quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana Valente: 06/06/1936 - 05/01/2011

O meu apreço pelas literaturas africanas de língua portuguesa sempre acompanha a admiração pelos artistas plásticos desses países. É assim com os amigos cabo-verdianos Tchalé Figueira, Mito Elias e Abraão Vicente; com os angolanos Yonamine e Kiluanje Kia Henda, Antonio Ole, Van e Jorge Gumbe; de Moçambique, com Naguib Abdula e com Malangantana Ngwenia Valente. Sendo que este agora pinta seus all-over pollockianos de rostos retorcidos à exaustão em outras margens. Malangatana faleceu nesta madrugada, na cidade de Matosinhos, Portugal.

Portanto, aqui presto minha homenagem àquele que tanto me emocionou e emociona cada vez que folheio os livros que tenho sobre sua obra, do encantamento causado a cada apresentação que faço de sua arte, a este, como disse Mia Couto, “‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas”, encerro, dizendo apenas meu muito obrigado e que descanse em paz.

A seguir o primeiro texto que fiz sobre a obra de Malangantana Valente, para ler a versão completa clique aqui.
Ricardo Riso

Estar-se no sítio como moçambicano, como africano, e fazer com que as pessoas conheçam mais um pouco Moçambique:
Malangatana Ngwenya Valente


Para o meu primeiro texto sobre Moçambique não poderia ter deixado de escolher o pintor da Matalana, Malagantana Ngwenya Valente. Nascido em 1936 numa região de etnia ronga, sendo que o apelido Ngwenya, significa jacaré, venha da África do Sul, de seu pai, que era de etnia zulu, Malangatana talvez seja hoje o maior pintor da história moçambicana.


A obra deste artista apresenta-nos e obriga-nos a mergulhar entre seres mitológicos assustadores e homens, ora híbridos, perdidos, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade do colonialismo, a desumanidade das guerras colonial e da desestabilização em cores contrastantes e impactantes. Renascem figuras metamórficas, monstros que permeiam o imaginário do moçambicano, violentado com tantos anos de guerra. Mia Couto assinala:


“Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.


Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)


No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)


Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.”

2 comentários:

Decio Bettencourt Mateus disse...

Um artigo que valeu deveras ter lido, ampliando assim conhecimento e compreensão sobre grande obra de Malangatana – este gigante que venceu barreiras e afirmou-se, pintando os rostos sofridos dum País e continente. Malangatana, é concerteza daqueles nomes que nos desafiam e inspiram a crescer um pouco mais artisticamente. Ainda que tenha partido.

Riso, obrigado pela valiosa partilha, em momento oportuno.

Ricardo Riso disse...

Prezado Décio, muito obrigado pelas palavras e visita. Malangatana foi um grande mestre que deixará sua grande obra para deslumbrarmos no decorrer dos tempos, sem esquecer, é claro, a grande personalidade que foi na construção do seu país.
Grande abraço,
Ricardo Riso