quinta-feira, 31 de julho de 2008

Ondjaki - Bom dia camaradas (excerto)

Ondjaki já é há algum tempo um nome consolidado da nova literatura angolana. Seus textos em poesia, romances e contos geralmente enveredam pelos caminhos intermináveis e férteis da memória. Ao recorrer às lembranças da tenra idade, conduz-nos a uma escrita sensível, comovente e sonhadora, entretanto, isto não quer dizer que seja passível aos problemas sociais e políticos de seu país estimulados pelo fim das utopias e engolidos pela ganância inescrupulosa do capital estrangeiro, com a conivência de uma elite submissa e corrupta.

Neste pequeno excerto de Bom dia camaradas, deparamo-nos com o lirismo característico das suas narrativas. O retorno às recordações da infância é tecido com leveza e simplicidade nas observações da criança. Encontramos a presença da oralidade subvertendo a sintaxe da língua portuguesa (influência de Luandino Vieira); uso corrente de termos de um governo de vertente socialista; as condições miseráveis que boa parte da população era obrigada a viver, demonstrando que as promessas da revolução para a construção de um novo país não foram cumpridas; a escola no cotidiano dos então pioneiros; e a presença do elemental água, representado pela chuva. Chuva e sonho... Chuva como elemento fecundador da terra a germinar uma nova vida, um novo país. A evasão do artista ao tentar visualizar uma outra realidade diante do caos, das incertezas e frustrações do cotidiano angolano dos anos 1980.

Ricardo Riso

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Depois do almoço fui deitar-me naquela cadeira verde, comprida, lá no quintal. Estava a ventar um bocado, o que era bom, porque assim eu podia adormecer rápido, com o barulho das folhas do abacateiro a chocalharem.

Nos dias em que o céu não estava tão escuro, eu gostava de imitar as lesmas do meu jardim, e deitar-me ali mesmo ao sol. Lá na cozinha, o camarada António fazia barulho com os pratos e com os copos, ele sempre demorava muito tempo a lavar a loiça. Esse barulho é que acostumava me adormecer. “Menino, acorda então... Faz mal ficar com a cabeça ao sol... Depois a mãe vai ralhar com o menino...”, ele gostava de dizer. “Mas já passou quanto tempo, António?... Ainda nem adormeci um bocadinho...”, eu queria refilar. “Ê menino!, passou mais de vinte minuto...”

Acordei com os pingos da chuva a me bombardearem as pernas e as bochechas. De repente, começou a cair uma carga d’água daquelas valentes. Fui pra baixo do telheiro e fiquei a ver a água cair. Lembrei-me imediatamente do Murtala: na casa dele, quando chove, só podem dormir sete de cada vez, os outros cinco esperam todos encostados na parede onde há um tectozinho que lhes protege. Depois é a vez dos outros dormirem, assim mesmo, juro, sete de cada vez. Sempre que chove de noite, o Murtala, no dia seguinte, dorme nos três primeiros tempos.

Ao ver aquela tanta água, lembrei-me das redacções que fazíamos sobre a chuva, o solo, a importância da água. Uma camarada professora que tinha a mania que era poeta dizia que a água é que traz todo aquele cheiro que a terra cheira depois de chover, a água é que faz crescer novas coisas na terra, embora também alimente as raízes dela, a água faz “eclodir um novo ciclo”, enfim, ela queria dizer que a água faz o chão dar folhas novas. Então pensei: “Epá... E se chovesse aqui em Angola toda...?” Depois sorri. Sorri só.

Ondjaki. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006. p. 136-137.

4 comentários:

Norma Lima disse...

O seu blog está um show, viu? Vou recomendá-lo para minha amiga que está com a turma de Africanas on line. Parabéns, querido.

Ricardo Riso disse...

Obrigadão, Norma!!! Você é a minha principal incentivadora e fonte inspiração.
Bjs!!!
Ricardo Riso

Nayara Xavier disse...

Me ajudou muito ricardoo!!!
vc estará em minhas referncias amigo!!!
xerao!

Ricardo Riso disse...

Muito obrigado, Nayara!!
Sucesso no seu artigo!!
Um grande abraço e "xero"
bjs!!