quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jornal A Nação (Cabo Verde) n. 120 - 17/12/2009 - coluna Ricardo Riso




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Abraços,
Ricardo Riso


Passaportes de Abraão Vicente renovam tema caro à literatura: a emigração


Ricardo Riso


A insularidade de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago ou a situações políticas, como o colonialismo português e as desigualdades econômicas que a independência não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar é parte da cultura de Cabo Verde.

A evasão e a emigração são disseminadas na literatura. A geração da Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade, foi acusada de evasiva por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos havia o sentimento nacional independente a Portugal a partir da evasão e do sonho, como no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal / por esse orgulho que tu trazes; / porque este ar de triunfo iluminado / com que voltas...(...)
...Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conheceste... (...)
que nunca viram teus olhos / no mundo que percorreste...

Nos anos 1940, a revista Certeza (1944) explicita o absurdo do colonialismo. Nos 1960, as guerras coloniais levariam à independência.



A crescente revolta e a nova relação com o mar são retratadas por Ovídio Martins em “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos / desesperadamente estendemos as mãos / por sobre o mar
As ondas não são muros / são laços / de sargaços / que servirão de leite / à grande madrugada (...)

Após a independência, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marca a ruptura da literatura com os dilemas do ilhéu. No prefácio, José Luís Hopffer Almada afirma que:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário (...) No deserto, cresce a geração mirabílica (...) Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. (...) Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

Nessa linha, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em “Revolução-evolução”:

Viola a tua tradição / enterra a tua paranóia marítima secular / renega a tua estreita visão interior
E busca / novas formas / novas artes / novos engenhos / nova mente
De / cortar as amarras da estagnação / engravidar a terra de novo sangue / estabelecer nova aliança com o mar

A emigração hoje

É notório o elevado número de emigrantes cabo-verdianos pelo mundo. Porém a xenofobia dificulta o deslocamento de estrangeiros, que se arriscam em embarcações precárias.

Por outro lado, Cabo Verde recebe barcos ilegais africanos impedidos de chegar à Europa, o que gera transtornos ao país, sem estrutura para abrigá-los.

Essa situação denuncia o fracasso do neoliberalismo, em que países do 1o. mundo ignoram a situação caótica da África, em boa parte causada pelas pressões econômicas externas.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Vicente é autor do blog - http://abraaovicenti.blogspot.com -, com diversas séries expostas que surpreendem pela variedade das técnicas. Diversidade que demonstra segurança, conhecimento e ousadia.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes, objeto de desejo do cabo-verdiano, e cria inquietantes obras. Mas, atento ao momento adverso, recorre a um verso dos Rolling Stones: you can’t always get what you want.

Ao despedaçar o passaporte com pinceladas agressivas, figuras fragmentadas e textos caóticos, Vicente denuncia o desespero de quem quer emigrar. Desfigurando-o, mostra, pela impessoalidade das figuras despedaçadas, o cidadão comum que quer sair para um futuro incerto. O dilaceramento do documento, metáfora da dificuldade de alcançar o sonho, a saída do país.

Inquietação e multiplicidade na escolha dos meios deslocam o observador da passividade da contemplação. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões do seu tempo ao renovar e não se omitir em denunciar as novas vertentes de um tema que atravessa a literatura cabo-verdiana: a emigração.

2 comentários:

Denise Guerra disse...

Caro amigo Riso, parabéns pela brilhante exposição deste caso pouco comum à nossa volta. É verdade que já tivemos dias piores no Brasil e que houve situações semelhantes apesar de motivos outros. No caso de nosso país temos meios fartos de ganhar a vida e não temos esta vivência contínua de brigar com a natureza de nossas terras. Fico a imaginar que sentimento conflituoso é este que vivem os caboverdeanos. Na Argentina tem até uma Associação Cultural Caboverdeana estabelecida e estruturada há bastante. Oxalá que o tempo mude para melhor nas terras e na política de Cabo Verde. Muito legal sua posição de ponte marítima entre Cabo Verde e Brasil. Bjs! Axé!

Ricardo Riso disse...

Muito obrigado, Denise!
É supreendente, pelo menos para mim, a relação dos cabo-verdianos com a emigração. Só de saber que praticamente o mesmo número de habitantes das ilhas encontra-se espalhado pelo mundo é algo que impressiona.
Obrigadão! Um grande abraço e bjs!!
Ricardo