quinta-feira, 29 de abril de 2010

Oswaldo Osório – A Sexagésima Sétima Curvatura, por Ricardo Riso


Oswaldo Osório – A Sexagésima Sétima Curvatura
Por Ricardo Riso
resenha publicada no jornal A Nação (Cabo Verde) nº 139, de 29/04/2010 a 05/05/2010, página 16.
Agradecimento especial ao amigo Tchalê Figueira pela gentileza ao enviar-me este livro, ao Prof. Manuel Brito-Semedo pela troca de impressões, ao Giordano Custódio - filho do poeta - pelas belas palavras, e principalmente ao sr. Oswaldo Osório a quem dedico esta resenha com respeito e profunda admiração.

Entre as artes, a poesia possui o poder insuperável de criar imagens através da escrita dos poetas que desbravam os “mistérios da Palavra” (p. 71). Felicita-nos ler versos de quem é compromissado com o seu ofício e canta: “sei o limite da dor e o ilimitado poder das monstruosidades inverossímeis/ que escapam aos homens e o poeta exorcisa” (p. 71), mesmo quando em tempos sombrios recorre aos irmãos do Atlântico Manuel Bandeira e Jorge Barbosa: “é adiada a Estrela da Manhã/ e um destino mais impenetrável se perfila” (p. 73). Felicita-nos a conclusão da travessia dos poemas de “A Sexagésima Sétima Curvatura” (Dada Editora, 2007), novo livro do consagrado poeta da ilha de São Vicente, Oswaldo Osório.

Nome histórico e fundamental às letras de Cabo Verde, este mindelense estreou e foi um dos fundadores da célebre e de curtíssima duração “Seló – Página dos Novíssimos”, solidificou sua veia poética em títulos como “Caboverdeamadamente construção meu amor”, “Clar(a)idade Assombrada” e “Os loucos poemas de amor e outras estações inacabadas”.

Neste “A Sexagésima Sétima Curvatura” o poeta logo revela a origem do título: “acompanhei a Terra 67 vezes ao redor do sol/ de cada vez com a duração de um ano”(p. 15); e consciente da finitude do tempo, sereno afirma que “a morte não é um pesadelo de que não se recorda/ é parte de outra realidade que começa/ mais além da que termina”(p. 69), por isso “tudo o que faço agora/ é sem pressa e devagar”(p. 56), e conforta-se em palavras, acertando-se com Cronos: “Todavia o meu aturdimento não é o medo da morte/ vem do quanto fica por viajar e conhecer”(p. 15).

Osório destaca-se pela coerência política em prol da inquestionável defesa dos desfavorecidos e revolta perante as injustiças do absurdo colonialismo ao qual foi submetido viver e, por isso, combater: “quando eu nidificava/ e amando eu sonhava/ o que na terra eu plantava/ voo futuro se chamava”(p. 53). Daí a legitimidade de versar que “por um sonho ideal/ desafiei o medo”(p. 43) para lembrar àqueles que se apropriam dos ideais de quem os possui por essência: “nunca alcançarão o tamanho do sonho que sonhámos/ mas amam tirar proveito dos seus frutos”(p. 91). Sonho de “quem olha o nascer do mundo”(p. 20) para um “homem novo” (caboverdeano) (p. 19) no qual são “abertas as portas do amanhã conquistado”(p. 21). De quem fez da utopia o sentido da vida: “construí minha vida/ com muita alegria/ e rebeldia (...)// no transcurso/ sonhos/ porque se tudo não é sonho/ não tem sentido a vida/ com alegria ou rebeldia”(p. 54).

Emocionantes os versos com o desejo incondicional do poeta em promover a comunhão entre os homens, “homens de um só tronco e de um só mundo”(p. 26), “filhos de gea a nossa mátria”(p. 27), para que “talvez um dia desconstruindo saberemos/ como o mundo e nós se construíram/ e de frente com o espelho que nos reflectia enganos/ despedaçados às nossas mãos/ a realidade apareça inteira ao nosso espírito remoçado”(p. 65).

O livro foi dividido em 3 partes com poemas que vão desde os anos 1980 e apenas 1 dos anos 1970: O Tempo e o Modo, O Tempo que Passa e O Tempo e a Curvatura da Idade, sendo que neste há generosos espaços cedidos pelo poeta para que o leitor transcreva os seus pensamentos.

Portanto, “A Sexagésima Sétima Curvatura”, em razão da deficiência visual do poeta, contou com a preciosa colaboração da família de Osório e de Manuel Brito-Semedo que também prefaciou a obra. Este livro reafirma o lugar de Oswaldo Osório entre os principais nomes da literatura de Cabo Verde, confirma o seu humanismo: “nunca me seduziu o ter/ mas apaixonou-me o ser// nunca nada consegui ter/ mas sendo consegui vencer”(p. 29); e ratifica o desejo de quem escreve “para fugir à ditadura do tempo e tentar marcar a minha época cultural com a marca da minha diferença entre os meus iguais”(p. 82). Com a inabalável qualidade de sua poesia, Oswaldo Osório vence Cronos e aguardamos o muito que ele ainda tem a nos oferecer.

6 comentários:

lita duarte disse...

Bravo!

É, quem sabe faz.

Ricardo,

Beijos.

lita duarte:)

Ricardo Riso disse...

Olá, Lita!!!
Muito prazer com a sua passagem por aqui. bjs!!!

Carmela disse...

Muito bom.

bjos

Ricardo Riso disse...

OLá, Carmela!!
Obrigado pela visita e comentário. Grande abraço,
Ricardo Riso

Tchale Figueira disse...

Meu amigo fico contente com a tua bela forma de divulgar a literatura Africana no Brasil... e, neste caso a da minha terra Cabo-Verde.

Um grande abraço

Tchalê

Ricardo Riso disse...

Meu caro amigo Tchale,
você que fez esta ponte entre o poeta Oswaldo Osório e eu.
Continuamos na luta em ampliar a visibilidade das literaturas africanas.
Muito obrigado pela sua visita a enobrecer este humilde espaço de divulgação dessas literaturas, a de Cabo Verde em especial.
Abração!!!