segunda-feira, 6 de julho de 2009

FESTLIP - Psycho (Cia. de Teatro Solaris - Cabo Verde)

Psycho – texto complexo desnuda as inquietações que afligem a mulher

por Ricardo Riso

Começou o segundo FESTLIP (http://www.talu.com.br/festlip/index_home.htm), evento que merece se firmar no calendário cultural carioca com a pertinente proposta de unir companhias dos países de língua portuguesa, logo, trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer os trabalhos realizados por grupos teatrais africanos. Esta edição motiva os apreciadores das literaturas africanas de língua portuguesa por trazer três encenações inspiradas em textos de nomes fundamentais dessas literaturas: “Mar me quer” do moçambicano Mia Couto, “No inferno” do cabo-verdiano Arménio Vieira e “Sobreviver no Tarrafal” do angolano Antonio Jacinto.

No segundo dia do evento optei pela peça “Psycho” da Cia. de Teatro Solaris (Cabo Verde). A Solaris apresentou uma montagem ousada e criativa, com parcos recursos, carregada de experimentalismos diante de um texto complexo e intrigante proposto a discutir temas que angustiam o homem contemporâneo encurralado em um mundo opressor, insensível e devorador daquele que se atreve a questionar a ordem estabelecida.

A partir de três fobias – à sujeira, à multidão e ao sexo –, duas mulheres (as atrizes Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz) desnudam suas inquietações em um texto verborrágico, tenso e intenso. Incômodo que se estende ao simples, “estranho” e funcional figurino, a remeter a alienígenas, demonstrando o desconforto do mundo ao qual vivem.

A inventividade do cenário também é um grande acerto da Companhia, percebe-se o belo aproveitamento das atrizes com os poucos elementos que o compõe e sem referência a um local específico, sendo que o uso incessante de uma escada e os malabarismos feitos ali pode causar um certo desconforto ao espectador que fica na iminência de um acidente com as atrizes. Uma boa analogia ao desassossego e ao tom nevrálgico que o texto incita. Além disso, a atuação das atrizes espalha-se pelo corpo do teatro a buscar interatividade com a plateia.

Do texto, inferimos a importância dada à condição da mulher cabo-verdiana. Seus anseios, medos, dúvidas e angústias são escancarados em uma sociedade repressora a ostentar um machismo exacerbado, que renega a mulher a um patamar inferior no meio em que vive, sendo forçada a se submeter aos caprichos do(s) homem(ns). Isso confere ao texto um caráter universal, pois trata de situações comuns às mulheres de todo o mundo. Tal inquietação e indignação à violência sofrida pela mulher é um tema recorrente nas artes de Cabo Verde, constatado na literatura do país em escritoras como Dina Salústio e Vera Duarte que denunciam essas moléstias em suas obras.

“Psycho” é um espetáculo consistente, denso e instiga o espectador a refletir sobre o que é imposto à mulher. Um belo trabalho da Companhia de Teatro Solaris e das atrizes Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz, que se entregam com fervor a tanta exigência corporal em tão difícil texto.

A próxima e derradeira apresentação de “Psycho” será no dia 09/07, no Sesc Tijuca.

Para encerrar, um poema de Vera Duarte para celebrar o bom trabalho da Solaris.


Psycho – Cia. de Teatro Solaris
Ficha técnica
Texto / Concepção: Valódia Monteiro
Direção / Encenação: Herlandson Lima Duarte
Elenco: Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz
Duração: 50 min
Cenografia: Herlandson Lima Duarte/ Nuno Costa
Figurino: Lucilene Costa / Milanka Vera Cruz
Iluminação: Edson Fortes


MOMENTO XII
(século vinte, um dia incerto de um tempo de mágoas)

Como diria o poeta, choro da dor de me saber mulher feita não para amar mas para ser amada. Choro porque sou e amo. E esterizam-me as forças. Uma melancolia sem princípio nem fim possui-me e quedo-me impotente.

Um súbito regato de águas claras inundara-me. Dei-me sorrindo. Mas as águas avolumaram-se e senti perder-se a minha alma.

Por isso choro. Por me saber mulher e não poder amar. Contudo amo. E na solidão meus soluços se sucedem em canção desesperada.

Sinto-me escravizada, tiranizada, violentada. E meu ser nascido livre se revolta. Na impotência se mata. Quem depois se acusará?

Por isso quero desvendar os universos proibidos e purificar-me. Penetrar nos bastidores da minha condição humana e lutar contra os preconceitos e a opressão que castram. Desprezar, com ódio acumulado, os fariseus da minha história e voar, na plenitude do meu ser nascido livre, de encontro às aspirações da alma.

(DUARTE, Vera. Amanhã Amadrugada. Lisboa: Vega, 1993. p. 40)

2 comentários:

Norma Lima disse...

A mulher cabo-verdiana, a cada dia, alcança maior expressão, tanto na presença de suas escritoras, quanto na de temáticas que as norteiam.
Por isso, agradeço muito a oportunidade de ler a respeito.

Ricardo Riso disse...

É realmente importante esta visibilidade a questões que envolvem a mulher cabo-verdiana.
Valeu, Norma amiga!
bjs bjs!!