sábado, 3 de abril de 2010

Vasco Martins e a celebração telúrica do Monte Verde em “run shan”

Por Ricardo Riso

Agradeço a gentileza do amigo Tchalê Figueira ao me presentear com esta pequena pérola.

Exímio compositor e pianista de formação erudita, com onze álbuns gravados – o primeiro, “Vibrações”, data de 1979, enquanto o recente “Lua Água Clara” foi lançado em 2009 –, compôs nove sinfonias além de inúmeras peças que abarcam a música tradicional de Cabo Verde, e ainda assim passeia por diferentes estilos da música. Falamos de Vasco Oliveira Martins, nascido em 12/07/1956 na cidade de Queluz, Portugal.

Filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, aos nove anos muda-se para a ilha de São Vicente, Cabo-Verde, juntando-se à família paterna, onde concluiu o Curso Geral dos Liceus, em 1974. Foi para Portugal estudar com o compositor Fernando Lopes Graça e na França com o compositor e chefe de orquestra Henri-Claude Fantapié. Retornou a Cabo Verde em 1985 e permanece até os dias atuais.

Na poesia, Vasco Martins recebeu menção honrosa nos Jogos Florais de 12 de setembro de 1976, participou da antologia “Mirabilis – de veias ao sol”, e publicou os livros “Universo da ilha” (1986), “Navegam os olhares com o voo do pássaro” (1989), “run shan” (2008). Tem ensaios e artigos publicados no “Voz di povo”, “Voz di letra”, “Fragmentos”, entre outras publicações. Na internet, encontramos as músicas de Vasco Martins em seu site e sua poesia no blog Deserto do Sul.

run shan é um pequeno, cuidadoso e delicado livro de poesia com apenas 34 páginas, formado por poemas atribuídos ao heterônimo Vasc d’Monteverde cujo leitmotiv é o Monte Verde, ponto máximo (774 m) da ilha de São Vicente. Escorando-se em sua formação universal e no profundo conhecimento das filosofias orientais, Vasc d’Monteverde recorre ao antigo poeta chinês Li Bai e aos taoístas daquele país para justificar a apropriação de suas visões de mundo e a opção em celebrar o monte sanvicentino a partir do conceito de run shan que “significa ‘penetrar a montanha’, no sentido meditativo, contemplativo: usufruir do privilégio de estar longe da polícia geral da vida” (p. 5).

Com isso, depreendemos que há uma postura do sujeito lírico em não apenas versar o Monte Verde, mas o desejo inequívoco em revelar o seu descontentamento com o mundo que o cerca. O fato de ter a montanha como local de reflexão dos males da contemporaneidade estimula-o a buscar outras paisagens, outras sensações para acalentar o espírito, alcançar a paz interior e utilizar a força da palavra poética como condutora desse caminho: “Purificado pelas brumas do Monte Verde / Alma de poeta caminhante contemplativo / Encontro paz longe longe d’azafáma do mundo” (p. 18).

Suas preocupações existenciais e metafísicas, e o predomínio de uma visão telúrica remetem-nos ao heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro. Sendo assim, justifica-se quando deparamo-nos com a exacerbada reverência ao Monte Verde realizada por um sujeito lírico praticante dos dogmas taoístas, em uma busca pelo Todo, da fusão do Uno e do Verso, valendo-se dos paradoxos caracterizadores do Tao Te King:

(Agora entre eu e o Monte Verde
Só as nuvens que passam,
Os momentos de plenitude
São quando deixamos de ser nós
Para sermos nós) (p. 7)

O telurismo exacerbado deste heterônimo faz com que sinta pesar por ser obrigado a deixar o Monte, “Hora melancólica. Mas amanhã voltarei!” (p. 9). Porém a tristeza será passageira, pois o sujeito lírico afirma o seu certo retorno para o lugar de tempos imemoriais, ancestrais, no qual até o avançar do tempo desafia Cronos:

Ilhas como dinossauros a descansar.
Choveu e os montes têm rugas vincadas.
A terra move-se trinta quilômetros por segundo
Mas tudo parece quieto (p. 14)

O telurismo constante, o apego ao chão do Monte faz com que o sujeito lírico preste diversas homenagens à fauna – como os fililis e a águia-do-mar – e à flora – Aeonium gorgoneium – locais em diversos poemas, como neste, em que utiliza ora o nome vulgar, ora o nome científico das aves e das plantas:

Macela
Sementes de erva doce
Falco alexandrii
Sementes de endro
Aeonium gorgoneium
Coroa-de-rei
Passar iagoensis
Gestiba
Pandion halieatus
Pandion halieatus (p. 28)

Elementos da natureza como o ar e a aspiração por liberdade aparecem em vários momentos nos poemas, em líricas e tenras imagens de uma poesia comprometida com o etéreo: “Se observas os pardais do campo / É porque o teu coração anseia / Pela candura e liberdade” (p. 16). As metáforas do voo surgem, desprender-se do terreno através de uma profunda interiorização do ser a transcender em forma de poesia:

Deste único arvoredo vejo uma
Ilha suspensa: vou com ela
Pelo universo adentro talvez
Nalgum porto o meu espírito há-de acostar (p. 15)

Outro elemento da natureza é invocado, a água, para criticar a desordem da vida contemporânea e renovar os corações e as mentes dos homens, preparando-os para uma nova Era de harmonia entre os seres:

De uma secreta fonte há-de brotar
Límpida água
Fluindo depois como uma ribeira
Purificando o coração dos homens
Pacificando o coração dos homens
Restabelecendo a Era da ternura e compaixão (p. 25)

A crença inabalável nos homens faz com que recorra ao seu conhecimento universal e assim capturar o alento proposto nas composições do músico erudito finlandês Jean Sibelius e ao Buda Çâkyamuni. Tenta, com isso, recompor a sensibilidade dispersa por tanto desprezo ao próximo, dominante na ordem competitiva dos dias atuais. Almeja a mudança da mentalidade destrutiva que se apodera da Humanidade e encerra o poema com a sapiência do paradoxo:

Quando me dizem que o mundo vai mal
Já não acreditam na humanidade
E tudo caminha para um colapso
Argumento:
Ouçam a sétima sinfonia de Sibelius
Ela é a prova da magnitude espiritual
Do ser humano
Afirma a generosidade que temos em nós
Tal como Çâkyamuni anunciou.

É uma luz-farol para as boas navegações
Temperada por ela empreendemos a vida
Com alento e esperança.

Não se pode percorrer o caminho
Sem sermos o próprio caminho (p. 27)

Ao incorporar a filosofia oriental, o sujeito lírico usa expressões em sânscrito, língua dos textos sagrados indianos, para demonstrar a vontade incontestável de mudança e clama por uma visão de vida, de relação com o sagrado, com o cosmo: “Por alguns instantes somos a luz que brilha / Ávida por outra luz. // Sarvasattvapriyadarçana!* // (...) Que essa luz nos ilumine! / Que essa luz nos ilumine! / Que essa luz nos ilumine!” (p. 19)

O poema Mañjushaka, palavra em sânscrito, que significa uma flor branca que cresce no paraíso e que tem poder de afastar maus espíritos, propõe a evasão para tentar compreender a inconsequência do mundo. Lirismo ao encontro do universo, aspira a comunhão com o Todo:

Durante horas vagueio
Solitário neste Monte
Até estar no movimento do
Universo.
Com ele no coração
A mente torna-se calma e lúcida. (p. 29)

Da profunda viagem interior, novas percepções surgem e revelam, sinestesicamente, o mistério que há na natureza: “Vem da terra o cheiro / Húmido das nuvens. / A simplicidade das ervas frescas / É o segredo.” (p. 29).

Na ininterrupta procura pela harmonia, “Visto uma camisa amarela / Para condizer com a luz do fim do dia” (p. 23), o comovente e lírico poema “Sob um pé de charuteira” mostra a gradação da meditação. Da paz e tranquilidade proporcionada pelo shanti à passagem para um novo estágio de consciência, o samsara. Sinergia em êxtasiantes versos, a confluência com o Todo, o Indivisível, o Universal: “Sinto: / A montanha parece querer entrar em mim // Agora: / Azul Abril / Asa de borboleta nocturna” (p. 21)

Ao utilizar o heterônimo Vasc d’Monteverde, o poeta e músico Vasco Martins contribuiu de forma excepcional para o lirismo e o universalismo típicos da poesia cabo-verdiana. As ressignificações propostas pela inspiração na filosofia oriental demonstram prismas diferenciados que podem nos ajudar a ver, sentir, refletir uma nova forma de vida para a histeria do mundo ocidental. O canto lírico interior emanado de Vasc d’Monteverde mergulhado no cosmo da natureza, faz com que sua poesia voe livre, liberta das amarras terrenas, sendo conduzida apenas pela ilimitada imaginação criadora.

Acompanhamos os versos do poeta, “Felizes brindámos / À vida com bom vinho / Momento eterno fugaz” (p. 26), descobrimos novas sensações que fazem do Monte Verde, signo de pureza e alegria, o local onde os movimentos cósmicos se transformam para renovar o ser humano, por conseguinte, renovar o mundo que lhe coube viver. Monte Verde, local do belo, run shan, páginas de encantamento, incentivos a novas buscas existenciais, a desvendar o mistério da criação.

Monte Verde!

Já dormi em cima da tua terra limpa-macia!
Celebro-te!
Perto de ti não mais tenho dúvidas!

Que muitas gerações ainda celebrem a tua beleza.
Que te protejam dos homens e das cabras.
Continuarás então a limpar a alma
Dos que sentem o apelo das brumas e do silêncio. (p. 30)


 
* Sarvasattvapriyadarçana: do sânscrito: visão de alegria para todos os seres (Nota do escritor).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

INTERNET
Vasco Martins. http://vascomartins.com/ Acessado em 02 de abril de 2010.
Deserto do Sul. http://desertodosul.blogspot.com/ Acessado em 02 de abril de 2010.

4 comentários:

Valéria Lourenço disse...

Olá Ricardo, é sempre bom passear por este blog. Estou no aguardo da sua palestra dia 12.
Um abraço e até lá.

Ricardo Riso disse...

Olá, Valéria!
Sim, vamos aguardar o dia. Vários nomes contemporâneos serão abordados, privilegiando as suas recentes publicações.
Muito Obrigado pela visita!
Inté!

Tchale Figueira disse...

Bela viagem escrita por você na poesia do Maestro e poeta Vasco Martins.

Parabens.

Abraço

Ricardo Riso disse...

Amigo Tchalê,
muitíssimo obrigado pela sua visita! O senhor é responsável direto por este singelo livro do Maestro Vasco Martins ter sido comentado neste espaço.
Grande abraço!!!