quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Secos & Molhados: Quem tem consciência para ter coragem

Ontem, durante um papo com minha inteligentíssima amiga Norma Lima, comentamos sobre a banda Secos & Molhados e a nossa admiração por ela. Logo, decidi escrever este post em homenagem a tão escandalosa e criativa banda, que teve uma passagem meteórica pelo sombrio Brasil dominado pelo ditador E. G. Médici.

O conjunto, com sua formação clássica, gravou apenas dois discos entre 1973/1974 e entrou para a história da música brasileira. Primeiro pelo impacto visual com rostos pintados, roupas coloridas e despojadas, visual andrógino, principalmente com o vocalista Ney Matogrosso; e segundo, pela qualidade fantástica dos arranjos, pelos timbres alcançados por Ney e o cuidado com as composições. Essa mistura de visual colorido com ótima música era algo comum à época em artistas estrangeiros como David Bowie, Marc Bolan (T-Rex), um pouco do Lou Reed pós-Velvet Underground e o Kiss. Nomes que ficaram agrupados na alcunha glam rock, e para quem quiser conhecer mais sobre tal fase, basta ver o filme Velvet Goldmine (direção Todd Haynes).

Os Secos & Molhados, em sua formação clássica, era formado pelo já citado Ney, João Ricardo (principal compositor, violão, harmônica e voz), Gerson Conrad (violão e voz) e Marcelo Frias (bateria e percussão). O primeiro e melhor álbum foi gravado e lançado em maio/junho de 1973, no ano seguinte saiu o segundo e derradeiro disco. Depois, a banda ainda tentou continuar com diversas formações, mas não chegou nem perto do nível atingindo nos dois primeiros LP’s. Por isto, enfatizarei o disco seminal.

Em meio à amargura, desilusão, medo e solidão impostos pela ditadura, as composições do álbum Secos & Molhados eram um alento aos corações e mentes sufocados e encurralados pelo terror. Em belas e inusitadas alegorias, as letras dos Secos & Molhados denunciavam o clima tenso e a asfixia vivenciada no período. Todavia, a resistência não deixava de ser cantada em forma metafórica, apesar do forte patrulhamento, dos presos e dos desaparecidos, das mutilações físicas sofridas nos porões da ditadura. Assim dizem os versos de “Primavera nos Dentes” (João Ricardo – João Apollinário), um autêntico rock’n’roll:

"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera"

A ruptura com os valores estabelecidos, dando continuidade à mudança de comportamento iniciada pelos tropicalistas, o desejo de liberdade por um mundo justo e igualitário são apresentados por metáforas que compõem o elemental ar, como o grito que estava sufocado na garganta, às vezes a esperança, às vezes o desespero:

“(...)
Rompi tratados,
traí os ritos.
Quebrei a lança,
Lancei no espaço:
Um grito, um desabafo.
E o que me importa
É não estar vencido.”
(Sangue Latino – João Ricardo e Paulinho Mendonça)

“leve como leve pluma
muito leve leve pousa
na simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
(...)
simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
que em mim amadurece”
(Amor – João Ricardo e João Apollinário)

“eu solto o ar
no fim do dia
perdi a vida”
(O patrão nosso de cada dia – João Ricardo)

Os vôos da imaginação surgem, espaço libertador por excelência, a vontade de voar e ser livre apresenta-se trazendo a paz que virá em um novo amanhecer:

“ cada um dos
4
como num teatro
voem
pombas
(pombas
brancas)
... e amanheça”
(Prece Cósmica – João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Entretanto, não há flores, não há paz. O clima é tenso, pesado, cruel. O desamparo e o desespero rondam as mentes. O grito das andorinhas é de agonia. A ausência da nota musical Sol, pode indicar a falta de luz do astro Sol em um período dominado pelas trevas. Vale frisar a experiência formal na construção do poema de Antonio Nobre:

“-Nos
-fios
-ten
-sos
-da

-pauta
-de me-
tal

-as
-an/
do/
ri/
nhas
-gri-
tam
-por
-fal/
ta/
-de u-
ma
-c’la-
ve

-de
-sol”
(As andorinhas – Antonio Nobre, João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Grandes nomes da poesia brasileira têm poemas musicados. A ironia ao poder e novamente ‘a aérea esperança’ em “Rondó do Capitão”, de Manuel Bandeira, e a bela versão da pacifista “Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Moraes:

“Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A área esperança...
Área, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!”
(Rondó do capitão – João Ricardo e Manuel Bandeira)

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada”

(Rosa de Hiroshima – Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)

A ironia também está acompanhada do flerte com o homossexualismo, o que era muito comum para os artistas da época, pois consideravam como parte do comportamento transgressor. Heloísa Buarque de Hollanda em Impressões de Viagens, afirma que no início dos anos 1970, período chamado por ela de pós-tropicalismo, as experiências não se restringem apenas ao campo das artes, mas, sim, ao próprio cotidiano e corpo do artista que passam a ser experimentalizados. Daí o uso abusivo das drogas, o apreço com a marginalidade e com todo o seu significado de banditismo, as experiências homossexuais, o isolamento e o suicídio. Torquato Neto é o exemplo clássico da asfixia à qual o país estava submetido.

Entretanto, as composições do Secos & Molhados até flertavam com algumas características do período, mas não compartilhavam com o clima pesado de um governo ilegal que implantara o terror como ordem do dia aos seus habitantes. A solidão passa a ser a companheira, o afastamento e o individualismo é quase que obrigatório: ‘Eu já não sei se sei / de nada ou quase nada / eu só sei de mim / só sei de mim / só sei de mim’ (O patrão nosso de cada dia). Músicas como “O vira”, “El Rey” e “Assim assado” já prenunciavam o desbunde que se fortaleceria no decorrer da década, com seus versos carregados em deboche.

Diante de anos tão conturbados, nada mais natural que a preocupação com os descendentes que em breve nascerão seja demonstrada. Em “Mulher barriguda”, apreendemos a angústia em trazer uma nova vida para um mundo envolto em guerras (como a do Vietnã e as dos países africanos) e em ditaduras latino-americanas (brasileira e chilena, por exemplo). Os sonhos esgarçados, as derrotas sofridas e o recrudescimento do sistema opressor após o AI-5 no final de 1968 deixam as mentes confusas e desorientadas, porém persiste esperança na metáfora do dia seguinte, de que o pesadelo um dia acabará:

“Mulher barriguda que vai ter menino
Qual o destino
Que ele vai ter?
Que será ele
Quando crescer?

Haverá guerra ainda?
Tomara que não,
Mulher barriguda,
Tomara que não...”

O disco encerra-se com “Fala”, canto desesperado contra a tortura e toda e qualquer forma de repressão. O silêncio como forma de resistência e ação política, perante os gritos assustadores e insistentes dos famigerados torturadores, que tentam arrancar uma confissão qualquer durante os intermináveis e violentos interrogatórios feitos aos opositores do regime ou não. Porque o Poder, quando baseado na força, encontra inimigos até entre os seus aliados, pois o que interessa é manter o estado permanente de medo. São agonizantes os gritos de Ney Matogrosso escorados em um belo arranjo:

“Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala
Fala

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto

Fala
Fala"
(Fala – João Ricardo e Lulli)

Para finalizar, só tenho a dizer para quem não conhece o disco Secos & Molhados que compre a obra ou faça o download na Internet. A seguir, listei alguns endereços com vídeos e registros em mp3, desta banda histórica na nossa cultura. É muito som!!!

Riso


Mp3
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=6244330&tid=2444409808218177754

Vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=wIyvM9Ce7mM
http://www.youtube.com/watch?v=HK_msOCc0II
http://www.youtube.com/watch?v=6S-x6W82z04

2 comentários:

Wesley disse...

Falar de algo tão bom é complicado. É inacreditável como o primeiro disco continua atual. Acho que todo garoto, antes de pensar em fazer música deve ouvir o trabalho do Secos e Molhados.
Sofri pra encontrar, mas hoje tenho os 2 cd´s da banda. Há muita coisa boa que ainda não foi lançado em cd ou tem se tornado inacessível. É uma pena que as gravadoras não invistam muito em conversão de lp´s clássicos para cd´s.

Ricardo Riso disse...

É isso aí, Wesley!
Devemos divulgar pra garotada, forçar a escutar e tal...
Vários álbuns que considero clássicos caíram no esquecimento. Rapidamente cito dois: "criaturas da noite", d'O Terço; e "alucinação", do Belchior.
Valeu!!