segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jornal A Nação 124 - 13/01/2010 - "A fortuna dos dias" de José Vicente Lopes, por Ricardo Riso





José Vicente Lopes – A Fortuna dos Dias

Por Ricardo Riso
José Vicente Lopes (JVL), natural da Ilha de São Vicente (1959), reúne pela primeira vez contos dispersos em publicações como as revistas “Ponto & Vírgula” e “Fragmentos” e na antologia Tchuba na Desert (2006). Agora, esses contos estão ao lado de alguns inéditos para compor as 18 narrativas de “A Fortuna dos Dias” (Praia: Spleen Edições 2007).

Diante de um quadro de incertezas e irrealizações deparamo-nos com narrativas que apresentam intensa ironia perante os acontecimentos do cotidiano do ilhéu, permeados por recursos do fantástico ao relatar a caótica, e, por vezes, surreal situação do país.

Os protagonistas são pessoas comuns que não se adaptam à “ordem” estabelecida como em “O buraco”, que narra o misterioso aumento de um buraco na rua de Cleofas Miranda. Saudoso dos tempos coloniais, ele “observou por alguns minutos o buraco, indignado com o descaso das autoridades competentes. ‘Por isso é que esta terra não vai para frente’, (...) ‘Eu sabia que a independência havia de dar nisto’”. (p. 117) E conclui que o buraco “continuava a afundar e a alargar-se, mas não encontrava nenhuma explicação lógica para aquilo” (p.120). O que poderia ser uma metáfora pessimista do futuro de Cabo Verde.

Elementos da oralidade auxiliam o fantástico no conto “Ribeira de Deus”: “e para provar o que estou a dizer, vou contar-vos esta história. (...) de modo que quem me quiser ouvir que ouça (...). Vejam este braço: mesmo depois de tantos anos, só de lembrar, ainda me arrepio todo.” (p. 104).

Em “A convenção”, um encontro com representantes da diáspora não apresenta soluções objetivas e mostra a ganância dos participantes: “Era a hora de as autoridades d’Azilhas reconhecerem de uma vez por todas, a importância que a Décima-Primeira Ilha tem na vida do país, isentando-os de certas taxas aduaneiras para suas importações ou conferindo-lhes certos direitos políticos.” (p. 130-133)

Em “A barragem”, um simples cidadão narra em carta a construção de uma barragem prometida há tempos, reafirmada com a independência: “também era para valer quando os moços do PAIGC apareceram aqui logo depois do 25 de abril e nos prometeram a barragem se aceitássemos a Independência” (p. 139). O uso eleitoral da obra: “Andam por aí a dizer que desta vez nem vai ser preciso fraude” (p. 144); o desperdício e a desesperança revelam-se: “Mas agora que a barragem está pronta, (...) se não houver chuva, qual vai ser a serventia da barragem? Afinal, há quantos anos não cai nesta terra uma pinga decente que seja de chuva? (...) e aí não haverá barragem nenhuma neste mundo capaz de conter a força da nossa desilusão.” (p. 145)

A solidão do homem contemporâneo e a manipulação de um passado histórico glorioso marcam o insólito em “A cidade e o ídolo”. O protagonista torna-se herói, mas não se revela o por quê: “Pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer, nem o que você é ou deixa de ser... O que importa é o que as pessoas julgam o que aconteceu ou o que pensam quem você é” (p. 30). Forja-se uma biografia “para posterior compilação das suas Obras Completas” (p. 31-32). Todavia, após fugir para o estrangeiro e retornar anos depois, o herói se surpreende por não ser reconhecido e passa a ser tratado como louco. Metáfora de um mundo de imagens que manipula as pessoas ao seu bel prazer.

JVL beira o sarcasmo ao citar aspectos culturais do país. Lê-se em “Morabeza” que um navio encalhado “foi inteiramente pilhado” pela “população – como sabeis amável, hospitaleira e generosa” (p. 89).

Ao utilizar elementos do fantástico em suas narrativas, como as epígrafes que são alegorias dos contos, o uso criativo da oralidade e os diálogos constantes do narrador com o leitor, José Vicente Lopes faz críticas contundentes ao desarranjo por que passa Cabo Verde, assim como revela a solidão e a amargura do homem contemporâneo. “A Fortuna dos Dias” é uma grande contribuição para a evolução da prosa caboverdeana, elevando ao clássico o conto “O sonho do senhor JB”.

2 comentários:

Denise Guerra disse...

Oi Cidadão Caboverdeano Ricardo Riso, Tudo bem? Nossa que passeio literário denso! Deve ser pela força do insólito. Parabéns pelo trabalho! Bjs!

Ricardo Riso disse...

Olá, amiga Denise!! Muito obrigado!
As narrativas do Lopes são firmes em suas críticas ao momento de Cabo Verde e ele utiliza muito bem o insólito para demonstrar o absurdo de alguns desmandos políticos.
É um ótimo livro de contos. Leitura fácil, ainda assim densa, e prazerosa. Poderia ser publicado aqui no Brasil.
bjs!!