sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Lande Onawale e a necessária quilombola utopia literária

Eles ficam se perguntando
Como posso me fazer bonito
Com tudo aquilo que acham feio
(Onawale, Lande. Black Power. p. 51)

Por Ricardo Riso
Nascido a 14/04/1965 na cidade de Salvador, Bahia, professor de História formado pela UFBA, Lande Onawale reuniu pela primeira vez poemas dispersos em seu livro “O Vento” (2003). Funcionário público, ativista do movimento negro, iniciado no candomblé, Reinaldo Santana Sampaio (seu nome de batismo) participou de várias edições dos “Cadernos Negros”, além de poemas e textos em prosa em diversas publicações, dentre as quais destaca-se “Terra de Palavras” organizada por Fernanda Felisberto.

A epígrafe com os versos iniciais do poema “Black Power” demonstra o engajamento à causa negra inserido na sua produção literária. Subverter o discurso estabelecido, romper os estereótipos impostos, elevar a autoestima e reconstruir de forma positiva a imagem de nós, negros, são alguns dos aspectos abordados por Onawale nos poemas de “O Vento”.

Ao atravessar as páginas do livro somos tomados por um vendaval de imagens acerca do cotidiano opressor que nos aflige. As imagens propostas pelo sujeito lírico fazem-nos recordar o quanto ainda são válidas para as relações étnico-raciais brasileiras as premissas do Movimento da Consciência Negra sul-africano, liderado por Steve Biko. Para aquele movimento o fundamental era mudar a mentalidade do negro, pois seria impossível mudar a sociedade enquanto o negro não mudasse a sua forma de pensar, submetendo-se às armadilhas de inferioridade declamadas pelo discurso dominante.

A ressignificação de valor e a consciência de afirmar-se negro em “Black Power” poderá causar espanto e surpresa àqueles que não visualizam a possibilidade de beleza de uma pessoa negra, exatamente por não seguir os modelos predominantes nos meios de comunicação (na literatura brasileira, inclusive), que são motivadores da nossa invisibilidade, reforçados por uma intensa propaganda e pelo racismo oriundo do tempo escravocrata.

Por ter a real dimensão da inferioridade sofrida desde que nossos antepassados negros foram forçados a vir para o continente americano, o sujeito lírico sente-se fortalecido para recorrer a eles, que jamais aceitaram a violência do senhor branco e do regime escravista. Apesar de apagados pela história oficial, jamais adormeceu em nós o combate à situação desigual imposta, e esse passado é rememorado no poema: “a nossa força é indescritível brother // emerge dos séculos / de luta por liberdade” (p. 51).

A valorização das raízes afro-descendentes manifesta-se no belo poema “Capoeira Angola”, que “faz do banzo só saudade” (p. 54). Apreendemos a criatividade de Lande no uso do banzo, a doença que vitimava os escravos forçados a fazer a travessia do Atlântico, ao reconfigurar os sentidos para “traçar / as rotas impossíveis da sobrevivência” (p. 53) e assim estimular seus irmãos de cor a “encarar a roda-vida todo dia” (p. 54).

A recordação constante dos aspectos culturais trazidos por nossos antepassados e a esfuziante celebração do que aqui ficou como forma de resistência, “... e não houve atlântico que apagasse tais pegadas...” (p. 59), são cantados pelo sujeito lírico a convocar e a incentivar o leitor para que juntos “ecoemos quilombolas utopias” (p. 47). Ao mencionar o sonho de liberdade dos quilombos, os versos de Onawale buscam mudanças, novos caminhos para diminuir as desigualdades étnico-raciais persistentes em nosso país, por isso o sujeito lírico faz da sua voz a nossa voz e afirma que “é hora de outras partilhas”. Pela equidade social, esperançoso, visualiza um novo futuro de harmonia que pretende ser assumido pela pluralidade racial brasileira para finalmente atingir a tão decantada e ainda não realizada democracia racial: “é tempo de outros papéis / e – por que não? – de anéis...” (p. 52).

Entretanto, nem sempre o sujeito lírico pode atuar de maneira conciliatória, às vezes precisa ser incisivo diante das ardilosas facetas do racismo à brasileira e é necessário desestabilizar a calmaria vigente: “há em mim veias que anseiam / os incontáveis caminhos da existência / há em mim uma memória / que vem lamber ou devastar / as praias rasas do presente” (p. 60). Por isso é fundamental expor os problemas que nos atingem. Por isso é essencial que a voz do sujeito lírico se torne a voz reveladora nas mentes submissas dos nossos pares, que aceitam o discurso dominante e não enxergam a perversidade de nossas relações sociais. Ou seja, o sujeito lírico propõe uma voz para mostrar novos caminhos, para fazer da persistência a força por um discurso justo contra as atrocidades cometidas por séculos de opressão: “que de tanto nadar contra a corrente / acabou por fazer a correnteza” (p. 63).

No poema “Canarinhas da Vila” encontramos a denúncia do repugnante e corriqueiro tema da violência policial sobre nós, negros. Desde o fim da abolição da escravatura que somos perseguidos e somos objetos constantes de desconfiança dos órgãos de segurança. Nossa juventude é sumariamente assassinada pela polícia, principalmente nas áreas periféricas das grandes cidades. O verdadeiro “genocídio da negra gente” (p. 45) não é tratado como uma manifestação clara de racismo, pois, de acordo com o senso comum, o elevado índice de mortos entre nós se dá por uma mera coincidência de ser a maioria populacional em zonas carentes, pelo elevado índice de desempregados e por possuirmos baixa escolaridade. Por tudo isso é quase natural o assassinato ininterrupto de nossa gente, e ficamos indefesos perante uma justiça que não nos protege, fato comprovado pelo questionamento desesperado, porém consciente, do sujeito lírico: “o que pode a letra morta / da lei, da constituição / contra este costume brasileiro / de matar negros como moscas?” (p. 44).

Apesar de toda a militância em prol do negro, os poemas de Lande Onawale ganham nosso interesse ao abordar o afeto à mulher negra. Sabemos que a questão do afeto para nossos irmãos de cor é extremamente complicada diante de tanto dilaceramento do corpo por séculos de escravidão. Opressão maior sofrida pelas mulheres, forçadas a conviverem com os repetidos estupros dos senhores brancos. Algo que é sempre bom recordarmos: a miscigenação no Brasil foi iniciada sob o signo da violência do colonizador branco. Em razão disso, é com prazer que se faz a leitura de um poema singelo e recheado de musicalidade como “Preta Preta”: “preta / minha preta / preta mesmo / preta, preta // preta / dentro preta / preta fora / toda preta // preta / ontem preta / hoje preta / sempre preta // ah! preta / preta, preta / preta, preta / preta, preta” (p. 25).

Como nós negros não incorporamos o padrão idealizado de beleza nacional, aqui excluindo as “mulatas” e toda a carga pejorativa inserida, por conseguinte, manifestações de afeto entre casais negros são associadas a algo sujo, provocador e/ou devasso. Daí a pertinência e a provocação inerente ao epigrama, que tenta recompor os estilhaços da autoestima fragmentada de nossa gente: “reaja à violência racial / beije sua preta em praça pública” (p. 43).

Assim é a palavra poética de Lande Onawale, palavra que denuncia a maldade das relações étnico-raciais, que procura se desvencilhar das amarras da linguagem dominante apresentando novos paradigmas, invertendo falas, questionando a hipocrisia. Palavra fortalecida pelas lutas dos nossos antepassados, palavra elaborada com esmero a acompanhar a grande diversidade formal e estética do seu fazer poético.

Em seus poemas encontramos mensagens que procuram tocar as mentes reprimidas de seus pares, desnudando os males do preconceito racial em nossa sociedade. “O Vento” de Lande Onawale mostra que sua poesia vai além das páginas do livro, toca nos corações e apresenta novos horizontes para quem os lê. É literatura necessária, é literatura negra que nos orgulha e enobrece nossas almas.

“disperso-me por aí / feito brisa / depois / me rejunto e chego como ventania / varro a casa / derrubo coisas / safadamente / devasso a monotonia (...)” (p. 75)

24 de fevereiro de 2010

4 comentários:

Denise Guerra disse...

Caramba já virei fã deste Lande, preciso comprar seus livros. Muito bom, visceral, certeiro! Adorei! Bjs!

Ricardo Riso disse...

Pois é, Denise!
Lande Onawale é um excelente poeta.
bjs!!!

Nguimba Ngola disse...

Dessa banda do atlântico (Luanda-Angola), minha mente fez vertiginosas viagens em caravelas de lutas. Abracei um preto esfacelado, e Lande Onawale veio poético revolucionar a mente do brother.

"Curti" p´ra valer este post, o Lande e o blog do Riso que fiz dele um caminho habitual.

Ricardo Riso disse...

Olá, Nguimba Ngola!
Obrigado pelo belo comentário!
E assim vamos transformando o Atlântico em um corrégo a ser atravessado por uma passada.
Volte sempre!
Grande abraço,
Ricardo Riso