quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde) 122 - 31/12/2009 - resenha "Praianas" de José Luis Hopffer C. Almada





José Luís Hopffer C. Almada - Praianas


Por Ricardo Riso


Neste ano foi lançado “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade”, livro de poesia de José Luis Hopffer C. Almada, publicado pela Spleen Edições, com visceral capa de Abraão Vicente e um posfácio muito bem elaborado por Rui Guilherme Gabriel, assim como foram as análises de Inocencia Mata e Maria Armandina Maia à 2a. edição da “Assomada Nocturna” e ao artigo de Mario Fonseca referente à sua 1a. edição. Todo esse esmero crítico valoriza o vigor da formulação poética de José Luis e demarca a pertinência da sua produção para a literatura cabo-verdiana contemporânea, além da reconhecida contribuição na área de crítica literária.

Em “Praianas”, o autor retoma seus heterônimos para reunir poemas sobre a Cidade da Praia e inclui-se na vasta lista de poetas que se inspiram na cidade, tais como Arménio Vieira, Jorge Carlos Fonseca e Filinto Elísio. Estão representados, com seus olhares diversificados e diferenciadas características, NZé di Sant’ y Agu (o mais telúrico, vinculado às ilhas e à cultura de Cabo Verde) autor do longo e épico poema narrativo “Praianas” (recomenda-se as considerações de Rui Guilherme acerca de gênero) e de “Historicidades”; “Poeticidades”, de Alma Dofer Catarino (o que se pretende lírico e existencialista); e “Noiticidades”, de Erasmo Cabral de Almada (a faceta voraz e crítica) que encerra o livro; alguns deles acompanham a criação poética de José Luis desde o final dos anos 1970.

A ironia e o olhar corrosivo e amargo diante da situação atual da Praia e do país revelam-se nos poemas dedicados a Erasmo Cabral de Almada, principalmente em “Cidade VI”: “A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade” (p. 115). Enquanto Alma Dofer Catarino comparece com lirismo e elegante ironia inferidos na homenagem a Arménio Vieira, em “O desterro do poeta”, ao mencionar o incômodo causado não só pela sua poesia, mas também pela sua presença: “Dizem/ consumias demasiado café (...) Por isso/ instaram-te a mudar/ o teu indeclinável percurso/ de todos os dias/ e proibiram-te de consumir café” (p. 103-105).

Todavia, o engrandecimento deste livro se dá nos poemas de NZé di Sant’ y Agu. O seu apego ao chão de Cabo Verde e a constante rememoração do passado histórico estimulam o poema “Monte-Agarro” (p.95), integrante de “Historicidades”, a celebrar os heróis da revolta de 1835: Gervásio, Narciso e Domingos. Mas é na retomada e no aprofundamento de características das duas “Assomadas Nocturnas” que o longo poema “Praianas” se destaca. Estão lá a evocação, a anáfora, o uso constante da adjetivação e do gerúndio, o discurso metafórico, a enumeração incansável de pessoas, lugares e fatos e a reconstituição do passado pela memória individual (biográfica) e coletiva (histórica).

Na 1a. parte do poema, temos a chegada dos meninos à Praia com suas “almas ávidas das luzes da cidade” (p. 18), o duro aprendizado na urbe, a solidão, a iniciação sexual até o amadurecimento da consciência política e do momento histórico em que viviam, “da multidão libertando os medos seculares” (p. 49). Na 2a. parte, reduz-se a saga dos meninos e enfatiza-se a luta pela libertação em Cabo Verde e Guiné ao recorrer aos participantes do PAIGC, aos anônimos contrários ao colonialismo e aos presos políticos, assim como os combates pela África e a mobilização pela diáspora. Pertinente e bela a participação descrita dos “poetas pastores da noite” (p. 61), “versados na arte poética de intervenção social (...) dotados na ciência da revolta e do inconformismo (...) da palavra contestatária detonadora de ânimos novos” (p. 58).

Este “Praianas” consagra a maturidade poética de José Luis Hopffer C. Almada, seu apuro estético e formal, a incessante e incansável lapidação da palavra. Através da revisitação constante ao passado e valendo-se da sensibilidade à flor da pele na recriação literária, Hopffer Almada presta sua contribuição ao reencenar em uma tessitura poética comovente a história e a cultura de Cabo Verde.

2 comentários:

Denise Guerra disse...

Olá meu amigo tradutor dos sentimentos e dos sentidos dos verbos caboverdeanos. Parabéns pela elegância com que você discorre sobre os escritores e poetas de Cabo Verde! Seu trabalho está um primor, digno de quem investe em sutileza, arte e qualidade! Warethwa! Bjs!

Ricardo Riso disse...

Olá, Denise! Obrigado pelos elogios... procuro aprender cada vez mais.
beijos!!!