quarta-feira, 15 de julho de 2009

FESTLIP – No Inferno (GTCCPM – Cabo Verde)

Uma feliz adaptação de um difícil texto de Arménio Vieira


Por Ricardo Riso

O que podemos esperar de uma peça teatral? Que ela tenha um elenco afinado e competente, uma direção segura, iluminação e música em sintonia com os fatos narrados, um figurino coerente com o tema, dentre outros fatores. O que acontece quando se encerra um espetáculo e encontramos o que foi supracitado e ainda nos deparamos com outras agradáveis surpresas, superando nossa expectativa? Só nos resta aplaudir, de pé, é claro, com o sorriso de satisfação escancarado e cumprimentar os integrantes da companhia teatral nos camarins. Tudo o que foi relatado até aqui é exatamente o que sentimos ao término da peça “No Inferno”, texto do cabo-verdiano Arménio Vieira e encenada pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – Mindelo/Cabo Verde (http://gtccpm.blogspot.com/), no FESTLIP 2009.

Com direção do competentíssimo João Branco, o GTCCPM foi criado no ano de 1993 e já encenou quarenta e três peças, mostrando um fôlego impressionante. O GTCCPM é hoje referência teatral em Cabo Verde e já levou para os palcos textos dos compatriotas Eugénio Tavares, Germano Almeida e Mário Lúcio Sousa, adaptou peças para o crioulo de clássicos da dramaturgia como Shakespeare, Garcia-Lorca e Samuel Beckett, além de encenar textos de autoria própria. O grupo ainda dá continuidade a sua vocação para a formação de novos atores para o teatro cabo-verdiano.

Para a apresentação no FESTLIP, o grupo encenou um texto complexo e difícil, que se refere a vários escritores tais como James Joyce, Cervantes, Shakespeare, Jorge Luís Borges, Dostoievski dentre outros cânones da literatura ocidental. A peça trata de um escritor que é trancafiado em um castelo. Sem memória, ele não sabe como ali chegou até que um telefone toca e várias regras são passadas em um discurso polifônico em que é apresentado a ele que deverá escrever um romance para conseguir sua liberdade, entretanto, somente conseguirá atingir o objetivo se um “júri” competente considerar sua criação uma obra-prima. Para tanto, ele terá uma vasta biblioteca para consulta – pois as vozes ao telefone acusam-no de ter pouca leitura, ou, se preferir, tentar decifrar inúmeros códigos que levariam anos e anos para ter sucesso.

foto retirada de http://gtccpm.blogspot.com/

Angustiado, o escritor parte para a criação de seu romance, mas, logo depara-se com o drama da folha em branco, da ausência de criação. O que escrever diante de tantas obras já feitas? Ele recorre à biblioteca sem sucesso, pois, contrariando o que havia sido dito pela voz ao telefone, é possuidor de uma imensa cultura literária, conhecedor de todos os clássicos da literatura. O tempo passa, seu desespero aumenta, sem contato com o mundo exterior fechado em si próprio. Fantasmas aparecem e o atormentam, revelando o inferno da criação. O branco do papel, o vazio da criação em contraste com toda a erudição que possui e com tudo já foi escrito; pólos extremos que configuram a própria morte do romance, o seu fim como gênero literário, daí ser infestado de metalinguagem, inclusive teatrais na adaptação.

“No inferno” fala do interminável momento de caos do escritor, da atemporalidade do bloqueio criativo, da solidão a que isso reporta, que remete o escritor a ser uma ilha, isolado em um mundo de tantas possibilidades às quais não consegue atingir.

Com um elenco impecável e afinadíssimo que explora muito bem a ironia característica de Vieira, composto por Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares e pelo bárbaro Manuel Estevão, destacando o seu impressionante trabalho de voz; a música tensa e correta de Caplan Neves; iluminação de Edson Fortes, figurinos de Elisabete Gonçalves e cenografia e direção a cargo de João Branco, o GTCCPM presta uma justa e bela homenagem a Arménio Vieira ao realizar esta adaptação de “No Inferno”. Peça que deveria merecer uma temporada no Rio de Janeiro.

6 comentários:

Denise Guerra disse...

Que primor este texto,parabéns Ricardo! Deu pra ver que perdi uma grande obra. Nunca tinha pensado na angústia do "branco" em nossa memória. Metáforas à parte, o branco pode ser tão temível quanto a ameaça de um feitiço. Bjs!

Yana disse...

Ricardo,

O artigo está maravilhosamente bem construído, o que me passa a idéia de que para se tornar um escritor e um jornalista é preciso uma coisa fundamental que você tem na medida certa: Olhar.

É isso o que faz um bom escritor, é isso que consagra um bom jornalista e sobretudo é o olhar que sugere a humanidade.

Parabéns pelo seu trabalho "demasiadamente humano" para tirar uma casquinha de Nietzsche e para se referir ao seu foco: um olhar sobre a África.

Espero poder enviar esse comentário quando o artigo estiver disponível no blog e espero sobretudo poder refazer esse comentário quando seu livro, com todos os artigos que estão no blog, for lançado.

Ainda vamos nos encontrar muito nessa estrada.

Muitos beijos e parabéns!

Ricardo Riso disse...

muito obrigado, denise!
esta foi uma grande peça, ainda bem que tive o prazer de vê-la duas vezes, e veria uma terceira, quarta, quinta... décima-primeira, décima-segunda...
tenha sempre cuidado com os brancos que andam por aí...
bjs!!!

Ricardo Riso disse...

Puxa, Yana... que belas palavras... estou realmente lisonjeado e grato com toda a sua gentileza e delicadeza.
De fato, teremos muitas estradas a percorrer. muito o que fazer, ver e curtir por aí.
bjs vários!!

JB disse...

Ricardo, adorei sua crítica. Sempre agradável saber de gente boa que aprecia nosso trabalho. Espero que outros, como vc, neste ou em outros espaços, possam fazer o mesmo e dizer de sua justiça sobre nosso trabalho com No Inferno.

Abraço de Cabo Verde

João Branco

Ricardo Riso disse...

Muitíssimo obrigado, João Branco! O trabalho realizado por vocês foi fantástico!!
Não há melhor maneira para celebrar a obra do Arménio Vieira!!
Desejo todo o sucess nas futuras (que sejam muitas) apresentações!!!
Abraços deste lado do Atlântico!!
Ricardo Riso