sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Afrodestinos, de Ricardo Riso

AFRODESTINOS*
Ricardo Riso

E o Ben dos bens sons cantou assim:

"Arthur Miro,
Diga lá, menino,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser jogador de futebol
Jogador de futebol
Anabela Gorda,
Diga lá, menina,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário
Dona de casa atuante ou mulher de milionário
Jesus Correia,
Diga lá, menino,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser tesoureiro-presidente ou liberal como você
Tesoureiro-presidente ou liberal como você"

O sonho e a chegada da realidade.
Arthut Miró, craque da bola, idolatrado na comunidade em que viveu, caiu nas garras do empresário branco (versão contemporânea do traficante de escravos). Das categorias de base no Flamengo, promessa de craque, à aventura no obscuro futebol dos Emirados Árabes. Transação de cifras estratosféricas ponta-pé para sonhada estabilidade, dinheiro que não viu, concentrado nas mãos do empresário. Grave contusão, retorno ao Brasil, abandono empresário, portas grandes clubes fechadas. Arthur Miró estava bichado, cochichavam. Hoje, camisa 10 do ABC do Rio Branco do Acre, une o futebol aos serviços de ajudante de pedreiro, uma das poucas profissões para quem apenas aprendeu a escrever o nome e apostou no esférico sonho de gols e dinheiro como tantos nossos irmãos de cor.
Anabela Gorda enamorou-se de um milionário, Zé Milionário, antigo garimpeiro de Serra Pelada que conseguiu fazer alguma fortuna, boa parte detonada em bebidas e mulheres, ainda assim conseguiu juntar algum, veio para a cidade outrora maravilhosa tentar mudar de vida e comprou uma casa própria no Rio das Pedras. Anabela Gorda tornou-se dona-de-casa atuante, Zé Milionário deu-lhe uma casa, seis filhos, diversos quilos a mais, o convívio com a embriaguez permanente e a perda das poucas economias devoradas pelas máquinas de jogo dos bares, outro vício de Milionário. O único prazer de Anabela Gorda se dá quando senta para ver as novelas do plim-plim, fábricas de ilusão, momento em que ela sonha ser doméstica na casa de um outro milionário do Leblon ou da Barra da Tijuca.
Jesus Correia, garoto esperto, sagaz, ambicioso, revoltado com a polícia que tantas vezes na sua cara bateu, nas de seus amigos também, quase sempre sem motivo nenhum, algo como se fosse mais um ritual do trabalho do policial, tal como bater o cartão-de-ponto na entrada e na saída. Quando mais um brother preto morreu sem justo motivo pelos homens da lei, exterminadores de negros, cansou-se de ver suas tias em lágrimas negras e decidiu assumir sua habilidade com o dinheiro e com a valentia adquirida por tantos anos de discriminação para o bicho entrou. Jesus Correia encontrou a sua forma de ser liberal, tornou-se tesoureiro da boca. Jesus Correia adora queimar vacilão alcaguete, sabe que essa vida não é longa e canta, em meio às orações para seu orixá, “Eu vou torcer, eu vou/ Eu vou torcer pela paz/ Pela alegria, pelo amor” e espera o dia da morte chegar em um provável confronto com a polícia.

* poema inspirado na música “Meus filhos, meu tesouro” de Jorge Ben, do álbum África/Brasil, de 1976.

5 comentários:

Ana...aninha... disse...

Maneraço, sinistraço, mega muito bom. Para além do que eu iamginei quando recebi a mensabem dessa escrita...bem a sua cara. Por isso tão bom e cheio de negritude!
Bjuss
Ana

Ricardo Riso disse...

Puxa vida, muito obrigado, Ana! Será que daria para adaptar em um rap?
bjs!!

Valéria Lourenço disse...

Ricardo, gostei muito. Como sempre, vc brinca com as letras.
Ah, e obrigada pela visita ao meu blog e pelo comentário.
Sinta-se à vontade.
Valéria.

Ricardo Riso disse...

Muito obrigado, Valéria!
Valeu pela visita e pelos elogios!!
Abraços!!!!

inominavel disse...

Parabens pelo post, saí procurando o porquê dos nomes na música, e olha só: achei!! Saravá!!