terça-feira, 16 de outubro de 2007

Roberto Bolaño: Noturno no Chile

Em 2005, conversando sobre escritores latino-americanos contemporâneos, o saudoso colega do curso de Letras, Luis Menezes, mencionou o nome de Roberto Bolaño. Chileno, nascido em 1953, foi preso pelo governo ditatorial de Pinochet em 1973, sendo solto em seguida. Instalou-se no México, fundou o movimento de vanguarda literária Infra-Realismo, depois estabilizou-se em Barcelona, Espanha, onde morreu aos 50 anos no ano de 2003. Bolaño foi dono de uma escrita densa e visceral, ou literatura visceral-realista como é conhecido o estilo de escritores latinos pós-anos 70, que possui uma linha tênue entre ficção e realidade.

Confesso que guardei o nome mais pelo inusitado da forma do romance comentado à época, que tinha sido escrito em dois parágrafos, sendo que o segundo tinha apenas uma linha. Passado o tempo, decidi comprar neste mês o referido livro, Noturno no Chile. O romance é de tirar o fôlego. É um monólogo em que o narrador, Sebastián Urrutia Lacroix, padre e crítico literário, rememora de forma incessante etapas da sua vida à beira da morte. Amante da literatura, o padre Sebastián refaz sua trajetória inserindo algumas figuras marcantes da história recente do Chile, como o escritor Pablo Neruda e o ditador Augusto Pinochet.

Padre Sebastián conta o seu envolvimento com o meio literário chileno através da amizade com o imaginário crítico literário Farewell, posto como o maior crítico do Chile. A partir daí, passa a conviver com os grandes nomes da literatura do país como o supracitado Neruda e outros tantos nomes em acalorados debates na fazenda de Farewell. Cresce como crítico, escreve para jornais, faz seus poemas etc.

Um dia, recebe uma inesperada missão de duas misteriosas personagens, os senhores Odem e Oidó (medo e ódio, respectivamente). Ele fora convocado para visitar igrejas na Europa e estudar a maneira como são conservadas, pois havia necessidade de preservar as igrejas chilenas, algo que não era feito e não se encontrava pessoas especializadas para tal empreitada. O padre parte para a Europa, visita diversas igrejas em diferentes países e percebe que a principal forma de conservação dessas é feita com o uso de falcões para exterminar os pombos, pois “não era a poluição ambiental o maior agente destruidor dos grandes monumentos românicos e góticos, mas a poluição animal, mais concretamente a cagada das pombas”. Uma metáfora da situação política chilena sob a sanguinária ditadura de Pinochet, que massacrava seus opositores.

Missão dada, missão cumprida. Padre Sebastián retorna ao seu país. Allende ganha a eleição. O Chile ferve com as mudanças políticas, o prenúncio do golpe militar e Padre Sebastián tranca-se em sua casa para reler os escritores gregos. A corja de Pinochet bombardeia La Moneda e assume o poder. O narrador silencia-se diante do acontecido e pede apenas paz.

Logo em seguida, ele é novamente procurado pelos srs. Odem e Oidó. Agora para uma missão que necessitaria sigilo absoluto e somente ele seria capaz de cumpri-la. O padre havia sido selecionado para dar aulas sobre marxismo para Pinochet e o alto escalão da ditadura chilena, que desejavam compreender como pensavam os inimigos do regime. Indeciso e temeroso, porém obrigado a aceitar, Padre Sebastián ministra as aulas com frieza, distante de opiniões críticas a favor ou contrárias à ideologia marxista sob o olhar inquisidor dos militares.

Durante o sombrio período do regime ditatorial, o toque de recolher é imposto e os escritores promovem tertúlias literárias que adentram a noite na mansão de María Canalles, escritora medíocre que tenta participar da intelectualidade chilena. Entretanto, posteriormente descobre-se que esta mansão era também usada como local de interrogatório e tortura contra os comunistas. Fato descoberto à época, mas silenciado pelos próprios intelectuais, freqüentadores das reuniões.

É em torno dessa evasão que perpassa todo o romance, de um narrador que está sempre alheio aos acontecimentos políticos e pensa apenas na glória da literatura. É a contradição humana apresentada diante de um regime repugnante que emperrou o país. Algo que gera revolta em mim, porém fica difícil julgar o porquê da omissão de quem vivenciou momentos sinistros e infelizmente tão comuns na história dos países latino-americanos. O que não impede, mas, sim, obriga a leitura de Noturno do Chile, de Roberto Bolaño. Trata-se de ótima literatura.


BOLAÑO, Roberto. Noturno no Chile. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

TRECHO:
“Inclinei a cabeça e fui embora. Enquanto dirigia, de volta para Santiago, pensei nas palavras dela. É assim que se faz literatura no Chile, mas não só no Chile, também na Argentina e no México, na Guatemala e no Uruguai, e na Espanha, na França e na Alemanha, e na verde Inglaterra, e na alegre Itália. Assim se faz literatura. Ou o que nós, para não cair na sarjeta, chamamos literatura.”

4 comentários:

Giuliano Quase disse...

reservei este livro hoje, num sebo. amanhã bem provavelmente eu vá buscá-lo.

abraços.

Ricardo Riso disse...

Oi, Giuliano!
Compraste um ótimo livro!
Torço para que desfrute a escrita corrosiva de Bolaño.
Abraços!

Anônimo disse...

Imperrou o país?????? v. não sabe o que está escrevendo.

Ricardo Riso disse...

Não escrevi o que você afirma, até por que na língua portuguesa não há o vocábulo que escreveu. Por isso, creio que você não sabe ler, muito menos interpretar. Ou interpreta aquilo que lhe é conveniente. Também por isso, anônimo.
Quando uso "emperrou o país" refiro-me ao momento chileno sob uma cruel e sangrenta ditadura que o narrador está alheio aos aoontecimentos do país, que o Anônimo confunde com "imperrou". Pergunto: o que é isto???? Deduzo como desconhecimento da língua portuguesa.
O que o(a) senhor(a) quis dizer???
Leu o meu artigo e não entendeu nada? Leu o romance e não entendeu nada?
Poupe-me, por favor. Já dei destaque excessivo para quem não sabe ler.
Ricardo (o próprio, sem a corvadia do anônimo).