quarta-feira, 1 de junho de 2011

Maria Helena Sato – Cristais (resenha)



Maria Helena de Morais Sato – "Cristais"
Por Ricardo Riso
Com estima e consideração, à autora.

Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês).

Sato tem nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Farol” (2002), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (apresentação de antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2005 lança “Cristais” pela editora paulista Komedi, prefaciado por D. Geraldo Gonzáles y Lima e ilustrado por Celso Massatoshi Sato. “Cristais” reúne 99 poemas que convidam à reflexão diante das intempéries do cotidiano imposto pela contemporaneidade. Talvez por isso a concisão dos poemas, os versos sejam curtos, ainda assim o sujeito lírico apresenta-se eloquente, preciso, propondo o reencontro do “ser com o Ser”.

As agruras de uma sociedade hipercompetiviva em correria frenética para acompanhar as imposições de um mundo globalizado possui a insensibilidade – “Ouvidos cansados/ e visão embrutecida” – entre os homens como consequência. Os sentidos esgarçados precisam ser restaurados e a analogia aos cristais lembra-nos que “Duros ou/ estilhaçando,/ esperamos lapidação...”.

O desejo de reencontrar o caminho expõe-se na busca pela recriação da palavra primordial, a que permite a harmonia entre seus pares, e suplica: “Mesmo assim/ viramos/ demiurgos,/ fórmulas/ para te/ alcançar!/ Só não inventamos/ ainda,/ neste templo,/ a palavra única,/ elo de/ corações/ sem/ lar”.

A desorientação é a ordem do dia diante de vidas transfiguradas, de trajetórias fragmentadas pelo caos, o sujeito lírico necessita de ajuda para resgatar a sensibilidade perdida e questiona se precisa de um peregrino (de terras distantes) “para me repetir/ a primeira lição?” Nesse sentido, tal como retirante, deve-se apreender uma nova sensibilidade que parte da observação simples da natureza: “Fim de retiro./ Um arco-íris/ no cenário,/ no olhar./ As mesmas nuvens,/ mas há um arco-íris no céu!/ (...) Na alma do retirante,/ cores ligam/ Terra e Céu!”

Sendo assim, não causa estranhamento que o sujeito lírico de Maria Helena Sato se aproxime da poesia zen, pois para compreender a desfiguração da vida segundo Octavio Paz no artigo “A poesia de Matsuo Bashô”, recorre-se à “doutrina sem palavras (...) através da experiência do sem-sentido, descobrir um novo sentido”. Logo, versa o sujeito lírico: “O nada ilumina/ o que palavras/ obscurecem./ Sou/ minha própria/ nudez”. Por outro lado, ainda em sintonia com o Oriente, Sato subverte a temática do hai kai ao referir-se à religiosidade cristã: “Quase hora de missa,/ já pelo caminho, a pé/ cem ave-marias!”

A entrega incondicional ao ser amado ganha atenção especial em diversos poemas de Sato. Em “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos”, o sociólogo Zigmuth Bauman observa a dificuldade dos casais em manter suas relações, pois se considera que uma relação fechada obstrui relacionamentos futuros mesmo sem a certeza de concretizá-los, ou seja, segundo Bauman, “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”. Por isso, reconforta a posição do poema “Recriação”, rara e contrária à maneira dispersa que os relacionamentos amorosos se dão entre nós: “À tua Luz me/ rendo/ e em qualquer espaço/ me desvendo,/ se for em teu/ universo!”.

Como “cristais em lapidação/ constante”, nós, “sísifos da vida”, encontramos na leitura de “Cristais”, de Maria Helena de Morais Sato, sapiência e conforto para contermos as individualidades, o “nosso impulso/ de/ ter” e encararmos as atrocidades da vida como o herói menino que, após ter tido sua cesta de mantimentos roubada, “sorria/ por ter carregado tanto/ e não ter pesado/ nada!”

Trata-se de poesia diaspórica cabo-verdiana de excelente qualidade. E o melhor: publicada no Brasil. Portanto, recomendo a leitura deste “Cristais”, de Maria Helena Sato.

2 comentários:

Henriette disse...

Conheço a Leninha e acompanho sua trajetória surpreendente. Recomendo "Areias e Ramas" singelos e fortes ao mesmo tempo....

Ricardo Riso disse...

A poética de M. H. Sato é bastante consistente, precisa e de grande valor estético. Obrigado pela lembrança de "Areias e Ramas" e por seu comentário.
Abraços!