quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pedro Cardoso... a manduco!

Pedro Cardoso... a manduco!
Por Ricardo Riso

Ao Prof. Manuel Brito-Semedo, com elevada estima.

Há uma faceta de extremo interesse e pouco conhecida do poeta pré-claridoso Pedro Monteiro Cardoso (13/09/1883 - 29/10/1942), reveladora de um importante momento das ilhas em razão das profundas mudanças em Portugal com o germinal sistema republicano. Trata-se da atuação de Pedro Cardoso como cronista de jornais. Com o pseudônimo AFRO colaborou em vários jornais cabo-verdianos e portugueses, dentre outros, “O Manduco”, do qual foi fundador, e foi autor da célebre coluna “A Manduco...”, espaço de polêmicas e de um olhar atento aos problemas sociais e políticos do cotidiano da então colônia cabo-verdiana.

As crônicas de “A Manduco...” foram recolhidas e organizadas por Manuel Brito-Semedo e Joaquim Morais em cuidadosa edição do IBNL, sob o título “PEDRO CARDOSO – Textos Jornalísticos e Literários (Parte I)”, no ano de 2008. O livro tem prefácio de Isabel Lima Lobo, é separado por duas seções: a primeira com duas conferências de Cardoso – uma em defesa da língua cabo-verdiana, a outra no Dia de Camões, exaltando o épico, Portugal e a língua portuguesa; a segunda seção conta com 33 crônicas publicadas de 1911 a 1914 no jornal A Voz de Cabo Verde, para além de fundamental ficha com a origem dos textos.

As crônicas de “A Manduco...” impressionam pelo tom incisivo, de marcante e ruidosa intervenção político-social em defesa incontestável dos ilhéus e das ilhas, assim como apresentam e valorizam a atuação pungente dos intelectuais cabo-verdianos durante os primeiros anos da república portuguesa. Em sua estreia, AFRO já demonstra o caráter de sua seção: “(...) ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.

Célebre na poesia de Cardoso a exaltação da pátria lusitana e da mátria terra crioula, porém o autor para reivindicar igual tratamento ao ilhéu recorre à Constituição para combater o racismo: “Artigo 1º - O território de Portugal compreende na África Ocidental o Arquipélago de Cabo Verde; (...) art. 5º - o Estado Português é uma República Unitária baseada na igualdade dos cidadãos perante a Lei. Logo, eu nasci dentro do território português, sou membro constituinte da Nação e igual perante a Lei aos demais cidadãos.”

O problema da educação dos ilhéus é escancarado com indignação, principalmente na quase completa exclusão das mulheres nas escolas por “existir muito maior número de crianças do sexo feminino e não haver para elas escolas, não em proporção às alunas, mas nem mesmo em número aproximado das destinadas ao sexo masculino. A desproporcionalidade é flagrante e provém do exclusivismo de outros tempos”.

Preocupações sociais várias são manifestadas e denunciadas pelo autor, preocupações em sua maioria contemporâneas ao nosso tempo: “O uso e o abuso do álcool e do tabaco, a tuberculose por esse abuso favorecida, as estiagens e o analfabetismo são males que estão afectando intensa e extensamente a província. Urge combatê-las sem descanso (...)”.

A instabilidade política da Europa, a ascensão da belicista Alemanha e seu interesse nas colônias portuguesas em África é tema de “quem nasceu em África mas é português não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue”: “(...) Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções destronada, substituída por aquela em que escreveu Goeth”.

Pan-africanista convicto, defensor dos negros, demonstra seu apreço ao dedicar crônicas ao brasileiro Luis Gama e ao libertador do Haiti, Toussaint Loverture. Também comunista ferrenho, sobretudo humanista, o nativista Pedro Cardoso revela nas crônicas de AFRO as tensões que nortearam o seu tempo. Jamais omisso, determinado na defesa de suas posições, a pena corrosiva de AFRO apresenta o grande homem e poeta: Pedro Cardoso.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Abraão Vicente – O Trampolim (resenha)

Abraão Vicente – O Trampolim

Por Ricardo Riso
Publicado no semanário A Nação, nº 171, de 09 de dezembro de 2010, p. 10.

Abraão Vicente, o jovem e renomado artista plástico nascido na ilha de Santiago, concretiza sua estreia literária com o romance “O Trampolim”, sob a chancela da editora Kankan Studio.

A narrativa inicia-se com a observação amargurada do narrador de fotografias do passado da sua família. Apesar do tom melancólico, recordo Roland Barthes de “A câmara clara” no qual afirma que a força constativa da fotografia incide sobre o tempo, autenticando aquilo que foi; segundo Barthes, as fotografias devem ser habitáveis ao observador, conduzindo-o tanto a um tempo adiante – utópico – quanto a um tempo passado; desejo atingido durante a descrição das imagens, pois “essas fotos poderiam ter sido tiradas em qualquer bairro, vila ou cidade de Santiago ou de Cabo Verde, nos anos oitenta”.

Romance de memória, o narrador recorrer à infância, apropria-se dos amigos imaginários e das “reminiscências do rapaz ‘cabeça de ventos’, pegadas dos dias em que era dois, vivia façanhas inventadas e ouvia vozes que lhe pediam para voar”, e a partir daí tratar de diversos aspectos da condição humana.

Ambientado na periferia de Lisboa, apropriando-se do falar dos negros cabo-verdianos, recriados literariamente pelo autor com criatividade e ousadia ao subverter a língua portuguesa, ainda enriquecida por vários estrangeirismos, ou seja, “trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”, como disse Barthes em Aula. Um falar peculiar, das ruas, que não causa conflito à compreensão do texto, experiência semelhante a de Allan da Rosa, destacado escritor da literatura periférica de São Paulo/BR.

Nas intermináveis conversas do(s) Zé(s) os assuntos são diversos, atropelam-se. Surpreende o racismo, o desejo de embranquecimento dos negros ao tentar relacionar-se com mulher branca: “com uma branca qualquer boa, como faz todo preto decente que quer causar boa impressão e um pouco de inveja aos seus frendes cá na terra”, e concretizado pelo Nhô André, tornando-o exemplo a ser seguido. Assim como é racista a insensibilidade de políticos que vêm crianças disputarem o lixo dos parlamentares, pois tiram “daí o seu alimento de cada dia”.

A emigração forçada dos africanos em razão da crise econômica – consagrada na célebre exposição “Pass Ports” do autor/artista –, a assimilação dos negros e a amnésia induzida, no sentido empregado por José Luis Hopffer Almada; denúncias que fazem recordar a necesssária “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral: “de investigar como eram as coisas e como se transformaram”, no dizer do Zé; para além de um intenso humanismo, da conquista da igualdade – “querer o meu não é roubar o seu/ pois o que quero é só função de eu”, de Raul Seixas –, de respeitar a alteridade, “igualdade vem de saberes porque és diferente e entender a razão dos outros”.

Cabe ressaltar alguns procedimentos literários de imenso agrado, tais como o diálogo com a escrita automática surrealista – “uma coisa é escrever palavras da língua que eu sei ler e entender, outra coisa é escrever tudo que te passa pelo capacete e na língua que te mais te convier”; o dadaísmo do “jogo do absurdo”, as teorizações acerca da arte contemporânea e o uso de cartas enviadas para si mesmo, tal como o jovem Fernando Pessoa.

Para finalizar, apetece mencionar as pertinentes questões ontológicas levantadas ao longo do romance, as severas críticas à sociedade de consumo e ao vazio existencial dessa condição – e recordo o Zigmuth Bauman de Vidas para Consumo; entretanto, e sobretudo, celebrar o desejo permanente de sonhar e de voar como impulsionadores e motivadores frente às adversidades da vida e a defesa inconteste da liberdade individual em um mundo cada vez mais igual, previsível e competitivo. Esses são alguns dos grandes méritos apresentados durante a leitura d’O Trampolim, de Abraão Vicente. Um belo sopro de renovação à literatura cabo-verdiana.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mais do que um jogo: o esporte e o continente africano - lançamento livro RJ


Lançamento do livro Mais do que um jogo: o esporte e o continente africano (Editora Apicuri), organizado por Victor Andrade de Melo, Marcelo Bittencourt e Augusto Nascimento, dia 10 de dezembro, a partir das 18h30, na livraria Folha Seca, à Rua do Ouvidor, n.37, Rio de Janeiro


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Luana Antunes Costa em 08 de dezembro de 2010.

sábado, 4 de dezembro de 2010

CADERNOS NEGROS VOLUME 33 - POEMAS AFRO-BRASILEIROS

CADERNOS NEGROS VOLUME 33
POEMAS AFRO-BRASILEIROS

DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2010 (sexta-feira) - às 19h
Na sala Olido - Av. São João, 473 – (293 lugares) entrada franca.

Para maior conforto de todos os que quiserem participar, solicitamos fazer o cadastramento no link abaixo:
http://www.quilombhoje.com.br/cadastrocn33.html

Autores do livro: Adilson Augusto, Akins Kinte, Ana Celia, Claudia Walleska, Cristiane Sobral, Cuti, Décio Vieira, Edson Robson, Elio Ferreira, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Flávia Martins, Jairo Pinto,Jamu Minka, Lepê Correia, Luís Carlos de Oliveira ‘Aseokaýnha’, Márcio Barbosa, Mel Adún, Miriam Alves, Ruth Saleme, Serafina Machado, Sidney de Paula Oliveira, Thyko de Souza.

Haverá o seguinte bate-papo:
*Cadernos Negros e Literatura Periférica
ÉRICA PEÇANHA (Antropóloga e Pesquisadora - SP)

*Identidade Étnico-Racial na Poesia de Cadernos Negros
PROF. DR. CUTI (Luiz Silva) (Escritor - SP)

E as intervenções poéticas e musicais com o ator e atrizes:
ANDRÉ PERSAN - (Novela "Água na Boca" - TV Bandeirantes).
LUCÉLIA SERGIO - (Os Crespos).
NARUNA COSTA - (Novela "Tempos Modernos" - TV Globo).
e as cantoras e músicos:
CAROL ANICETO - Cantora (A Quatro Vozes e Ilú Obá De Min).
COSME ALVES (Djambé).
GIOVANNI DI GANZÁ (Instrumentista do Duo Abanã).
LIAH JONNES (Cantora e Atriz).
Direção: EDUARDO SILVA - Ator de teatro, novela e cinema (Novela "Uma Rosa com Amor" - SBT e ganhador de dois prêmios como melhor ator nos Festivais Nacional e Internacional de Belém e Salvador).
Assistente de direção: FERNANDO FAGERSTON.
Stand Up - HELTON FESAN (Escritor)

Música e Dança Afro:
BLOCO AFRO ILU OBÁ DE MIN – Percussão Feminina
Apresentação: MC Levy e MC Mafalda Pequenino

Apoios:
Cone/Sala e Galeria Olido(PMSP)
Deputados Estaduais: José Cândido / Vicente Cândido
Vereadores: Juliana Cardoso / Netinho de Paula / Italo Cardoso / Jamil Murad Coletivo de Negros do Sindicato dos Bancários
Sindicato dos Quimícos
Secretaria da Diversidade do Sindicato dos Comércios
ANID - Ação Negra de Integração e Desenvolvimento - Barueri
Gold Feet Podologia.

Cadernos Negros é uma série que, criada em 1978, vem proporcionando a autores e leitores uma nova experiência em termos de literatura e informação. Este volume 33 denota um amadurecimento de ideias, ao mesmo tempo em que temas e estilos mantêm a vitalidade de sempre. Vários novos autores participam do livro, assim com há a volta de poetas que há algum tempo não publicavam. É de se notar que poemas românticos e sensuais (eróticos até) encontram espaço nesta edição, além dos textos que refletem sobre a existência afro-brasileira contemporânea.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Eu sou Rio de Janeiro, por Luis Simas

Um texto bastante lúcido do Prof. Luis Simas acerca dos recentes conflitos no Rio de Janeiro e a postura deprimente - como sempre, racista e excludente - do nosso principal veículo de comunicação.
Ricardo Riso

EU SOU DO RIO DE JANEIRO
Luis Simas
Publicado no blog Histórias Brasileiras - http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/01/o-povo-de-sao-sebastiao.html - em 24 de novembro de 2010.

O Jornal O Globo resolveu, definitivamente, apostar na ideia de que a solução para os problemas urbanos do Rio de Janeiro é mais simples do que se imagina: basta transformar a cidade em uma imensa casa do Big Brother Brasil, em que todo mundo fuxica a vida de todo mundo, o cotidiano se transforma em um espetáculo midiático, o dedo-duro é elevado à categoria de cidadão exemplar e a sensação do medo é usada como poderoso instrumento de controle social. O discurso do jornal - em nome do interesse coletivo - tão somente reforça o individualismo mais tacanho que inviabiliza a urbanidade.

A última investida do jornalão é sintomática. O Globo criou uma conta no twitter para que o carioca denuncie ilegalidades que vão desde carros estacionados de forma irregular até barraquinhas de cachorro quente, botequins e bancas de flores que ameaçam o incontrolável desejo conservador da cidade-enfermaria. O polemista, advogado e centroavante carioca Eduardo Goldenberg já desancou aqui , com propriedade, os aspectos jurídicos da coisa e a histeria coletiva dos volantes de contenção.

Vou insistir mais uma vez, por vício de formação e clamando feito um João Batista no deserto, que as reflexões sobre os problemas urbanos do Rio de Janeiro ( e de qualquer cidade ) devem ser feitas em uma perspectiva que encare a urbe como um organismo vivo feito de história, lugares de memória, espaços de conflito, instâncias de urbanidade, relações tensas e intensas entre os diferentes grupos que habitam a aldeia, etc. Darei meu pitaco, nessa dimensão, sobre o twitter alcagüete (mantenho o trema) que o jornal criou e outras coisas mais.







Os primeiros governos republicanos criminalizaram as diversas manifestações da cultura popular no Rio de Janeiro - quase todas marcadamente vinculadas às áfricas que existem nas nossas ruas. Jogar capoeira passou a ser crime no Código Penal de 1890, os terreiros de macumba foram grosseiramente reprimidos e a posse de um pandeiro era mais que suficiente para a polícia enquadrar o sambista na lei de repressão à vadiagem . Os intelectuais do período - com raras exceções - pregavam a necessidade de se promover um branqueamento da população brasileira; única garantia de civilizar as nossas gentes. Chamarei atenção para esse fato quantas vezes for necessário.

Quando a escravidão foi pra cucuia, houve uma deliberada política de atrair imigrantes europeus para cá. Não há qualquer registro de iniciativa pública que tenha pensado na integração do ex-escravo ao exercício pleno da cidadania e ao mercado formal de trabalho. A ideia era estimular a imigração de brancos do velho mundo. O modelo de abolição da escravatura no Brasil foi descrito e analisado em 1.500 teses acadêmicas. Todas elas podem ser resumidas em uma única frase do samba da Mangueira de 1988: "...livre do açoite da senzala / preso na miséria da favela" (Hélio Turco e Jurandir - 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão).

Uma das primeiras leis de estimulo à imigração no período falava que o Brasil abria as portas, sem restrições, para a chegada dos imigrantes europeus. Africanos e asiáticos, porém, só poderiam entrar com autorização do Congresso Nacional, em cotas pré-estabelecidas. Traduzindo o babado: que venha o imigrante, contanto que seja branco e cristão. Mais do que encontrar mão de obra, a imigração no Brasil foi estimulada como meio de branquear a população e instituir hábitos europeus entre os nossos. O negro foi tolerado no Brasil apenas enquanto o meio de transporte para chegar às nossas praias foi o navio negreiro, assim como certos segmentos das elites (não todos, que fique claro) toleram as camadas populares porque precisam de empregadas domésticas, babás, porteiros, lavadores de carros e catadores de lixo.

É exatamente dentro desse contexto racista e discriminatório do pós-abolição que começa a ser gerada a reação a essa política pública elitista: a cultura da fresta como meio de reinvenção da vida e construção de uma noção de pertencimento ao grupo e ao espaço urbano. A ilegalidade no Rio de Janeiro, do ponto de vista histórico, foi portanto a opção que um estado racista e excludente deu à maioria da população da nossa cidade. Foi o poder público que não quis incluir.

Desnecessário dizer que quando falo em raça não uso o termo no sentido biológico ( pois que se sabe que raça como conceito biológico não existe). Uso raça no sentido social, histórico, político e econômico. Raça não existe nos laboratórios de biologia mas continua existindo nas cadeias, nas salas de tortura, nas grandes empresas e nas caçambas dos camburões.

Quando ouço falar, portanto, em choque de ordem, proibição de cerveja no Maracanã, ordenação das torcidas nos estádios, remoção de favelas e quejandos, me ocorre o seguinte: As pessoas que atuam na mídia mais poderosa e os responsáveis pelas políticas públicas têm alguma dimensão sobre o que significa, do ponto de vista cultural, a relação entre legalidade e ilegalidade por aqui? A coisa está sendo pensada apenas em termos criminais, quando até as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que o buraco é mais embaixo.

Incluir é simplesmente enfiar a polícia no morro, reprimir a violência, colocar o moleque pra tocar violino em orquestra de música clássica e estimular o garoto a praticar esportes? Isso pode ser um passo necessário (acho, com uma outra ponderação, que é) mas tento ir além e escapar da reflexão imediatista que a histeria da sociedade do espetáculo e do consumo acrítico da notícia impõe. E o além é dar a esse garoto o direito de conhecer de onde vem sua cultura, seus modos de sentir, amar, comer, se expressar, conviver na rua, respeitar o mercado [o de Exu, e não o financeiro] e, sobretudo, reconhecer que nós tentamos embraquecer o negro mas foi ele que nos empreteceu e nos civilizou poderosamente. Isso se faz com Educação maiúscula, e não com a reprodução pura e simples nos bancos de escolas de conteúdos desprovidos do contato com a realidade de quem aprende.

O povo bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na rua, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira - já que sem um chamego acolhedor ninguém vive direito. Excluído dos salões do poder, o carioca inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanjá, Janaína, Yara e Kianda. Colocamos na Virgem da Conceição e na Senhora dos Navegantes os seios fartos de deusa africana.

O povo do Rio teve que inventar a cidade [e a cidadania] que lhe foi covardemente negada e criou esse modo de ser que atropela convenções, confunde, seduz, agride e comove. Qualquer tentativa de ordem pública deve partir desse pressuposto e tramar, aí, instâncias de interlocução e o fomento de diálogos entre a população e o poder instituído. Há que se perceber, nos meandros do legal e do ilegal, a maneira que o carioca encontrou, ao longo de sua história, para subverter a escuridão dos tumbeiros, a caça aos índios tamoios e a ferida aberta pelos trezentos anos de chibata. Nós somos o povo que bateu tambor na fresta e criou a subversão pela festa.

Qualquer debate que ignore isso é provisório, equivocado e, como sempre, excludente. A leitura meramente institucional ou criminal de um processo que, como qualquer outro, é histórico e cultural, empobrece a discussão, estimula o erro e aponta soluções imediatistas que não se sustentam em um prazo mais longo.

Eu quero o convívio urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada é rua cheia, não é rua vazia de gente onde vez por outra se escutam tiros ou onde prevaleça a bandidagem mais deslavada ou a Ordem do Choque. Os mocinhos de O Globo, que encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho, o olhar enviezado e o clima de desconfiança entre seus habitantes, prestam um desserviço. A política pública, estimulada pela mídia mais reacionária e imediatista, que negue nossa peculiaridade e atue pelo viés exclusivo da repressão é fadada ao mais retumbante fracasso. Peço apenas isso: que se reflita sobre a atuação e o papel do Estado sem se perder a dimensão profunda do que nós, os cariocas, somos e construímos no tempo e no espaço. Administrar uma cidade, falar sobre uma cidade, escrever sobre ela, propor políticas públicas, implica conhecimento, reflexão, amor e interação com os seus modos de recriação da vida e produção de cultura, função que nos faz humanos e nos redime do absurdo da morte.

Eu continuarei daqui, dessa parte que me cabe no latifundio da grande rede, a bradar louvores pela civilização peculiar que João Candido, Zé Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Porto das Caixas, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na lage e a cerveja criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda.

A nossa maresia, conforme mestre Darcy Ribeiro ensinou, traz na asa do vento o cecê das pretas de Angola.

Abraço

Especialização Lato Sensu em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-Brasileiras - RJ

Especialização Lato Sensu em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-Brasileiras - RJ

O IFRJ Campus São Gonçalo prorrogou as inscrições até 14 de dezembro do Edital n° 89/2010 para o Curso de Especialização Lato Sensu em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-Brasileiras.

O Curso de Especialização Lato Sensu em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-brasileiras tem como finalidade contribuir para a formação continuada dos professores e profissionais ligados à educação capazes de atuar no ensino e na pesquisa com vistas à implementação de uma política educacional que reconhece a diversidade étnico-racial do país, seguindo as determinações da lei 10.639/03 que torna obrigatório o ensino das histórias e culturas africanas e afro-brasileira em todos os níveis e modalidades da educação básica.

Pretende-se também contribuir na formação de profissionais autônomos e inovadores, capazes de projetar e realizar melhorias em seus campos de atuação, de propor novas metodologias e criar novas estratégias pedagógicas para a educação das relações étnico-raciais, no intuito de reduzir a distância existente entre as realidades da produção acadêmica contemporânea e do cotidiano da sala de aula.

CARACTERÍSTICAS DO CURSO
O Curso tem a duração prevista de um ano e seis meses, incluindo o tempo de elaboração da monografia, prorrogáveis, a critério do Colegiado do Curso, por mais seis meses.

A sua carga horária é de 390 horas e suas aulas serão ministradas às terças-feiras e às quintas-feiras, das 18h 30min às 22h 30min, e um sábado por mês, das 8 às 12 horas, no Campus São Gonçalo do IFRJ.

PROCESSO SELETIVO E PERIODICIDADE
O curso possui uma entrada por ano, com início no 1º semestre do ano. São oferecidas 20 vagas por turma. O processo seletivo, que é regulamentado por edital específico, ocorre em três etapas: prova escrita, análise de currículo e exposição oral. Podem participar do processo seletivo os profissionais que tenham concluído um curso de graduação, preferencialmente nas áreas relacionadas à Educação.

O início das aulas está previsto para 8 de fevereiro de 2011.

INSCRIÇÕES DE 08/11/2010 ATÉ 14/12/2010
LOCAL: Rua Dr. José Augusto Pereira dos Santos, s/nº, Neves - São Gonçalo (CIEP 436 Neusa Brizola – ao lado do DETRAN)

HORÁRIO INSCRIÇÕES: DAS 14H ÀS 20H
TAXA DE INSCRIÇÃO NO CONCURSO: R$ 70,00
VAGAS OFERECIDAS: 20 (VINTE)

O CURSO É GRATUITO, SEM COBRANÇA DE TAXA DE MATRÍCULA E MENSALIDADES

EDITAL e BIBLIOGRAFIA DISPONÍVEIS EM: http://www.ifrj.edu.br/latu.php

INFORMAÇŌES ADICIONAIS:
TELEFONE: (021) 2628-0099

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraão Vicente lança "O Trampolim" na Cidade da Praia


O artista plástico, cronista e agora escritor Abraão Vicente lança a sua primeira aventura literária intitulada  “O Trampolim” na livraria Nhô Eugénio, Cidade da Praia, Ilha de Santiago/Cabo Verde, no dia 2 de Dezembro, a partir das 18h30. O autor informa que a apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto, para além de leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.


Sobre o Livro:

“O Trampolim” é um livro feito de estória que não chegam a ser contos, muito menos um romance. Estórias que são antes conversas de um miúdo de várias idades: 5,6,7 ou 8, se calhar até 9 anos. Conversas de um miúdo, que se chama Zé, com o seu amigo imaginário (ou se calhar seu alter ego) também de nome Zé. Por se repetir demasiadas vezes o nome Zé fica-se sem saber quem é a personagem real e quem é a fictícia. Falam da infância e de coisas sérias: Deus, amor, tecnologia, morte, emigração, racismo, dominação, arte. Coisas sérias faladas a brincar. Usam a linguagem da rua, o português mal falado, uma tradução quase literal do crioulo para o português. O livro está escrito em português mas também poderia ter sido em crioulo pela cadência, pelo ritmo e pelo imaginário. Um vocabulário muitas vezes inventado, recriado, enrolado, se calhar um livro para se ler em voz alta.

Como é que dois miúdos, ou se calhar apenas um, sabem tanto do mundo e dos seus mistérios? Não se sabe bem. Mas também não é se para entender. Linha da estória? Se houver uma, é a estória do miúdo que quer aprender a voar e pede ao amigo imaginário (ou será o contrário?) para lhe construir um trampolim. Enquanto esperam que o Trampolim seja construído os dois vão tecendo lembranças.

Este livro foi escrito em 2003 na Assomada. É lançado sob a chancela da editora Kankan Stúdio que, tal como as personagens deste livro, também ela é imaginária.
 
Fonte: e-mail de divulgação para a imprensa enviado pelo autor em 29 de novembro de 2010.

Mito Elias - MAJINA - 30 anos 100 Lennon



video
http://www.youtube.com/watch?v=w-w8hIPpkpk


MITO ELIAS

apresenta

MAJINA - 30 anos 100 Lennon
Celebração Vídeo-Poética à paz e à memória de John Lennon

Mito Elias - Vídeos, Poemas, Sonorizações e Vozes

Convidados :
Elmano Caleiro - Contrabaixo, Percurssão e Voz.
José Brazão - Percurssão e Voz.
José Cunha - MC - Poeta Residente

7 de Dezembro - 21.00 H

Livraria CE Buchholz
Rua Duque de Palmela, 4 - Lisboa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Palestra na ONG Projeto Legal

Hoje, a partir das 16h30, ministrarei a palestra "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa - ler para amar" na ONG Projeto Legal, à Av .Marechal Floreano, 199 - sala 502, Centro/Rio de Janeiro.

ÁFRICA E AFRICANIDADES - Ano III - nº 11 - nov/2010

ÁFRICA E AFRICANIDADES - www.africaeafricanidades.com.br

Ano III - nº 11 - novembro de 2010 - ISSN 1983-2354

Sumário

Problemáticas lusógrafas e o papel da língua portuguesa na emergência da identidade literária caboverdiana e na universalização da poesia caboverdiana contemporânea
José Luís Hopfffer C. Almada

The arts of resistance in the poetry of Linton Kwesi Johnson
Jair Luiz França Junior

A valorização da história e cultura afro-brasileira por Luiz Carlos da Vila
Maria Angélica Ventura Ferreira

Memórias na escrita de autoria feminina afrobrasileira
Assunção de Maria Sousa e Silva

Strategizing renewal of memories and morals in the african folktale
John Rex Amuzu Gadzekpo e Orquídea Ribeiro

Consciência coletiva, identidade negra e cidadania: uma perspectiva pós-colonial para as construções sociais no Brasil
Bruno Diniz Fernandes

Baara, de Souleymane Cissé
Wanessa Tenório Bezerra

O ensino e a pesquisa sobre África no Brasil e a lei 10.639
Luena Nascimento Nunes Pereira

Cabelo bom. Cabelo ruim: a construção da identidade afrodescendente na sala de aula
Sayara de Brito Félix

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Ricardo Riso

A construção da identidade negra em territórios de maioria afrodescendente
Tarcia Regina da Silva

Da cor do preconceito: o negro na teledramaturgia brasileira
Alex Santana França

População negra no Ceará e sua cultura
Marlene Pereira dos Santos e Henrique Cunha Junior

O outro pé da sereia: uma viagem no tempo-espaço
Aparecida Cristina da Silva

Afrocentricidade e educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado
Renato Nogueira dos Santos Junior

A reconfiguração da identidade nacional moçambicana representada nos romances de Mia Couto
Josilene Silva Campos

Água e azeite: políticas afirmativas e a democracia racial no Brasil
Natália Neris da Silva Santos

O outro e o eu: a cama, nas narrativas de Niketche e A cor púrpura
Waltecy Alves dos Santos

“Sonéá: exaltação da tradição oral guineense nos moldes da escrita”
Jusciele C Almeida de Oliveira

Esporte, integração social e a aplicação da lei 11.645/08 No 2º segmento do Ensino Fundamental da E.M. Professor Washington Manoel de Souza – Queimados – R.J
Denise Guerra dos Santos

Legislação portuguesa para o ultramar
Esmeralda Simões Martinez

Memória e espaço: sentimentos insulares pintados e cantados por Luísa Queirós e Conceição Lima
Eneile Santos Saraiva

Da invisibilidade do negro nos estudos sobre a cultura sertaneja
Salatiel Ribeiro Gomes

O uso da literatura de base africana e afrodescendente junto a crianças das escolas públicas de Fortaleza: construindo novos caminhos para repensar o ser negro
Geranilde Costa e Silva

Crédito pecuário a mulheres de moçambique: dinâmicas sociais de gênero
Maria Henrique Cândido e Marta Júlia Marques Lopes

Diálogos entre Brasil e Angola: a recriação literária da infância em obras autobiográficas
Karina Mayara Leite Vieira

África negra e a formação da africanidade
Tarcia Regina da Silva

Dança do chorado: facetas do corpo e cultura vilabelense
Belnidice Terezinha Figueiredo Fernandes

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz
Por Ricardo Riso
Consagrado como um dos principais nomes das artes plásticas de Cabo Verde, Tchalé Figueira desde o início dos anos 1990 apresenta a sua verve como escritor, passeando pela poesia, novelas e contos. De sua lavra são “Todos os naufrágios do mundo”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”, “Solitário”, “Contos de Basileia” (este ainda no prelo) e participações em antologias como “Tchuba na desert” para além de publicações em jornais e revistas das ilhas.

“O Azul e a Luz” foi o seu mais recente livro de poesia, publicado em 2002 pelo Instituto da Biblioteca Nacional, composto por trinta e um poemas, oito desenhos do próprio Figueira e prefácio de Isabel Lobo. Nesse livro deparamo-nos com um sujeito lírico angustiado, melancólico, amargurado com o meio e o tempo em que vive, que busca a força da palavra poética, por isso suplica “é urgente a luz...”.

Sim, a luz para o fim da insensibilidade entre os homens, o término das injustiças perpetuadoras do caos e da dor presentes na contemporaneidade, estimuladas por políticos inescrupulosos a determinar o trágico destino de milhões de vida: “Vivo num Planeta azul de fogo/ Onde a hiena e o chacal se beijam/ Esmagando corações e flores”. Sendo assim, “Com fervor, peço à criação/ Que um dia os generais do Mundo/ Acordem-se poetas e os banqueiros/ Da Wall Street Cristos na multiplicação/ Dos peixes”.

O sujeito lírico é ciente da hipocrisia predominante e da bestialização da condição humana, por isso em “Epitáfio a um poeta”: “Sonhou toda a vida acalentando a morte/ Para melhor viver num mundo de mentiras”, conduzindo-o a rememorar nossa ancestralidade e perguntar-se(nos): “Qual foi o erro na evolução de LUCY/ Nestes milhões de anos?...”, da crueldade de um mundo tomado pelo desenvolvimento da tecnologia que não diminui as desigualdades, mas que proporciona o aumento do terror, ceifando vidas na “era cibernética/ Que faz máquinas que não amam/ E impiedosamente matam”.

Contrapondo-se a isso, o sujeito lírico transfigurado em australopiteco trará o novo homem, persistente em seu clamor, deflagrador da mudança para um novo tempo: “Eu sou um australopiteco da era cibernética/ E vivo num planeta triste em sangue// Também sou um australopiteco poeta da era cibernética/ E grito todos os dias a palavra LIBERDADE...”

A insensibilidade predomina entre os seres, ofusca a luz, a impossibilidade do amor apodera-se da poesia: “Beijei constelações de melancolia// Na cegueira de um reencontro triste,/ Desvaneci-me na ilha do meu sentir e/ Naufraguei no frio dos teus beijos,/ Terrivelmente ausentes de luz”. Apesar da melancolia apreendida pelo sujeito lírico diante das atrocidades que dilaceram as pessoas, a “utopia do poeta” determina a sua trajetória, o seu compromisso para com os homens, o seu sentimento solidário permanece intocável: “Irei pelas ruas do Mundo delirando/ Com o cheiro (a)mar das ilhas/ E farei com que meus cabelos/ De mil pássaros voando, sejam/ A anunciação da contiguidade”.

A redenção está no Amor, o lirismo socorre o sujeito lírico: “Hoje acordei com o sabor a pão da tua boca/ E fui ao mar pedir aos Deuses que nos trouxessem/ A purificação no amor.// Regressei a luz com lábios de sal/ E beijei-te num solene baptismo de amantes/ Temperando o alimento da vida”.

O sujeito lírico propõe o retorno à tenra idade, com os “olhos de uma criança/ Encontro a luz lírica do mundo”, para assim reconstruir os caminhos, reformular as escolhas por meio da “serenidade rítmica da luz”, luz que iluminará as consciências e conduzirá os homens a tempos de paz e de igualdade. Da luz para o azul, azul do céu, do infinito, do universo onírico, do sonho que jamais morrerá por um mundo melhor retratado na delicadeza dos desenhos e nos poemas deste incansável contestador, o poeta-pintor Tchalé Figueira.

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo, dia 26/11 - 22h, TV Brasil

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo
Filme mostra legado que o poeta deixou à cultura cabo-verdiana

Eugênio Tavares – Coração Crioulo, filme de Cabo Verde, dirigido por Júlio Silvão

Eugênio Tavares, o poeta que melhor soube expressar os sentimentos da alma cabo-verdiana, é a figura central do documentário Eugénio Tavares – Coração Crioulo, de Júlio Silvão, e que a TV Brasil exibe nesta sexta (26), às 22h.

O filme foi rodado na Ilha Brava, terra natal do poeta, escritor, músico e jornalista
, na Praia, e em Lisboa. É um elogio à maestria com que Eugênio Tavares explorou na música e na poesia a trilogia Ilha, Mar, Amor, três objetos inseparáveis do seu pensamento poético-literário.

Uma trilogia muito bem explorada. “Ninguém até hoje entrosou melhor do que Eugénio Tavares esses três objetos, e de um modo tão íntimo, quase vivo, servindo ao mesmo tempo de palco para venerar o amor, através da mulher cabo-verdiana, na sua musica “Ô mal de Amor ca bu matan, Ô mal de Amor ca bo dexam”, afirmou o diretor Julio Silvão.

E continuou: “Nunca a alma de um povo encontrou, tão perfeitamente, a sua expressão, numa única manifestação de arte. Através dos poemas e das músicas de Tavares e do cruzamento dessa trilogia com o pensamento dos diferentes escritores de gerações procedente, dos testemunhos dos velhos da ilha, dos músicos e declamadores, pode-se compreender a verdadeira dimensão desta trilogia e a sua manifestação na alma crioula, a maneira de ser, sentir e agir das gentes das ilhas, as histórias de amor, irreverência, emigração, saudades e liberdade”.

Ano: 2010 Gênero: Documentário. Duração: 52 min. País: Cabo Verde. Direção: Júlio Silvão. Co-produção: Júlio Silvão/Silvão Produção, Filmes/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa–CPLP.

O DOCTV CPLP é uma iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação/TV Brasil, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura. A série leva ao público nove documentários inéditos produzidos nos países da CPLP e em Macau, que serão veiculados simultaneamente na grade de programação das TVs que integram a Rede DOCTV CPLP. A iniciativa integra uma operação de fomento e teledifusão do audiovisual em TVs públicas nos nove países da Rede, que são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau.

Horário: Sextas, às 22h

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

100 anos da Revolta da Chibata (RJ), viva João Cândido!

Hoje completa-se 100 anos da Revolta da Chibata, liderada pelo negro João Cândido Felisberto. Em 22 de novembro de 1910, dois mil marinheiros tomaram quatro navios de guerra após a violenta punição de 250 chibatadas sofridas por um marinheiro.
Veja o programa especial do canal Globo News que conta, infelizmente, com as tristes declarações do historiador naval legítimo representante do racismo à brasiliera.
Ricardo Riso

Mostra Brasilidade - CCJF/RJ

Programação CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL/RIO DE JANEIRO
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
cep:20040-009 – Rio de Janeiro- RJ
Até 01 de dezembro.
Fonte: http://mostrabrasilidade.wordpress.com/centro-cultural-justica-federal/programacao/
CURADORIAS: PROGRAMADORA BRASIL, DOC TV CPLP, DOCTV BRASIL.
E CHAMADA PÚBLICA CPLP (filmes brasileiros e estrangeiros inscritos na chamada pública)
Modalidade: SESSÕES DE FILMES & DEBATES

Terça-feira, 23 de novembro

14h – O Judeu (Brasil)
16h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)
O Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)

Quarta-feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)
16h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
Victor Lopes (Brasil)
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta-feira, 25 de novembro
14h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
16h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
18h – Exterior (Brasil)
Uma Lulik (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil / RS)
21h – O Rei do Carimã (Brasil / SP)

Sexta-feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil / PE)
21h – HU (Brasil / RJ)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne (Brasil)
18h – Um Dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil / BA)
21h – Álbum de Família (Brasil / BA)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema, uma transa amazônica (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – DEBATE com realizadores do Vídeo Nas Aldeias
20h – Carta Sonora (Brasil / SP)
21h – Jesus no Mundo Maravilha (Brasil)

Terça-feira, 30 de novembro
14h – Carmem Miranda
Carmen Miranda: Bananas is My business
16h – Os Anos JK – Uma Trajetória Política
18h – Divina Previdência
Cronicamente Inviável
20h – Periferia.com (Brasil / SP)
21h – Bagatela (Brasil / SP)

Quarta-feira, 01 de dezembro
14h – Segunda Feira
A Grande Feira
16h – Carolina
A Negação do Brasil
18h – Serras da Desordem
20h – DEBATE A Brasilidade no Cinema Brasileiro

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção
Por Ricardo Riso

que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro
(Éle Semog. A chave da cor brasileira. p. 111)

Após um longo tempo, Éle Semog, pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, lança em 2010 um novo livro de poesia, Tudo que está solto, pela editora carioca Letra Capital. O livro conta com prefácio de Nelson Olokofá Inocencio e texto de aba de capa de Salgado Maranhão.

Tudo que está solto é formado por um conjunto de cento e dez poemas, subdivididos em seis partes temáticas de emblemáticos títulos, só para citar algumas: Um cotidiano de ironias e fatalidades, Contrários contrastes do tempo e Afirmando outras versões da história. Generoso, o poeta introduz cada parte com um excerto de nomes consagrados da literatura afrobrasileira e angolana, tais como Cuti, Miriam Alves, Arlindo Barbeitos e Lia Vieira.

Gratificante constatar a maturidade da poesia semoguiana no decorrer das páginas deste livro. A poesia permanece corrosiva, aliás, aprimora-se nesse quesito, mostrando o caráter de “negro insurreto” intransigente ao racismo que se perpetua em nossa sociedade. O sujeito lírico demonstra voracidade perante a hipocrisia: “Basta de brancos e negros assimilados/ como penduricalhos da tolerância e integração./ A riqueza da nação não mente/ e não deixa mentir:/ branco é branco, negro é negro/ e isso não tem nada de irmão” (p. 68). Não foge do olhar ácido do sujeito lírico a perversidade da nossa democracia racial, que impõe o embranquecimento do negro, a negação de suas raízes, para ser aceito nas camadas altas da nossa sociedade, é o tema do poema “A chave da cor brasileira”: “uma outra razão turva e pesada,/ insinuosa e despudorada/ oferece uma das chaves/ que abre o mundo dos brancos.../ É para eu entrar, mas sozinho/ e lá poderei ser pitoresco e faceiro,/ desde que deixe os meus no caminho/ e tranque para sempre o negro/ que também sou, fora de mim” (p. 111).

Chocou-se? Que bom! Como afirma Inocencio no prefácio: “muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas” (p.11-12). O sujeito lírico semoguiano posiciona-se aberta mente a favor de nós, negros, com veemência revisita o nosso passado e procura reformular a nossa história, dando-nos o lugar de agente ao qual nos foi usurpado pela história oficial e o consequente ato de elevar a nossa autoestima: “(...) Não me curvo ao silêncio/ dessa versão perversa e lúcida, que torna invisível tudo que estou,/ como se o que penso pudesse ser/ desconstruído, pela expressão estúpida/ desses alcoviteiros cheios de estórias,/ que roubam detalhes, fingem fatos,/ e inumanos desfiguram vidas e verdades./ (...) Pertenço a uma História/ feita pelo meu povo/ e penso como meu povo,/ (...) Sou um negro como tantos outros/ negros e negras que esbanjam respeito/ mas que também atiçam o seu medo./ E é melhor assim.” (p. 77-78)

Dentro desse processo de reconstrução da história brasileira, os poemas reunidos em “Afirmando outras versões da história” são simbólicos, de extrema criatividade e rigor na pesquisa ao passado, vide a maneira poética como se dá a explicação da origem do nome Rio de Janeiro para a cidade. Sob o título “Ralando faz tempo no BR”, temos uma sequência de poemas que buscam reconstruir a trajetória da nossa colonização, sendo emocionantes os longos poemas que reescrevem a história da Bahia (Bahia dos vice-reis), Pernambuco (Terra pernambucana) e Rio de Janeiro (Carioca do Rio), sobrelevado pelo caráter didático configurando-se um ótimo material para professores trabalharem em sala de aula as nossas questões etnicorraciais. Cáustico, o sujeito lírico escancara as nossas feridas jamais cicatrizadas: “Com sincera fé católica e voraz volúpia/ por quase quatro séculos Portugal,/ seu rei, suas elites/ construíram a história mais triste/ que a humanidade tem para contar/ (...) de lucrar com a carne do negro/ como se não houvesse amanhã./ Comprar e vender aquela gente negra/ que ao embarcar o clero batizava por dinheiro,/ e em nome dos céus dava o inferno inteiro” (p. 80-81). O sujeito lírico ainda atenta-se aos perigosos revisionismos da elite branca contemporânea que pretende minimizar o cruel processo escravocrata: “Restam poucos documentos sobre isto,/ ninguém sabe, ninguém viu,/ como se aquelas multidões nos portos,/ nos porões, nos pelourinhos,/ fossem no tempo e na história uma miragem,/ e o algoz um erro acidental, um descaminho” (p. 81).

Resgatar a nossa história negra implica a coragem em desconstruir os cânones literários impostos pelo poder, tarefa que o sujeito lírico assume, cumprindo o fundamental papel destinado ao escritor negro comprometido com seus pares: “Vide o que vi e li/ do padre Antonio Vieira,/ quando fazia sermão/ quase perdia a estribeira,/ puxando o saco do papa e do rei,/ falando um montão de besteira./ Dentre outras sandices/ foi esse padre que disse,/ que a Senhora do Rosário/ abençoava a escravidão” (p. 85).

Sempre provocativo, os poemas lembram-nos as imutáveis violências as quais somos submetidos, “desde o tempo que o Direito/ tirou o direito da gente” (p. 105). O direito ao negro, a nossa condição humana até os dias atuais não é plenamente aceita. No passado, até o leite materno das mães negras era negado aos nossos antepassados: “É saber que os bebês negros,/ desde cedo, muito cedo,/ eram filhos, mas viravam bichos/ e perdiam do aconchego do seio/ o direito do alimento perfeito” (p. 73). Para nós, há o direito sim de sermos exterminados por uma polícia racista, programada e orientada para dizimar nossa juventude negra, principalmente a que vive em áreas carentes, por sinal e estranha coincidência, de maioria negra. Novamente o sujeito lírico versa a sua ferocidade, denuncia o triste óbvio do nosso cotidiano democraticorracial e, em feliz neologismo, apresenta os negrotérios: “No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios” (p. 52).

Essa tensão típica do caos urbano da contemporaneidade, “que sufocam a minha lógica tribal” (p. 70), mostra a insensibilidade social do poder perante os seus pares, impondo deveres mas jamais oferecendo direitos: “Estou cercado por deveres,/ obrigações, tensões urbanas/ (...) Às vezes me respingam/ manchas de sangue, noutras/ multas, e impostos, e juros,/ e crianças mortas./ Muitas crianças mortas/ na lama dessa democracia./ Enchentes, roubos, gente cão,/ e filhos aspirados por essa/ ideologia global” (p. 70).

Apesar de todo o comprometimento de Éle Semog com a justiça social, a denúncia do racismo e a valorização do negro, é importante frisar a versatilidade formal e estética deste poeta que utiliza com desenvoltura o recurso aos versos livres; de intensa ironia – “Não escrevo/ como se fossse um/ necrófilo./ Sinto isto em cada letra./ Mesmo quando/ os poemas se espalham/ feito coisas mortas” (p. 17). o lirismo amoroso e negro: “Essa beleza inteira negra,/ delicadas tranças e carapinha,/ coloridas curvas ímpares/ que eu sei pegar com os olhos/ faz-me pensar que mulheres/ lindas assim, iguais a você, são mais raras” (p. 107); poemas longos e curtos que lembram os da poesia marginal dos anos 1970 e a urgência do ‘aqui e agora’: “...Falo de sensações/ passageiras./ Aquelas eternas naquele momento.” (p. 23) ; a própria tessitura poética, a dificuldade de fazê-la e da sua importância frente à perda de sensibilidade dos homens versada por um amargurado sujeito lírico: “a poesia me irrita (...)/ A poesia me consome inteiro/ como um beijo aflito/ que quer ser visto/ na boca de quem ama/ Sou poeta e também sou assim,/ deformado, que se resume poema,/ que se expressa pela natureza/ dos limites do porvir./ (...) A poesia me elucida/ - isto tem sido tão raro -/ quando o amor que vejo entre as pessoas,/ é um defeito, um acaso./ Deixo-me imolar pelo silêncio/ até que uma lágrima perigosa/ vasa ao limbo do pranto,/ como se o meu espírito lamentasse/ pelos mortos construídos/ com radicais banalidades,/ que todas as poesias evitam evitar” (p. 52-54); e o recurso criativo da metapoética com seus próprios poemas, “O drama afro de Bigu e Juliana” e “Anotações sobre o ato de escrever”, versando a respeito da força do verbo poético, da libertação da palavra que conduz o poeta em um embate no qual a palavra sempre sai vencedora: “o poema é o que eu quero,/ não o que a inspiração tem vontade/ (...) Não gosto quando/ o texto me ilude,/ engole e me abafa.../ não gosto mesmo/ quando o texto é mais/ vaidoso que eu./ E foi isto que aconteceu/ nesse poema afro/ do drama de Bigu e Juliana” (p. 109-110).

Para concluir, é necessário celebrar este Tudo que está solto, a palavra depurada e madura, a versatilidade formal e temática deste militante negro de Nova Iguaçu (RJ), participante de diversas antologias como “Cadernos Negros” e “Ebulição da escrivatura”, com textos publicados na Alemanha, Estados Unidos e Itália, para além dos seus, dentre outros, “Curetragem – poemas doloridos” e a biografia de Abdias Nascimento, “O griot e as muralhas”. Corrosivo sim, agressivo também, sobretudo, verdadeiro e sincero nas suas intenções. Éle Semog brinda-nos com um livro obrigatório, de excelente qualidade poética, de confirmação do seu nome entre os maiores da literatura negra brasileira, por conseguinte, entre os melhores da literatura brasileira. Um brado poético contra o racismo em nossa sociedade, uma feliz leitura para nós negros. É o que tenho a dizer a respeito de Tudo que está solto e agradecer ao seu autor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Éle Semog lança Tudo que está solto na Funemac/Macaé, dia 18/11, 18h (participação Ricardo Riso)

O escritor afrobrasileiro Éle Semog lançará TUDO QUE ESTÁ SOLTO (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010), seu recente livro de poesia na FUNEMAC/Macaé no dia 18 de novembro, a partir das 18h. Além do escritor, a mesa será composta pela Profa. Dra. Sonia Santos e por mim.

Abraços,
Ricardo Riso

Alguns poemas do livro de Éle Semog.

VOLTANDO DE GRAMACHO PELA LINHA VERMELHA
A cidade cresceu ao meu redor
e agora me devora pra fora,
como acontece com um botão
na casa de uma camisa...
Mas sou um negro insurreto,
que não se dobra aos infernos
que me oferecem.
Estou cercado por deveres,
obrigações, tensões urbanas
e municipalistas,
que sufocam a minha lógica tribal.
Mesmo vivendo isto,
com essas coisas tão naturais
não consigo ser cidadão.
Às vezes me respingam
manchas de sangue, noutras,
multas, e impostos, e juros,
e crianças mortas
na lama dessa democracia.
Enchentes, roubos, gente caô,
e filhos aspirados por essa
ideologia global.
Ainda assim, dia desses,
peguei um por do sol com uma lua tão linda,
ali pelos lados da ponte Rio Niterói,
que até Deus se assombrou
com a emoção que expressei,
só com esse restinho de gente
guardado dentro de mim,
que não sabia que estar viva.
Eu sou um desses homens
que cuida da casa, das crianças e da mulher.
Já sei me libertar, só não preciso saber
para que ser livre.
(p. 70-71)


A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(p. 110-111)

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos (resenha)


Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Por Ricardo Riso


Hoje não é nenhum absurdo nem exagero afirma que Conceição Evaristo é a principal voz feminina da nossa literatura afro-brasileira. Por isso, devemos celebrar o lançamento de “Poemas de recordação e outros movimentos”, pela editora Nandyala, em 2008, antologia poética que reúne poemas do passado e inéditos dessa mineira de Belo Horizonte, nascida em 29 de novembro de 1946.

Desde os anos 1970 radicada no Rio de Janeiro, formada em Letras, Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e Doutora em Literatura Comparada pela UFF/RJ, Evaristo teve sua estreia literária em 1990, na série Cadernos Negros, publicação anual editada pelo Grupo Quilombhoje com o intuito de lançar escritores afro-brasileiros, projeto iniciado em 1978. A partir daí, a poeta começou a ter seus textos, que navegam entre a poesia, o conto e o romance, em diversas antologias nacionais e estrangeiras. Individualmente, publicou os seguintes romances: “Ponciá Vicêncio” (2003 e já na segunda edição) e “Becos da Memória” (2006).

A obra de Conceição Evaristo conduz-nos a um profundo mergulho na memória que navega entre as recordações individual e coletiva, “a memória bravia lança o leme:/ Recordar é preciso”. Logo somos banhados pelas “águas-lembranças” de Evaristo que se posiciona como mulher negra e da comunidade negra em geral para transformar em poesia as suas “escrevivências”. Estas são motivadas pelas lembranças familiares, formadoras do binômio vida-poesia, destacando-se a convivência com a mãe, “mulher de pôr reparo nas coisas,/ e de assuntar a vida”, e que “me ensinou,/ insisto, foi ela,/ a fazer da palavra/ artifício/ arte e ofício/ do meu canto/ da minha fala”, o aprendizado oral pelos provérbios, “quando se anda descalço/ cada dedo olha a estrada”, e também do contato frutífero com a Tia Lia que “temperando os meus dias/ misturava o real e os sonhos/ inventando alquimias./ (...) Houve um tempo/ em que a velha/ me buscava/ e eu menina/ com os olhos/ que ela me emprestava,/ via por inteiro/ o coração da vida”.

O cruel desenvolvimento das adversidades pelas quais passam as mulheres negras através dos tempos, configurando a dor e as experiências de injustiças sociais, são demonstrados no poema “Vozes-Mulheres”, no qual o sujeito lírico retoma as dores sofridas pela bisavó no passado de violenta escravidão, como ecos na memória de “lamentos/ de uma infância perdida”. Relembra a submissão sofrida pela avó ainda escrava diante da “obediência/ aos brancos-donos de tudo”, recorda os ecos das dores de sua mãe “no fundo das cozinhas alheias/ debaixo de trouxas/ roupagens sujas dos brancos”. Até chegar no tempo presente, na sua voz que ainda “ecoa versos perplexos/ com rimas de sangue/ e/ fome”, para atingir a consciência madura de sua filha, voz que “recorre todas as nossas vozes” e que se quer livre: “Na voz de minha filha/ se fará ouvir a ressonância/ o eco da vida-liberdade”.

A condição feminina aparece com frequência em seus poemas. Em “Do fogo que em mim arde” a coisificação da mulher é combatida: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ não aquele que te apraz”; conduzindo à metapoesia e à afirmação de um sujeito feminino pleno: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ aquele que me faz,/ e que molda a dura pena/ de minha escrita./ É este o fogo/ o meu,/ o que me arde/ e cunha a minha face/ na letra-desenho/ do auto-retrato meu”. Portanto, verifica-se a rigidez de um sujeito lírico que possui a força de dar a vida, por fim, dar movimento ao mundo e que diz: “Eu fêmea-matriz/ Eu força-motriz/ Eu-mulher”.

Ao posicionar-se como negra e ao fazer literatura com cariz afro-brasileiro, torna-se inevitável apresentar temas que não integram o cânone e são excluídos por ele, tal como a denúncia do racismo presente em nossa sociedade que a ordem estabelecida insiste em negar e persiste com a mentira de que vivemos em uma democracia racial. Os poemas de Evaristo invocam este e outros assuntos referentes ao nosso cotidiano de cidadão negro e o poema “Meu Rosário” é um excelente exemplo por tratar da religiosidade híbrida brasileira – “Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo/ padres-nossos, ave-marias” –, a discriminação permanente que o negro é submetido em uma cerimônia cristã – “As coroações da Senhora, em que as meninas negras,/ apesar do desejo de coroar a Rainha,/ tinham de se contentar em ficar ao pé do altar/ lançando flores” –, escancara o subemprego dos nossos pares – “As contas do meu rosário fizeram calos/ nas minhas mãos/ pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,/ nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo”. Entretanto, permanecem os “sonhos de esperanças” e a transformação do verbo em poesia – “E neste andar de contas-pedras,/ o meu rosário se transmuta em tinta,/ me guia o dedo,/ me insinua a poesia”.

Intertextualizando com Carlos Drummond de Andrade, para nós negros há sempre incontáveis “pedras no meio do caminho”. Para suportar e superar “a áspera intempérie/ dos dias”, necessita-se assumir “a ousada esperança/ de quem marcha cordilheiras/ triturando todas as pedras/ da primeira à derradeira”, “moldando fortalezas-esperanças” para sobreviver diante de tantas desigualdades e perseguições ao nosso povo, principalmente aos jovens, vítimas constantes da violência policial e demonstrada com sutileza pelo sujeito lírico: “E pedimos/ que as balas perdidas/ percam o rumo/ e não façam do corpo nosso,/ os nossos filhos,/ o alvo”. Fatos recorrentes que revoltam, o incômodo por séculos de opressão não segura mais a língua metamorfoseando a conjungação dos verbos: “E não há mais/ quem morda a nossa língua/ o nosso verbo solto/ conjugou antes/ o tempo de todas as dores”. Sendo assim, o sujeito lírico atua como agente de mudança da História e propõe o seu grito de liberdade: “E o silêncio escapou/ ferindo a ordenança/ e hoje o anverso/ da mudez é a nudez/ do nosso gritante verso/ que se quer livre”.

Devemos frisar que o poeta afro-brasileiro é um partícipe ativo – e por sinal, incômodo – da presença negra na literatura brasileira, assim como possui plena consciência da necessidade de uma revisão crítica da História oficial que minimiza o passado de séculos de escravidão e a exclusão social que se perpetua para a maioria de nossos pares na contemporaneidade. Só resta ao sujeito lírico cumprir seu papel e assumir essa condição, ou seja, denunciar “o que os livros escondem,/ as palavras ditas libertam. E não há quem ponha/ um ponto final na história”.

Com isso, os poemas de Conceição Evaristo possuem o predomínio temático das diversas e urgentes questões afro-brasileiras e também da mulher, todavia, sua poesia navega com desenvoltura pela metapoética, demonstrando reverência ao verbo poético, transbordando lirismo e emocionando as retinas: “Quando eu morder/ a palavra,/ por favor/ não me apressem,/ quero mascar,/ rasgar entre os dentes,/ a pele, os ossos, o tutano/ do verbo,/ para assim versejar/ o âmago das coisas”.

E é assim “crivando buscas/ cavando sonhos/ aquilombando esperanças/ na escuridão da noite” e cosendo “a rede/ de nossa milenar resistência” que a poesia de Conceição Evaristo insiste na defesa inquestionável dos negros, persiste com as denúncias às condições discriminatórias sofridas por nós e amadurece em sua estrutura estético-formal. “Poemas da recordação e outros movimentos” mostram um verbo depurado de uma autêntica artífice da linguagem, marcando a sua posição destacada na construção de uma literatura afro-brasileira autônoma, para além de configurar a inclusão do nome de Conceição Evaristo entre o que vem sendo produzido de melhor qualidade na literatura brasileira contemporânea.

Macaé Odara - dia 19/11, 13h, Centro Macaé de Cultura


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Sonia Santos, coordenadora da CORAFRO.

Literacia e a Semana da Consciência Negra

Prezados(as),
No Literacia compareço com duas resenhas de livros de escritores afrobrasileiros, Cuti e a antologia poética Negroesia, e Conceição Evaristo com o seu Poemas de Recordação e outros movimentos. A seguir, o informe da revista.
Abraços,
Ricardo Riso

Caros Amigos de Literacia,
O Dia da Consciência Negra é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história, desde a
época da colonização do Brasil, tentando garantir seus direitos sociais.

O Dia da Consciência Negra também é marcado pela luta contra o preconceito racial, além de temas como mercado de trabalho, discriminação política, etnias,e homenagens aos negros que se destacaram na construção de nossa História.

Nesta Semana da Consciência Negra, publicamos artigos, ensaios, resenhas e teses, que julgamos merecem leitura atenta e reflexiva , tais como:

I.*Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil [Registros Históricos]

II.*A importância do Negro -Teodoro Sampaio-[Engenheiro , Geógrafo e Historiador Brasileiro]

III.*Diferentes na cor, iguais em OPORTUNIDADES?-por Sonia Regina Lourenço

IV.*Carolina Maria de Jesus-Favelada,Escritora, publicou seu primeiro livro Quarto de Despejo em 1960. [Obra que foi traduzida para 13 idiomas]

V.*Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos- por Ricardo Riso

VI.*Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira- por Ricardo Riso

VII.*Negrice- por Lilian Maial

Ler em: http://literaciaracismoecrime.blogspot.com/

anadeabrãomerij
[Literacia]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mário Lúcio Sousa - O Novíssimo Testamento (livro)


E se Jesus ressuscitasse mulher?

No tempo em que os Portugueses imperavam sobre o arquipélago de Cabo Verde, aconteceu num domingo de Páscoa, na minúscula freguesia do Lém, estar a morrer a mulher mais beata que a ilha de Santiago conhecera. Interpelando-a as netas sobre a sua última vontade, não quiz ela, como seria de esperar, chamar o padre, respondendo em vez disso que gostaria de ser fotografada. Porém, assim que o flash disparou, um mistério inexplicável varreu a ilha de lés a lés; e, quando, ao fim de muitas peripécias, a fotografia foi finalmente revelada, a surpresa foi tão impossível que não houve, no mundo inteiro, uma só alma que conseguisse manter a boca fechada. A ilha quase ia ao fundo com a confusão… Se o Antigo Testamento anuncia a vinda do Messias e o Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, este Novíssimo Testamento é uma autêntica revolução: pois dá testemunho da reencarnação de Jesus no corpo de uma mulher – ilhéu e africana – que parece ter vindo inaugurar a Terceira Idade do Mundo mas não está livre de enfrentar os preconceitos sociais, religiosos e políticos do seu tempo.

Mário Lúcio Sousa é autor de uma obra literária que vai da poesia (Sob os Signos da Luz) à ficção (Vidas Paralelas, premiado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, em 2003), passando pelo teatro (Saloon, de 2004). O Novíssimo Testamento é o seu primeiro livro a ser editado em Portugal.


Título: O Novíssimo Testamento
Autor: Mário Lúcio Sousa
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores Língua Portuguesa
Ano de edição: 2010
 
Fonte: Na esquina do tempo, blog do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo

domingo, 7 de novembro de 2010

IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS

Prezados, estarei no IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS, de 8 a 11 de novembro, na UFOP/MG, apresentando a comunicação Memória, pan-africanismo e revisão crítica da história no poema “Australidades”, de José Luis Hopffer C. Almada, no dia 10 de novembro, a partir das 18h no IFAC - sala 1, ao lado dos colegas LETÍCIA NUNES GOMES (UFRG) – Ilha e Ilhéu: fusão do espaço-personagem, em A louca de Serrano, de Dina Salústio; KLEYTON R. W. PEREIRA (FAFIRE) – Identidade, gênero e diáspora – uma análise das personagens femininas nos contos de Lília Momplé, Maria Margarida Mascarenha e Orlanda Amarilis; RUBENS PEREIRA SANTOS (UNESP/Assis) – A novíssima poesia caboverdiana: a poética de José Luis Tavares.
Uma mesa que muito me atrai por apresentar a produção contemporânea de Cabo Verde, a partir das obras de J L Tavares, Dina Salústio (felizmente não será Mornas eram as noites) e José Luis Hopffer Almada.
Até lá!
Abraços,
Ricardo Riso

Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

NOTA DE IMPRENSA


Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

Tchalê Figueira está de regresso à Praia para uma exposição promovida conjuntamente pelo Palácio da Cultura Ildo Lobo e pelo IC-Centro Cultural Português que, pela primeira vez, reúne pintura e desenho daquele que é um dos mais internacionais artistas cabo-verdianos.

Partindo do propósito criativo que Tchalê definiu como orientador para a exposição - “Entre a realidade e o onírico, a minha liberdade de intervir e inventar” – foram seleccionados dois acervos de obras que traduzem essa tentativa “de perceber e intervir sobre o tempo e o espaço, seja o destas ilhas, seja do Mundo”, bem como essa mitologia pessoal que o artista constrói, urdindo “bichos estranhos, homens e mulheres, habitantes do meu subconsciente”.

Assim, o Palácio da Cultutra Ildo Lobo acolherá 10 telas de grande dimensão que constituem a mais recente produção de Tchalê Figueira, que já este ano expôs em Zurique (Suíça), na Bollag Galleries, em Pontedera (Itália) e Ponte Sôr (Portugal), no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas e nas Canárias (Espanha) no quadro do projecto “Horizontes Insulares”, bem como numa exposição colectiva sobre José Saramago, em Azinhaga (Portugal), tendo elaborado uma obra tendo por base o livro “As Minhas Pequenas Memórias”, da autoria do escritor recentemente desaparecido.

No IC-CCP serão pela primeira vez exibidos os desenhos produzidos por Tchalê Figueira para a ilustração de 4 obras. Para “Marianinha”, conto infanto-juvenil escrito por Giselle Silva, Tchalê criou os 11 desenhos que acompanham e recriam a história. A longa amizade com Brito Semedo suscitou a sua participação em “Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá”, para o qual produziu 10 ilustrações, o mesmo número de trabalhos criados para a colectânea “Tchuba na Desert”. Finalmente, para “Contos de Basileia”, livro da sua autoria no prelo, Tchalê produziu mais 5 ilustrações. No total, estarão assim exibidos 36 desenhos “reinvenção de outras reinvenções”, como refere o artista.

A abertura da exposição de pintura decorrerá no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no dia 9 de Novembro, às 19.00h e estará aberta ao público até dia 28. No dia 11, às 18.30h, terá lugar no auditório do IC-CCP a abertura da exposição de desenho, que ficará até dia 23.

Praia, 02/11/10
 
Fonte: Arco da Velha  - http://www.tchale.blogspot.com/

sábado, 6 de novembro de 2010

Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira


Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira

por Ricardo Riso

sou a ave da noite / sou ávida noite / que bate asas de vento / e traz um canto agourento / ao sonho dos opressores / e traz um canto suave / a despertar outras aves / pro revoar da justiça
 (CUTI. Ave. p. 76)

A epígrafe assinala o compromisso de Cuti, pseudônimo de Luís Silva, na conscientização do negro brasileiro. Além de ser um dos criadores e mantenedores da importante publicação “Cadernos Negros”, Cuti tornou-se nome de referência destacando-se no panorama literário, social e intelectual brasileiro por sua expressiva produção literária, pela coerente defesa dos seus ideais e reivindicações em prol da população afro-descendente, massacrada por séculos de submissão e opressão.

Com uma produção multifacetada, Cuti passeia com desenvoltura, rigor e excelência pela poesia, prosa, teatro, ensaios etc. sempre tendo como preocupação primeira revelar as desigualdades impostas pelas relações étnico-raciais e em elevar a autoestima do afro-descendente brasileiro. Com isso, o reconhecimento e o respeito ao seu trabalho ultrapassa as barreiras “invisíveis” da sociedade brasileira impondo-se pela ótima qualidade de sua escritura, o que fica evidente na leitura dos 84 poemas selecionados pelo autor na antologia “Negroesia” (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007).

Abrangendo sua produção poética desde 1978, ano de sua estreia, Cuti acrescenta dez poemas inéditos na edição de “Negroesia”. Dividida em quatro partes: Cochicho, Aluvião, Chamego e Axé, anunciam as temáticas que perpassam os textos reunidos por um sujeito lírico criativo, inovador e dissonante na maneira como subverte o discurso da ordem estabelecida, reformulando pensamentos e atitudes, chamando atenção para as injustas condições sociais e sendo incisivo na crítica à consciência submissa do negro.

A preocupação em denunciar as mazelas da língua revela-se em diversos poemas, sendo enfrentadas pelo sujeito lírico que recorre a figuras de linguagem como anáforas, assonâncias e aliterações; ora é lúdico, ora é lírico; às vezes irônico e sarcástico; ora polissêmico, ora em surpreendentes neologismos. Em relação à forma, encontramos poemas curtos e longos, alguns em prosa demonstrando a versatilidade do autor.

A perversidade do racismo à brasileira é escancarada na constante autocensura do negro em várias situações humilhantes do cotidiano: “às vezes sou o policial que me suspeito / me peço documentos / e mesmo de posse deles / me prendo / e me dou porrada (...) / às vezes sou o meu próprio delito / o corpo de jurados / a punição que vem com o veredicto (...)” (p. 53). Tal consciência do negro, reveladora de sua baixa autoestima, torna-o incapaz de ser agente da história e conquistar sua dignidade, mostrando o quanto é pernicioso o discurso dominante. O curto poema “Medo Medular” expõe esse problema: “todo mundo tem medo / da vingança do preto / até o preto” (p. 48).

Por outro lado, o sujeito lírico está “atento / contra o jogo da humilhação e / do cansaço” (p. 39), em sua luta diária para afirmar sua identidade negra desprezada por séculos pela elite social branca. Não se entrega, resiste, faz da fruição poética o espaço para almejar os novos tempos conduzidos por um novo homem negro, “o negro pronto (...) com suor dilui espinhos / do horizonte cria músculos / e semeia o novo no crepúsculo” (p. 39-40). Como “está se fazendo sempre” (p. 39), o sujeito lírico, como “um peixe fora d’água”, insurge contra manifestações aparentemente inofensivas de desprezo a sua etnia, recorre à polissemia para demonstrar sua posição em “Para ouvir e entender ‘estrela’”: “se o papai-noel / não trouxer boneca preta / neste natal / meta-lhe o pé no saco!” (p. 42)

No seu papel de conscientização e de elevar a moral do negro, o sujeito lírico utiliza a metapoesia em diversas situações, reconfigurando as significações, abalando os sentidos, desestruturando as certezas e rebelando-se contra a linguagem opressiva busca metáforas impactantes para eliminar a autocensura, cria neologismo (poesídios) para libertar-se do encarceramento imposto, como em “Negroesia”:

“enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos / por onde passam carroções de palavras duras / com seus respectivos instrumentos de tortura // entre silêncios / augúrios de mar e rios / o poema acende seus pavios / e se desata / do vernáculo que mata // ao relento das estrofes / acolhe os risos afros / embriagados de esquecimento e suicídio / no horizonte do delírio // e do âmago do desencanto contesta as máscaras / lançando explosivas metáforas pelas brechas dos poesídios / contra o arsenal do genocídio.” (p. 29)

Mostrando-se atento ao seu tempo e compromissado em diminuir as injustiças até então perpetuadas a seus pares, o sujeito lírico revolta-se contra a hipocrisia da classe dominante que destina espaços específicos e limitados para suas reivindicações, e manifesta sua indignação em “A Trajehistória”:

“então dirigi meu verbo indignado aos palacetes onde anos a fio passei a desfiar meu rosário de denúncias com a fé inabalável de que as flores brotariam em maio e os frutos em novembro. distintas senhoras e senhores conversavam na varanda ouviam meus discursos aplaudiam e quando minhas palavras secavam ordenavam que me servissem bebidas finas. e diziam: – estamos estudando... estamos estudando... estamos estudando... as suas reivindicações... (p. 79)

Quando “a noite entrou toda nua e decidida com seus versos iansânicos” (p. 79), o sujeito lírico apreende que jamais terá suas reivindicações atendidas pelos caminhos liberados pelo poder. Resta o abandono à submissão, o sofrimento com as consequências de sua decisão; porém, retorna ao passado e recria com afeto o quilombo, o local que seus antepassados conseguiam manter a autonomia da identidade negra, ainda o espaço simbólico de libertação para os dias atuais e para unir os seus pares nas lutas vindouras:

por isso eu fugi e criei este quilombo no lado esquerdo do peito. Aqui flores e alimento nascem de janeiro a janeiro e outros fugitivos são recebidos com um canto guerreiro e podem adormecer com uma cantiga de ninar. (p. 80)

Apesar da poesia cutiana ser incisiva ao defender o negro, o afeto é frequente como forma de acalanto às dores sofridas por séculos de desprezo e humilhações, fragmentando e dilacerando o negro. Ler os poemas de Cuti é como receber um “abraço fraterno” (p. 67); com lirismo, os versos procuram recompor a história do negro:

eu vou ao mar pedir à maré-cheia / que despeje no meu coração tudo o que é meu / dessa longa e interminável viagem / de ser preso de um lado / retalhado do outro / e desacreditado depois // (...) eu vou ao mar lançar minha rede / tecida em caminhos de fuga / quilombola / pois minha falta de mim / minha falta de tribo / saímos de madrugada em busca de raízes afogadas / raízes suculentas no coração da história (p. 61-62)

Sensível ao problema da educação brasileira, pois “a corte sempre ordena / que se barre a nossa gente” (p. 57), que não se esforça em elaborar um plano educacional inclusivo, a fim de respeitar e considerar a diversidade étnico-racial do país, o sujeito lírico, “em secular esforço / de superar-se coisa e se fazer pessoa” (p. 73), apresenta a defesa coerente do regime de cotas e ações afirmativas: “cota é só a gota afrouxando botas / de um exército / para o exército da equidade // cota não reforça derrota / equilibra / entre ponto de partida / e ponto de chegada / a vitória coletiva / reinventada” (p. 74).

Ao percorrer as páginas de “Negroesia” deparamo-nos com poemas que são como “foice aparando o coice da prepotência” (p. 16) do discurso vigente, de um sujeito lírico que explora os extremos das potencialidades da língua para desmascarar as artimanhas do racismo e fazer da tessitura poética o local para “quebrar todo os elos dessa corrente de desesperos” (p. 50). Por ser “daqueles que cobram o leite derramado” (p. 46), a poesia de Cuti ensina-nos a abrir “a porta enferrujada do silêncio” (p. 70), a abandonarmos nossas angústias, medos e pesadelos. Cuti crê na força do verbo poético atuando na transformação de novas consciências, na afirmação da identidade negra, na valorização da sua história coletiva, na justiça social que um dia se fará.