quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Abraão Vicente – O Trampolim (resenha)

Abraão Vicente – O Trampolim

Por Ricardo Riso
Publicado no semanário A Nação, nº 171, de 09 de dezembro de 2010, p. 10.

Abraão Vicente, o jovem e renomado artista plástico nascido na ilha de Santiago, concretiza sua estreia literária com o romance “O Trampolim”, sob a chancela da editora Kankan Studio.

A narrativa inicia-se com a observação amargurada do narrador de fotografias do passado da sua família. Apesar do tom melancólico, recordo Roland Barthes de “A câmara clara” no qual afirma que a força constativa da fotografia incide sobre o tempo, autenticando aquilo que foi; segundo Barthes, as fotografias devem ser habitáveis ao observador, conduzindo-o tanto a um tempo adiante – utópico – quanto a um tempo passado; desejo atingido durante a descrição das imagens, pois “essas fotos poderiam ter sido tiradas em qualquer bairro, vila ou cidade de Santiago ou de Cabo Verde, nos anos oitenta”.

Romance de memória, o narrador recorrer à infância, apropria-se dos amigos imaginários e das “reminiscências do rapaz ‘cabeça de ventos’, pegadas dos dias em que era dois, vivia façanhas inventadas e ouvia vozes que lhe pediam para voar”, e a partir daí tratar de diversos aspectos da condição humana.

Ambientado na periferia de Lisboa, apropriando-se do falar dos negros cabo-verdianos, recriados literariamente pelo autor com criatividade e ousadia ao subverter a língua portuguesa, ainda enriquecida por vários estrangeirismos, ou seja, “trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”, como disse Barthes em Aula. Um falar peculiar, das ruas, que não causa conflito à compreensão do texto, experiência semelhante a de Allan da Rosa, destacado escritor da literatura periférica de São Paulo/BR.

Nas intermináveis conversas do(s) Zé(s) os assuntos são diversos, atropelam-se. Surpreende o racismo, o desejo de embranquecimento dos negros ao tentar relacionar-se com mulher branca: “com uma branca qualquer boa, como faz todo preto decente que quer causar boa impressão e um pouco de inveja aos seus frendes cá na terra”, e concretizado pelo Nhô André, tornando-o exemplo a ser seguido. Assim como é racista a insensibilidade de políticos que vêm crianças disputarem o lixo dos parlamentares, pois tiram “daí o seu alimento de cada dia”.

A emigração forçada dos africanos em razão da crise econômica – consagrada na célebre exposição “Pass Ports” do autor/artista –, a assimilação dos negros e a amnésia induzida, no sentido empregado por José Luis Hopffer Almada; denúncias que fazem recordar a necesssária “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral: “de investigar como eram as coisas e como se transformaram”, no dizer do Zé; para além de um intenso humanismo, da conquista da igualdade – “querer o meu não é roubar o seu/ pois o que quero é só função de eu”, de Raul Seixas –, de respeitar a alteridade, “igualdade vem de saberes porque és diferente e entender a razão dos outros”.

Cabe ressaltar alguns procedimentos literários de imenso agrado, tais como o diálogo com a escrita automática surrealista – “uma coisa é escrever palavras da língua que eu sei ler e entender, outra coisa é escrever tudo que te passa pelo capacete e na língua que te mais te convier”; o dadaísmo do “jogo do absurdo”, as teorizações acerca da arte contemporânea e o uso de cartas enviadas para si mesmo, tal como o jovem Fernando Pessoa.

Para finalizar, apetece mencionar as pertinentes questões ontológicas levantadas ao longo do romance, as severas críticas à sociedade de consumo e ao vazio existencial dessa condição – e recordo o Zigmuth Bauman de Vidas para Consumo; entretanto, e sobretudo, celebrar o desejo permanente de sonhar e de voar como impulsionadores e motivadores frente às adversidades da vida e a defesa inconteste da liberdade individual em um mundo cada vez mais igual, previsível e competitivo. Esses são alguns dos grandes méritos apresentados durante a leitura d’O Trampolim, de Abraão Vicente. Um belo sopro de renovação à literatura cabo-verdiana.

4 comentários:

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Porque para mim África é luz, gosto de passear neste jardim, onde o Ricardo Riso permite que repousemos junto das flores que nele plantou, e nos deliciemos com o perfume que emana de cada uma delas.
Santo e Feliz Natal, e que 2011 lhe traga muitos êxitos pessoais e profissionais.
Um abraço.

Ricardo Riso disse...

Prezada Isabel, primeiro quero retribuir os votos cheios de energia do seu comentário!
Disto isto, muito obrigado por visitar o blog e de certa maneira contribuir positivamente para você.
Tenho apreço especial por este livro do Abraão Vicente, um grande amigo do outro lado do Atlântico.
Grande abraço e feliz ano novo!

lita duarte disse...

Oi, Ricardo.

Vivas para você!:)

FELIZ ANO NOVO.

Muita prosperidade para você.

Beijos.

Ricardo Riso disse...

Olá, Val!!!
Tudo de bom para você!!
Beijinhos!!!