terça-feira, 30 de outubro de 2007

João Tala: Lugar Assim

João Tala é um representante da novíssima geração de poetas angolanos, tendo publicado seu primeiro livro, A forma dos desejos, ganhador do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos em 1997. Desde então publicou O gosto da semente (2000), que recebeu menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000, A forma dos desejos II (2003), Lugar Assim (2004) e A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (2005).

Nascido em Malanje, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda. Chegou a estudar (ou estuda – não posso afirmar) medicina interna no Brasil.

O primeiro contato que tive com a poesia de João Tala foi na antologia de poesia angolana contemporânea publicada na Revista Poesia Sempre nº 23 (Fundação Biblioteca Nacional) e, posteriormente, em uma aula sobre Literatura Angolana, ministrada pela Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha. Foram dois momentos de encantamento com a força poética do autor. Faltava um contato maior com a obra do poeta, ou seja, um livro. Até que consegui Lugar Assim.

A geração literária de João Tala, nascida no pós-independência angolano, é marcada pela desilusão com os caminhos trilhados pela história recente país. A amargura, a dor e a melancolia são temas constantes entre seus contemporâneos, justificado pelos longos e sangrentos anos de guerra entre o MPLA e a UNITA, somente encontrando a paz em 2002.

Os referidos temas já eram trabalhados pelos escritores angolanos desde os anos 1980, época em que começa a ocorrer um processo de desencanto com a não realização das promessas da revolução. O poeta e crítico literário Luís Kandjimbo define os poetas do período como a geração das incertezas, nome de acordo com as indefinidas trajetórias da política e da situação social de Angola. Alguns nomes relevantes que despontaram à época são os de João Melo, Paula Tavares, José Luís Mendonça, Lopito Feijoó, Conceição Cristóvão, entre outros. Tais poetas apresentam novas formulações temáticas e estéticas, aprofundando o caminho iniciado pelos três principais nomes do lirismo angolano dos anos 1970, Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho.

Nos anos 1980 cresce a heterogeneidade da poesia angolana. Segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

“A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais.” (CHAVES, 2006, P. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Em Lugar Assim, a distopia angolana é tratada em poemas que fazem da metalinguagem a sua principal fonte para combater o dilaceramento social e os sonhos esgarçados do país. Sobre João Tala, Tindó Secco comenta que “a crença no gume das palavras e na raiz da própria poesia transferiu os sonhos para o universo dos poemas, o que fez com que a literatura e as artes em geral se tivessem constituído em locais privilegiados de resistência”. (Idem, ibidem, p. 99)

Os poemas do pequeno livro são divididos em três partes: Economia, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, e Remendos da Memória, que, de certa maneira, ligam-se entre si pelas referências à palavra, a inspiração para os diversos assuntos versados pelo eu-lírico, como o desejo por palavras sem as cicatrizes causadas pelo horror da guerra:

Os dias fundam breves caminhos sobre as palavras.

Não reclamo palavras economizadas,
a grande fortuna, não.

(Nem uma imagem profunda nem
um abismo em nós.)

Não reclamo palavras estafadas ou
mesmo ressentidas, marcadas de novas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[cicatrizes, não
Apenas reclamo palavras de redenção
guardadas entre as revoltas.
(Lugar Assim, p. 11)

O problema dos deslocados de guerra, que eram povos do interior obrigados a abandonar suas cidades, é denunciado no poema:

“(...) A certeza da incerteza é um desvio demográfico,
Imaginação metódica duma população aos pulos.
Brevemente, num só começo, somos possíveis celeiros
- corpos duma geometria fugaz onde medra o grão.”
(Ibidem, p. 12)

Em Economia, os poemas são metonímias daquilo que não há, da ausência que paira na atmosfera social angolana. A revolta com o esfacelamento do país é apresentado na dificuldade em revelar o que é visto:

“o mínimo que posso pronunciar é uma palavra pontilhada,
um grão. talvez uma pupila que ninguém abriu.
sedentos de enigmas configura-me rosto de estio, esta secura
ajusta-se às minhas palavras através desta face enchida de
olhos veementes em sinal de fogo. o fogo posto na carne.”
(Idem, p. 13)

O eu-lírico indigna-se com a realidade vivenciada pelo oprimido, toma partido e faz do poema espaço de resistência contra a opressão, em rabiscos (gatafunhos) desmascara o silêncio:

“Demasiado o verso fulcral em bocas de traumatizados
são lágrimas devotas o diálogo sem pão;
volto aos problemas, puxo a língua do oprimido e
com a caneta verbal o debate repousa
nos seus enormes olhos tempestuosos, achados na
política geral de meus gatafunhos. – A gíria das bocas
em rebelião.”
(Idem, p. 14)

Nos poemas da segunda parte, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, a metalinguagem aprofunda-se. O ato de escrever torna-se o espaço libertador, o eu-lírico convoca o leitor para fazer poesia. Poesia como alento em “a vida é um vício lírico”:

“Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.”
(Idem, p. 24)

A desilusão e a amargura com o quadro político angolano são demonstrados nos versos de “muitas palavras”. O dilaceramento dos ideais causado pelo desencanto com as promessas políticas é o alimento para a distopia:

“As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.”
(Idem, p. 29)

O esfacelamento da dignidade da palavra é de extrema gravidade em culturas que possuem sua transmissão de conhecimento pela oralidade, a descrença na palavra foi o que fizeram os governantes e seus opositores em Angola no pós-independência motivados por fatores da Guerra Fria e posteriormente pelo neoliberalismo, e fraturaram ainda mais as tradições das etnias angolanas.

Na poesia de João Tala a palavra e o corpo estão em processo constante de metamorfose, num delírio surrealizante na confecção do poema que acompanha as realizações do cotidiano do poeta, suas angústias apresentadas em mãos textuais:

“É uma ortografia tangível memória habitável
os seus passos de líricas;
é de palavras assim que assino o homem;
enche o tempo e os cadernos do tempo;
de alma em barro confecciona pequenos dias
de longas líricas, o meu poeta.
Quem o escuta?
Cabe na minha ortografia como a saudade da
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[palavra;
É um pequeno deus de coisas líricas.
De palavras assim o homem explode a
roda ortográfica tangível – alma da gente;
ou como entendia a notícia de mãos textuais
no corpo da palavra.”
(Idem, p. 30)

Os versos de Remendos da Memória buscam recompor as tradições devastadas. Os sonhos esgarçados por séculos de colonização e guerras e tentam se reagrupar no poema, que canta o fim de um longo período sombrio de feridas cicatrizadas na memória. Para tanto, deve-se recorrer aos valores tradicionais, ao velho tambor (ngoma) e, assim, recomeçar a sonhar com a paz recentemente conquistada:

“Ah! ficaram apenas os túmulos como cicatrizes do olhar.
em que país os olhos são apenas cicatrizes?
não direi nada a humanidade despede-se dos túmulos
os soldados dizem não à guerra por direito próprio.
o meu ngoma sucumbe pela noite pálida o meu Ngoma
é o único instrumento vegetal que realiza o sonho.”
(Idem, p. 39)

Para concluir, percebemos que os poemas de Lugar Assim apresentam a falta de perspectiva com a realidade social de Angola, todavia, João Tala, apesar do amargo de boa parte do livro, ainda assim escreve versos que valorizam a linguagem poética como espaço de resistência da utopia. Com isso, ele segue a tradição lírica angolana de crer em um futuro próspero e justo para um país em construção.

Riso


Outros poemas de Lugar Assim

ONDE ESTÁ O MEU POEMA?

estão aonde os versos da morte, lágrimas do
meu tempo?
eu não sei nem os redigi do pão, da água ou da
mentira.
porque o meu poema cumpre-se a si, é um
corpo fatigado,
temor das esperas.
uma simples conversa não me leva a nada.
o meu poema também é tempo, calor de
gemidos,
musa de línguas ao sol, sons ao faro. lábios
suados.
o meu poema, é assim a rosa palavra de um
rosário.
(Idem, p. 22)


CONSTRUÇÃO DE IDEIAS

Na várzea do texto imploro fundamentos
dum corpo a encher o tempo.
É uma lei como edifício no tempo.
Como entender a notícia de mãos textuais
no meu temperamento?
O rebento dessa notícia é uma crónica
edificada com as mãos no texto.
O benefício será sentir de pensamentos
e outra várzea a tactear bocas do mundo.
Bocas somente no dorso das mãos construtivas.
Com mãos assim toca a encher o Tempo.
(Lugar Assim, p. 26)


O ROSTO IDO(OSO)

Não mais prometo o rosto sem paisagem.
Quero sorrir-me dentro de ti.
E da prevalência de um mundo de dias guardados
o crepúsculo dos sentidos enrugado como
a voz que de súbito é uma caverna;
como o coração de súbito é uma campainha.
(Idem, p. 37)


RIOS DE NÓS

(estes rios fogem de dentro de nós e fora são
promessas de volta ao tempo.
sem passado, eles dirigem-se ao futuro.
do presente só um refresco, minha kota,
só mesmo um refresco da mesma água que
nos lava o corpo; da mesma água que nutre os pastos.)
(Idem, p. 41)


O DAVID MESTRE, RECONHECIDAMENTE

Foste de memória mais longe do que fará a morte.
Grande poeta! Grande pensamento. Sobre o teu
continente múltiplo marcavas o rosto da palavra.
Era esta a fortuna de palavras e ressaibos quando
as mãos fragmentavam o próprio suspiro/estilo?
Assim concluías a jornada: limpo mudo severo.
Qualquer poema traz-te da semente de volta ao chão;
por isso, David, vou já levantar-te do primeiro tambor.
(Idem, p. 45)


LUGAR ASSIM
(para o José Luís Mendonça)

Dizei-me a fúria dessa áfrica que é uma Árvore.
Tempera a voz negra dizei-me um lugar assim.
Na balbúrdia de uanga a palavra respirar.
E onde pensar estrelas a Noite que me acoite.
Dizei-me a Árvore, um ébano me faz igual.
E chegadinho ao crepúsculo só a cor das queimadas.
E a luzir os dedos, as mãos acenam vazias, caricatas.
Como poderei tocar palavras respiradas.
África orgásmica, existe mesmo lugar assim?
(Ibidem, p. 48)



Bibliografia:

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.

2 comentários:

Sara Adriana disse...

Precioso, Riso...
Creio profundamente que João Tala sentiu-se lisongeado ao ver seu comentário crítico e encantador sobre sua obra. Ao ler tudo que escrevera percebo nitidamente o domínio da letra, quanta criatividade e leveza!
Tu és dotado de muita sensibilidade e as palavras fluem de ti com muita criatividade, aliás, isto é o que mais amo em ti.
Maravilhada estou em ter um amigo como tu: nobre, encantador, sensível, inteligentíssimo e ousado. És um grande "escritor".
Um beijo com muita admiração e carinho.

Ricardo Riso disse...

Muitíssimo obrigado pelas suas palavras, Sara! Será que foram mesmo para mim?!?! ahahaha!!! Você é uma pessoa adorável!!1 Um grande abraço, risos e bjs!!!
Riso