sexta-feira, 4 de julho de 2008

Mia Couto e a CPLP: Moçambique é e não é país de língua portuguesa

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ENTREVISTA - MIA COUTO E A CPLP: Moçambique é e não é país de língua portuguesa

Maputo, quarta-feira, 25 de junho de 2008
Entrevista concedida a Gil Filipe

MIA Couto apresentou recentemente em Maputo o seu mais recente livro, o romance “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”. É o 23º deste que é o autor moçambicano mais lido interna e externamente. As vendas no país e as traduções para inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, hebraico... são o espelho do quão apetecível é este escritor. O novo livro marca uma certa viragem na escrita de Mia Couto: se ele se fez famoso numa carreira de quase três décadas inventando palavras – é conhecido como “o inventor da língua” –, nos venenos e remédios que agora oferece à literatura a faceta já não é essa. É simplesmente a de um imaginativo comunicador, contador de uma história desdenhável à priori mas que com o fluir das páginas se revela apetecível, porque nos faz debater o que pensamos saber mas que na verdade... ignoramos. É assim este “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, chamamento a um diálogo praticamente inexistente: o diálogo entre nós e os outros, por exemplo os países de língua portuguesa, por via da cultura. A saída deste livro foi um novo pretexto para uma nova conversa com Mia Couto. Falámos de literatura e de outros temas inevitáveis quando se está por estes dias perante um actor importante na língua que também é nossa: o andamento da CPLP e o polémico acordo ortográfico. Eis alguns trechos dessa conversa com o também autor de “Terra Sonâmbula” e “ Varanda do Frangipani”: Maputo, Quarta-Feira, 25 de Junho de 2008:: Notícias

- Pelo que percebi percorrendo as páginas de “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, este livro é uma viagem à uma outra vertente da cultura, como os encontros e as divergências de perspectivas de ver o mundo, de procuras e encontros de identidade... É isso?

- Eu acho que desde o meu primeiro livro há um tema que nunca me abandonou que é o tema da procura de identidades. Estas identidades que nós pensamos como sendo puras, isoladas e estáticas, não são nada disso e pelo contrário são dinâmicas. Este livro fala um bocadinho sobre isso, sobre uma mestiçagem que não é apenas racial mas uma mestiçagem de culturas. Evidentemente que a história é uma outra coisa, mas de uma forma indirecta falo também sobre isso.

- Falando essencialmente deste livro, exactamente o que são, na perspectiva de quem escreveu, estes remédios e estes venenos?

- É uma história de encontros e desencontros, de alguém que pensa que vai encontrar alguém, e que não encontra, e que pensa que vai encontrar numa determinada terra, que lhe aparece na aparência, é uma outra coisa. Quer dizer, esta terra é uma espécie de cenários, de imagens e de representações que são sempre falsas. Portanto, há aqui uma fabricação de mentiras, pois para existir esse lugar é preciso mentir sobre si próprio. Aqui há uma família que vem de fora e que tem que construir uma encenação para conseguir o tipo de relação com essa pessoa que vem de fora. Este livro nasceu quase acidentalmente. Estava eu a escrever outro livro, que acabei adiando, quando me surge a ideia desta história. Foi por acidente que saltei para esta história, pequena e que foi crescendo, que começou a chamar-me, a prender-me e de repente fiquei nela e abandonei o romance logo que tenho e que vai sair posteriormente.

- Naquilo que é a obra, deparo-me com dois factos: o primeiro é que sempre que escreve é atrás de um tema. E segundo é que esse tema tem a ver com um espaço específico, Moçambique. Mas nota-se agora a ausência disso. Estará o novo romance a marcar uma viragem na sua escrita?

- Como tu podes imaginar, quando se chega a determinado estágio daquilo que é o nosso percurso – este é o meu 23º livro -, há uma tentação enorme em escrever mais um livro. O risco é esse, sentir-se sempre tentado e a fazer mais um livro e encarar isso de uma maneira quase banalizada, pois perdemos aquela atitude e aquela paixão intensa que marca o primeiro livro, o que é grave. Substituímos esse pensamento e sentimento pela procura do tal livro que nem sequer sabemos o que é e como é que o devemos escrever. Portanto, eu quis que este livro trabalhasse dentro de mim como uma surpresa, rompendo com algumas coisas e com algumas linhas que eram linhas minhas habituais. Este é um livro mais ou menos universal, portanto esta história podia ocorrer em qualquer lado do mundo e também menos crível a factos históricos, embora aqui, curiosamente, apesar de estar a navegar um pouco pelo mundo faço uma coisa que nunca fiz, como pôr referência de lugares precisos, como, por exemplo, Murébuè, Pemba, o que nunca tinha feito anteriormente, embora me referisse a Moçambique pelo contexto mas pondo lugares fictícios...

- perguntava se é uma viragem, essa, na sua escrita? É assim que passará a escrever?...

- Sim, há um bocado de viragem, mas não sei se é exactamente assim que passarei a escrever. Não sei, não sei. Apenas quis soltar-me de algumas coisas e no domínio da construção da linguagem eu faço uma coisa que eu penso que é nova, como, por exemplo sou mais comedido na invenção de palavras, fazendo-o só quando era preciso e não como um factor de busca literária ou marca. Por outro lado, o lugar do narrador é um lugar que aparece pela primeira vez num livro meu como personagem também; ele entra na história, tem opiniões, dialoga com as outras personagens, o que faz com que a fronteira entre o narrador e os outros intervenientes da história é sacudida.

- Quando fazemos algo durante um longo fio de tempo corremos o risco de ser monótonos e não causar impressão aos receptores do nosso trabalho. Por isso procuramos desafios. Quais são os seus, depois de mais de 20 livros?

- Olha, eu fico sempre com o sentimento, com a impressão de que ainda não escrevi o tal livro que eu quero escrever. Esse é um fenómeno existente e penso normal junto de quem abraça a escrita. De qualquer maneira não me sinto satisfeito, há em mim uma intranquilidade e uma inquietação que nos faz correr para além do que já fizemos. Acho que isso é que nos move não como escritor mas como pessoa, pois todos nós estamos sempre à procura de uma coisa que está sempre mais além e mais além...

- ... mas tem algumas ambições na carreira...

- Não, não! Não tenho ambição do ponto de vista de carreira. Mas gostava de manter comigo próprio uma relação em que possa inventar mais. Eu penso que há mais coisas que eu posso inventar, mais personagens, mais vidas que eu posso criar dentro de mim. A felicidade que a escrita me dá vem sobretudo do facto de eu poder ser outro, ser determinado personagem que eu próprio criei, e, como podes imaginar, isso não tem fim, eu quero ser infinito e quero ser eterno. Encontrei uma maneira de mentir a mim próprio me multiplicando em pessoas e em personagens que eu vou criando.

- O facto de ser o escritor moçambicano mais lido aqui e no estrangeiro, lá por via das várias traduções aos seus livros, cria-lhe alguma pressão, satisfação ou algum outro sentimento?

- É uma mistura de sentimentos. É assim: há alguma coisa que me dá prazer nisso, eu tenho algum orgulho e alguma vaidade pelo facto de que esse reconhecimento me foi dado. Às vezes fico muito comovido, na rua por exemplo, quando muita gente, que provavelmente nunca leu os meus livros mas que me dizem coisas como “você é uma espécie de bandeira nossa, continue...” Encaro isso como mensagens de grande gratidão da parte das pessoas que assim se pronunciam e fazem de mim uma pessoa grata por tudo o que tenho vindo a fazer. Às vezes pergunto-me a mim próprio se eu mereço isso. Mas por outro lado sinto isso como uma responsabilidade que eu acho que não quero ter, eu não posso definir-me a mim próprio como sendo representante de alguma coisa. Tenho todo o prazer em que o meu nome esteja associado ao nome do país, de uma terra que ainda tem que se afirmar, e me orgulho por isso. Mas não estou em lugar cimeiro de nada, olho para mim como um aprendiz que se sente no princípio da sua própria carreira. Estou disponível para aprender e para rever a mim próprio, porque o que fiz já não conta, conta o que tenho ainda a fazer, estando aí a beleza de ser escritor.

- EM 2007 dismistificou a ideia de lusofonia, um conceito por vezes polémico ou mesmo ignorável pela forma como tem sido definido. Qual é a sua percepção sobre a tal comunidade de países de língua portuguesa?

- Bom, há uma organização que se chama CPLP, que está fazendo coisas, reúne-se, tem comissões de trabalho, etc., e eu acho que por aqui essa organização existe e ninguém pode negar. E depois existe outra coisa que se pode questionar que é se isso tem correspondência de uma comunidade de afectos, de uma comunidade de interacção. E eu acho que esta existe também, não da maneira como os políticos a querem apresentar mas existe. A língua portuguesa deu-nos uma certa afinidade histórica. Aqui na língua temos que ter algum cuidado, porque se queremos construir uma família, uma comunidade... Temos que pensar que alguns moçambicanos, alguns angolanos e alguns guineenses, não falam português. Há outros casos, também, como o de Timor Leste, em que dizemos falsamente que é um país de língua portuguesa. É uma coisa falsa e desorientada politicamente e culturalmente dizer que aquele país é de língua portuguesa. Timor não é um país de língua portuguesa nem a maioria dos timorenses fala português.

- Por esse andar é correcto definir Moçambique como um país de língua portuguesa?

- Moçambique é um país que é de língua portuguesa! E não é ao mesmo tempo. Alguns moçambicanos é que pertencem à esse universo, o de terem a língua portuguesa como o seu veículo de identidade, de afirmação cultural, etc. São poucos os moçambicanos que falam, escrevem, sonham, amam na língua portuguesa. E não são menos moçambicanos por isso nem os outros mais moçambicanos pelas outras línguas que usam. Eu acho que há aqui uma tentativa de procurar a identidade moçambicana sempre lá, nas raízes, há séculos, quando provavelmente tiveram a mesma mobilidade, como o changana que existe hoje não é o mesmo de há 50 anos ou antes da chegada dos ngunis. Portanto, eu acho que essa comunidade, a de língua portuguesa, existe de facto. Penso que a questão a colocar por volta dela é se ela é mesmo aquilo que nós queremos que seja. Eu acho que o grave é haver manipulações...

- ... da parte de quem?

- Da parte dos que querem ser mais que os outros, dos que disputam os outros! Eu acho que a disputa é entre Portugal e Brasil, que querem usar esta bandeira como instrumento de busca de privilégio na relação com os outros países de língua portuguesa. E às vezes há aqui uns lapsos de língua quando eles se referem aos outros como os lusófonos, quando os portugueses falam em “países lusófonos” excluindo-se eles próprios e querendo referir-se apenas a nós, países africanos de língua portuguesa. Às vezes estabelecem um eixo triangular da lusofonia, composto por Portugal, Brasil e depois África, como se nós não tivéssemos direitos a nomes próprios como países. A lusofonia de que se fala tem sete ou oito países, contando com Timor Leste. Mas também não vou ficar a aceitar a alguns pronunciamentos que se fazem entre nós. Eu sou adepto da crítica, desde que devidamente fundamentada.

- A comunidade de língua portuguesa é então utópica, existindo muito pouco na prática, por essa ausência de entendimento e por esse contínuo digladiar de gigantes que nos querem definir em função dos seus interesses...

- Penso que fazer uma recusa total da lusofonia, de uma comunidade de falantes de língua portuguesa no mundo, de que nós fazemos, parte, não é correcto. Porque essa comunidade pode nos servir em muitos momentos, como o que mais ou menos se verifica agora, em que o processo de globalização é muito forte e nos pode sufocar. Talvez essa afirmação de um espaço próprio, onde nós temos alguma coisa a dizer, é bem mais útil que as perdas de tempo que temos tido ao rejeitarmos aquilo que por razões óbvias não se pode rejeitar. Não nos esqueçamos que com o Brasil temos afinidades históricas importantíssimas que muitas vezes esquecemo-nos que elas existem e que são intrínsecas à existência de todos nós. Há coisas que nós devíamos recuperar e valorizar historicamente e se calhar isso nos criaria um espaço de afirmação e de negação dessa globalização e de homogeneização do mundo que me parece se está a tentar construir por algumas correntes de pensamento e de atitude.

- O que está a dizer é que é importante haver uma organização como esta mas operando de um modo que não é o que caracteriza o agora andamento da CPLP...

- Não sei se é isso, mas penso que isso é outra coisa. Não vou avaliar a qualidade do funcionamento da organização, mas sinto que ela é pouco visível, é pouco participativa e apela muito pouco para que nós participemos nela, por exemplo para aquilo que possam ser as nossas sugestões. Eu acho que também aqui ao invés de ficarmos no café ou no sofá a dizer mal, se calhar devemos levantar as nossas vozes para dar a sugestão de como é que gostaríamos que fosse esta organização que pretendemos seja mesmo uma comunidade de países.

- Outro ponto que suscita debates no seio dos países que usam o português como língua oficial é o acordo ortográfico. Temos nós e Portugal um código de escrita, o Brasil o seu... A harmonização trás um braço-de-ferro entre Portugal e Brasil, que tentam arrastar os outros para a sua filosofia. De que lado é que está?

- De nenhum! Estou do lado de Moçambique. A minha opinião é uma opinião de escritor e de cidadão. Eu nunca tive problemas em ler livros brasileiros. A grafia ligeiramente diferente não me faz confusão. O Brasil lê os meus livros e lê os livros da Paulina Chiziane sem problema nenhum. Pelo contrário acho que há da parte dos brasileiros um certo encanto ao se aperceberem que se trata de uma realização linguística diferente. Portanto, não penso que seja de grande importância a questão do acordo ortográfico. Mas respondendo à sua pergunta, não faço guerra contra o acordo mas não sou a favor dele. Eu acho que o importante era discutir outras coisas que nos afastam e mantêm o enorme desconhecimento que há entre nós. O Brasil não sabe muito de Moçambique. Portugal idem. Eu acho até que os moçambicanos sabem muito mais sobre os outros do que os outros sabem sobre nós. Os moçambicanos são mais atentos em relação ao mundo e têm a capacidade de olhar para o mundo de uma maneira muito mais crítica, no sentido de conhecê-lo e por isso estarem dotados de opinião credível, o mesmo não acontecendo com muitos daqueles com quem nos relacionamos.

- Dizia que o mais importante não é o acordo. É...

... é e são muito mais coisas como estas que eu estava a enunciar. No domínio da cultura há muito mais a unir-nos e a afastar-nos. Há acções culturais que temos que fazer para que os livros circulem melhor entre nós, o que francamente não está a acontecer agora. Com uma ortografia ou outra se não mudarmos essas coisas não estaremos a caminhar juntos. A importação do livro deve ser repensada, porque não é fácil sobretudo para nós, os mais pobres. Deve-se pensar nas edições conjuntas, divulgação do que é que estamos a fazer, o que é que é a história comum destes povos, os seus patrimónios de identidade comum desses povos, tudo isso é mais importante que tentar buscar um acordo para a ortografia da língua.

2 comentários:

ALMARIADA disse...

Olá!

Gostei muito de ler esta entrevista. Gosto sempre muito de ler Mia Couto, nos livros e nas entrevistas. :) Até cito uma frase dele no meu blog, espero que vocês e ele não se importem. Tem um link que remete para aqui...

Tudo bom para vocês!

Ricardo Riso disse...

Mia Couto, além de ser um excelente escritor, é um pensador do que envolve o continente africano e a língua portuguesa. Por isso, já postei várias entrevistas com ele aqui no blog. Minha admiração é total pelo seu trabalho e pela pessoa que é.
Obrigado pela visita, Almariada!
Volte sempre!!!
Abraços,
Riso