

“novo lirismo, reagindo a esse desencanto dominante no contexto social do país, abandona a utopia do nós coletivo e o engajamento revolucionário da poesia de combate. Funda uma poesis que dá vazão ao amor e às emoções individuais, assumindo um viés existencial e uma dicção universalista. Sob o signo de Eros, os poetas buscam exorcizar a morte e a dor. Operando uma revolução no âmago da linguagem, levam às últimas conseqüências a metaconsciência poética já praticada, desde os anos 70, por alguns dos poetas de Angola. (...) Ao suspender a prática cantalutista, lança na consciência dos leitores imagens do mundo mais humanas do que as tecidas pelas ideologias, desencadeando o desejo por uma vida mais autêntica e livre, pela qual vale a pena lutar” (SECCO, 2003, p. 189).

Depara-se hoje com uma produção comprometida com a depuração da linguagem poética, demonstrando um nível estético maduro e louvável, diversificado e pungente, configurando seus agentes em verdadeiros artífices da poesia em língua portuguesa. São os casos de José Luis Mendonça, João Maimona, João Tala e Trajanno Nankhova Trajanno. Este, talvez um caso singular na trajetória literária angolana devido às especificidades de sua poeisis, constatação atingida após a leitura do surpreendente Caminhos da Mente (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005).

Jordão Augusto Trajanno nasceu em Luanda a 12 de Dezembro de 1958 e utiliza o nome literário Trajanno Nankhova Trajanno. Sua obra divide-se em poesia e textos para o teatro. Caminhos da Mente é o seu quinto livro de poemas.

Caminhos da Mente reúne um conjunto de poemas de extrema complexidade, intenso estranhamento e plena fascinação proporcionada ao leitor. Dividido rigorosamente em dez partes que são intituladas “Incidências” pelo poeta, cada uma com sete poemas acrescidos de dez “pré-poemas”, assim denominados por Ana de Sá em prefácio do livro. Cada “Incidência” apresenta títulos sugestivos e intrigantes a chamar atenção do leitor, pois “uma nova visão de mundo está em curso”, assim afirma o sujeito lírico como se quisesse alertar o leitor. Dessa maneira, são apresentados títulos que desestabilizam as retinas, tais como “Asterismo Sinfónico do Silêncio”, “Luz Algébrica da Alva”, “Solenidade Telúrica da Flor” e “Composto Sistólico e Diastólico do Passo”. Nomes que mexem com os sentidos, demonstram o intenso labor do poeta em busca da lapidação da palavra e o pleno compromisso com o seu ofício, a tessitura da poesia:

em pintura desnuda e feminina a pastar
de ternura em ternura
a cidade pousa nua de verso em verso

a mão presente no hálito cósmico da renovação do reino
atitude mental das chamas e dos lábios em chamas
nos escaninhos dos oceanos continuo a compor
com traço e suor do rosto a aura dos espelhos” (p. 94).

Nessas “incidências”, as temáticas passam por uma espiritualidade peculiar, analogias a artes como a pintura e a música, o ar – elemento da natureza – encontra-se em diversos momentos em signos cósmicos, das aves e do voo, assim como a constante presença do universo onírico, a realização do sonho como forma de anunciar um novo momento para Angola, o país do sujeito lírico, após o acordo de paz: “nos eternos caminhos da mente/ minha pátria é um esboço bucólico aberto ao cosmos” (p. 46). Agora, o sujeito lírico se quer livre para sonhar, recriar a união de seus pares, reconfigurar os sentidos, para isso a poesia será a matriz e o motriz para desenlaçar o verbo e trazer uma “nova aurora semântica” (p. 28), ampliando e reformulando os sentidos das palavras.

Para o novo tempo da pátria anunciado pelo sujeito lírico, necessária a metaforização do discurso “nas palavras marginais que é preciso refazer”, por isso metáforas díspares e dissonantes e o uso do imperativo exigem sentidos aguçados:

no côncavo do sino uma melodia e é preciso escutar
no luar da adolescência
uma virgem utopia inquieta que é preciso seduzir
na sombra de todo cálice um encanto estranho encanto
e é preciso decantar
uma estátua de silêncio audível na ausência das vozes
que é preciso perceber (p. 26)

O sujeito lírico na maior parte dos poemas apresenta-se na primeira pessoa do singular, percebe-se também a utilização do verso livre, das rimas internas e da ausência de pontuação, contribuindo para a desestabilização da fácil compreensão diante de inusitadas imagens que aliam música, sonho e aves; imagens possíveis pelo vasto universo do verbo poético, elaborador de instrumentos para a sinfonia do silêncio:

persegue-me esdrúxula partitura de um sonho
dédalo que se encanta e desencanta
a imagem de um bolo de aniversário infantil me afoita
hei-de pedir ao anunciante das chuvas
uma guitarra-eólia de nove cordas entregue às aves

tenho que governar o caminho de meus sons após as aves (...)

- hei-de caminhar! tornar-me verdadeira mente
parecido a mim
pelos espaços vazios sorrir somente da prédica proferida
pelas aves (p. 25)

No ilimitado “horizonte verbal” amplificado pela mão-asa do sujeito lírico que propõe o retorno à infância em “Voz Alvacenta do Gesto” (Segunda Incidência), o aprendizado para um novo mundo reformulado na poesia: “permito-me chegar bem à beira da infância/ e concebo um exército a sorrir/ aprendo com o mar e o rio a distinguir a voz/ da foz em encontro com o verso/ a irrigar o horto e o paraíso a um passo da morte e do siso” (p. 31).

A “transcendência humana dos sons (...) em instante onírico” (p. 33) transfigurará a nova pátria, pois “amanhã o movimento da alva será outro”, confirmará a mudança e os angolanos unidos em um só ideal: “algures alguém pensa em mim neste instante/ os passos rejeitam a solidão” (p. 33). Percebemos a projeção no futuro, de uma nova era, de um tom épico. Ana de Sá discorre muito bem acerca do caráter épico dos poemas: “Os verbos conjugados preferencialmente no futuro conferem um valor projectivo à narração de uma Pátria e dos seus integrantes, fundada num passado e, em especial, num desejo de futuro em paz” (p. 16).

O sujeito lírico anseia um novo cotidiano, contudo, as décadas de dor e sofrimento fratricida deixam marcas indeléveis na memória. Apesar da esperança e da constituição de “formas atrevidas formas irregulares” para cicatrizar as feridas do outrora, o leitor depara-se com a insegurança na repetição da condicional “talvez”, assim como a apreensão de que os erros do passado sejam retomados e a incerteza com o porvir são materializados na poesia: “o dia evoca formas atrevidas formas irregulares/ ao amanhecer talvez ao amanhecer bocas estilizadas cantem/ ao abrigo do sorriso/ talvez ao amanhecer sintetizemos a alva/ na mão a esperança/ sobre a dança é uma canoa ximbicada pelo tempo/ - talvez ao amanhecer” (p. 35).

Entretanto, a utopia encontra seu espaço na poesia, “a brisa reinventa estações (...)/ os rios continuam num caminho igual e renovado/ as asas novamente acreditam na força humana do mel” (p. 36) e “agora que floresce o sol na palma da mão de todas as mãos/ (...) trago comigo para este novo abrigo células de um lúcido/ paraíso” (p. 44), ideias conjuntas para uma pátria preparando-se para reconstrução, “as minhas e as suas todas as nossas palavras numa única/ marcha de cruz” (p. 45). Ou seja, a voz individual do sujeito lírico conotada à voz coletiva dos angolanos, “vozes anônimas falam na minha voz” (p. 37), ou pelo menos aspira, “vozes anônimas ‘talvez não tanto’ falam na minha voz” (p. 37).

A incerteza com o futuro gera inquietação. O sujeito lírico recorrerá às aves e ao desejo de voar. Como voar não pertence à condição física humana, cabe o mergulho ao âmago do ser para tentar realizar o impossível embarcando em “outra nave”, a nave da palavra poética, por fim e ao cabo, libertadora, e assim superar sua angústia na gradação do poema “Luz Algébrica da Alva – 2ª indução”:

confrange-me não poder deslindar a prece das aves
enquanto voam cada rosa é uma fonte de brisa
em cada brisa há um candelabro há um amplexo
um baile de vozes um cálice volúvel
um olhar esdrúxulo
uma atitude de exílio
na certeza libida da incerteza libida (...)
sem destino outra viagem outra paisagem em outra nave
sigo ansioso o destino das aves” (p. 73).

Sob o signo da emoção e com a preocupação ininterrupta de renovar a linguagem, a poesia de Trajanno Nankhova Trajanno demonstra um cariz de extremo intimismo, realizando a utopia na tessitura poética, transformando “palavras amargas/ em devaneios que se adocicam/ na estranha relação entre a chuva e o chão” (p. 91). O desassossego do sujeito lírico percorre os diversos caminhos da metapoética que levam ao interior do ser:

sobre útil linha longitudinal segue a imaginação
da palma da mão
reconheço a luz reconheço o olor recomeço o passo
no altar da moda modelar
outra moda procuro talhar esta mágica sem par (...)
que abraça a poesia vê-se a cidade a caminhar na gramática
sensual dos sons a irrigar o cravo lilás do ventre
onde a saudade amou a solidão por plácida compreensão à flor

sinto-me distante da primeira meta
sinto-me no lugar bendito onde me reconheço
abre-se inesperada paisagem da mente
percebo estar a usar o mesmo caminho que me leva a mim (p. 96).

A diferenciada poesia deste sujeito lírico configura-se em uma intensa viagem intimista que busca associar a sua inquietação com a do país, ambos a procura do melhor caminho para o novo tempo de paz: “todos os meus caminhos seguem o desvelo diurno do caminho/ todos os meus caminhos têm fim/ em cada sombra perfume e luz em cada asa tétrica/ todos os meus caminhos sonham tornarem-se um caminho” (p. 68).

Com a colaboração de imagens insólitas, o sujeito lírico percorre o universo onírico, esparge o simbolismo voraz de sua poesia em metáforas impactantes para reencontrar o caminho do país na harmonia entre os homens: “o instante onírico de pátria é um caminho minúsculo/ por percorrer na insónia/ é uma mansidão de ideias a navegar na flor humana da voz/ a primeira água matinal destes olhos/ é fluvial rio materno de um País/ reencontrado no compasso sistólico e diástólico do passo” (p. 118).

Por fim, constatamos após a leitura de Caminhos da Mente que a arrebatadora e singular poesia de Trajanno Nankhova Trajanno ainda é prenhe para novas imagens, reformulações estético-formais, renovações semânticas, sobretudo pela excelência alcançada a poesia de Trajanno apresenta novos paradigmas à literatura angolana, mostrando o quanto ainda é fecundo o caminho das letras e o quanto pode ser infinito o caminho da paz.

em algum instante lá mais adiante hei-de embalar
meu presente no auxílio dos sons na formação da palavra
na angústia da mão que estrutura o incontido
no sonho
o sino devolve o signo e a sina axiluanda à volta da lua
insistente mente de mel quase como herdeiro
de herói
uma mão acena outra mão
um olhar afaga outro olhar um hino mora no olhar
catálogo exposto de pauta aberta em oferenda à kianda
pranto e fruta fruta e encanto pela autópsia do pranto
aos pés do oceano no calor das cores
na argamassa da promessa e na sublimidade da colheita

em algum instante lá mais adiante verei o sol. (p. 88)


BIBLIOGRAFIA:

KANDJIMBO, Luís. Breve Panorâmica das Recentes Tendências da Poesia Angolana. In: Austral, Revista de Bordo da TAAG, nº 22, 1997, p. 27. Apud: SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

TRAJANNO, Trajanno Nankhova. Caminhos da Mente. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.