quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

João Tala – A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (resenha)


Por Ricardo Riso

Possuidor de uma poesia marcada pelas imagens insólitas, virulentas e surpreendentes, de um labor estético-poético acurado e inovador na desarticulação da sintaxe e na ampliação semântica no decorrer dos versos impactantes, prenhe ressignificador dos sentidos em sinestésicas metáforas surrealizantes de poemas que recusam os superficiais e acomodados caminhos da fácil compreensão. Uma poesia que desestrutura, por isso causa admiração, torna sua leitura prazerosa e reveladora dos rumos seguidos pelo sujeito poético. Assim é a poesia para quem procura lapidar a palavra poética com esmero. Assim é a poesia de João Tala.

Este jovem escritor nasceu em Malanje, Angola, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda.

Representante da geração dos anos 1990, Tala logo obteve admiração no meio literário angolano com o seu primeiro livro, “A forma dos desejos” (1997), merecedor do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos daquele ano. O arrebatamento de sua obra inicial fez com que José Luis Mendonça declarasse: “"A forma dos desejos", veio impor novas exigências à mesa de leitura em relação aos novos autores. Uma das exigências será o critério de qualidade estético-literário. Para o referido poeta, esse livro, possui todos os ingredientes que compõem a obra verdadeiramente literária: a ousadia da mensagem, a imagética surrealista e vanguardista que procura superar o já criado, ou pelo menos, ser diferente trazendo algo de novo, a elaboração conceptual dentro dum diversificado figurino”. (1)

Tamanha empolgação que poderia ter sido contaminada pela precipitação, foi consolidada no livro seguinte, “O gosto da semente”, recebedor da menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000. O poeta João Maimona considera João Tala "como uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho. Faz parte da comunidade de jovens autores que, no limiar da década de 80, procuravam, com rigor, pesquisa e talento, seleccionar, agrupar e combinar palavras que pudessem servir a arte através da literatura. Uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho". (2)

A partir daí, referendado pelas elogiosas críticas, cada lançamento de Tala passou a ser aguardado com intensa expectativa. Assim o foi com “A forma dos desejos II” (2003), “Lugar Assim” (2004 – já recenseado neste blog) (3) e com “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (2005), que será o objeto deste texto. Além das muito bem sucedidas incursões na prosa, tendo publicado dois livros de contos: “Os dias e os tumultos” (2005) e “Surreambulando” (2007). Todos os livros sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, exceto “O gasto da semente”, editado pela INIC.

A partir do livro “O som e a fúria” de William Faulkner, João Tala utilizou um excerto como epígrafe de onde extraiu o título do seu livro: “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos”. A desesperança do título remete-nos ao triste período crepuscular dominante durante a guerra civil angolana, encerrada em 2002, e posterior à longa noite colonial terminada com a conquista da independência em 1975. Portanto, as feridas profundas da guerra findada recentemente ainda não estão cicatrizadas, os estilhaços deixados na sociedade e na memória do sujeito poético procuram ser reconstituídos pelo Verbo, a força maior para suportar e tentar reconfigurar os sentidos do ser e, por conseguinte, do coletivo e do país.

Este poemário está dividido em três cadernos, o primeiro caderno “Caminhos, Abismos e Trincheiras” apresenta imagens corrosivas de um sujeito poético dilacerado pelas cruéis lembranças do passado recente de Angola:

Está aqui a nossa vitória
está o medo que nos protege. (...)

Estávamos escondidos quando os tambores
anunciaram a folha desprendida da morte.
Saímos do próprio imaginário em busca da terra.
Logo à chegada replantámos os suspiros
e cada dia seria menos uma pátria entrincheirada
cada dia é um homem vivo.
Há-de ter o húmus a humidade carnal
do grito em nossos ventres. (TALA, p. 11)

Apesar de viver tempos de paz, a proximidade temporal expõe as feridas ainda abertas na memória individual e coletiva. O exercício poético passa a auxiliar a reconstrução do sujeito e do próprio país ao não deixar que as absurdas marcas do passado se percam no esquecimento. É a poesia na sua vocação natural de vanguarda, rebatendo a história oficial com a força do Verbo:

O meu caminho é mesmo este que a tropa
incendiou;
é um esquecimento afastado dos ouvidos
como encontrei o passado negado pela vida.
o meu caminho é a história amendrontada
os passos que explicam explosões (...)

o meu caminho vai e vem, lá chegarei
mesmo de muletas
cantando o esquecimento desconstruindo
a história
como um cobarde vivo no meio de tanta
raiva. (TALA, p. 16)

A necessária preocupação em denunciar as mazelas impostas e as ilusões transmitidas ao povo angolano são tratadas com rispidez pelo sujeito poético, que busca combater o desencanto, a desorientação e a memória fragmentada de seus pares:

Em fuga o povo reúne os seus passos e caminha
para os lugares perpétuos.
Mas o caminho são as perguntas: é para que vamos. (...)
Os nossos passos encontraram um edifício erguido
nos comícios. Um lugar de mentiras.
Os nossos corpos palpitavam ainda os números do
salário: pagavam-nos para sofrer.
E os mais breves algarismos da memória
quem ainda os acha, quem? (...) (TALA, p. 13)

A desordem dos sentidos do sujeito poético inspira o uso extremo da sinestesia – “o paladar abandonado / em mãos vazias cheias de luzes / com a vida encolhida num / suspiro” (TALA, p. 23) – para retratar o caos dos tempos idos de tumultos, que permanecerão intocados na memória coletiva, infelizmente.

Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos. (TALA, p. 27)

A insensibilidade da guerra e o desprezo à vida humana fazem do caos a ordem estabelecida, o estado de topor do sujeito poético assemelha-se ao do país: “um homem sem nada / um país em chamas nos meus / nervos” (TALA, p. 23). A insensatez prevalece, justifica-se o impossível e ceifa-se vidas de maneira indiscriminada, o que é repudiado pelo sujeito poético: “porque o terror tem de ‘libertar’ os homens, dizem, / vejam lá o que é isto!” (TALA, p. 27). Em uma época que “a palavra humana era um gemido”, o desgaste com a vida e com o caminho tortuoso do país revela-se:

estou indignado com a guerra das palavras;
estou alucinado com os versos do pouco;
estou de febre cerebralmente distante.
disseram que as palavras são antigas promessas
e não é correcto ouvir o que a morte diz de novo;
eu canto a fadiga canto pequenas coisas
porque estou distante e as coisas estão mudas. (TALA, p. 19)

No caderno seguinte, “Neste lugar nocturno dormem as mulheres”, explora-se o erotismo e o fazer poético entremeados pela amargura do tempo vivenciado, “porque tudo envelheceu. / Envelheceram as mãos injustiçadas e / a forma das paixões” (TALA, p. 40).

Valendo-se de várias referências bíblicas, o sujeito poético busca recompor o que ficou pelos caminhos em “O paraíso nós o perdemos em busca do corpo”:

Dos teus medos desliza a serpente nativa (...)
e o seu rasto cega-nos.

Neste pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava. (...)

Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.

O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa. (TALA, p. 41)

A desorganização de anos de esfacelamento e caos transfere-se para os versos que cantam o corpo em orgiástico delírio da palavra:

quem desarruma o meu ritmo em teu corpo?
quem dessa revolução obstétrica
retira os sentimentos da palavra estética
e da palavra terapêutica reutiliza a
frase encorpada d(o) amor evoluído? quem? (TALA, p. 51)

O derradeiro caderno deste inquietante livro mostra o comprometimento do sujeito poético com o continente africano e demonstra seu desconforto com os séculos de expropriação das riquezas feito pelos europeus: “mas da negação da negação / o velho cede ao novo o espaço gasto / de palavras européias / com que um homem desenraizado / nomeia a morte da África” (TALA, p. 57).

A travessia por vezes corrosiva dos viscerais poemas de “A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos” irrompe imagens violentas aos olhos do leitor, que revelam um poeta maduro em sua tessitura textual. A subversão criativa da linguagem procura recompor os escombros, apontar uma trilha para reconstrução individual e coletiva, busca através da palavra poética exorcizar os traumas psicológicos e recomeçar um novo caminho para a tão atribulada história do país. Este livro de João Tala confirma a diversidade estética da poesia contemporânea angolana, sendo um marco na produção literária do pós-guerra, quiçá, na história literária angolana.

recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões. (TALA, p. 20)
 
 
TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.
 
NOTAS
1 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.
2 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.

2 comentários:

Rosanas disse...

Benzinho,
este ficou realmente muito, muito, muito bom. Os próximos serão assim né?
beijo
te amo

Ricardo Riso disse...

Continuarei me esforçando, benzinho.
bjs bjs