domingo, 9 de setembro de 2007

O Homem Provisório: a travessia da literatura para o teatro

Sertão, palavra-chave do romance, é mais que um lugar geográfico. Espaço sem fronteiras que habita o homem, posto entre limites, nunca antes alcançados, do mar e da cidade, e por isso condenando em sua saga de percorrer o lugar que carece de fechos para alcançar a dimensão mais interior: longe e fundo. Nesse cenário em que o fantástico e o maravilhoso fazem parte do cotidiano, pessoas comuns carregam na alma e no destino os grandes valores da vida: o amor, a coragem, a culpa, as alegrias. O sertão é o mundo, exatamente pela capacidade de ir às questões fundamentais da existência.
João Paulo. O sertão é o mundo. In: 50 anos de Grande sertão: veredas. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 04 de março de 2006.

Muito já se falou, muito já se escreveu sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, principalmente no ano passado quando a obra-prima roseana completou o seu primeiro cinqüentenário. O que foi muito bom por sinal e nada mais justo.

Desde a tenra idade desenvolvi enorme apreço pelo sertão. Fosse na televisão com Morte e Vida Severina, a mini-série Grande sertão: veredas, a música de Zé Ramalho, Alceu Valença, Elomar, Xangai e Chico Science & Nação Zumbi, filmes como Deus e o Diabo na terra do sol, Bye, Bye Brasil, e os livros Vidas Secas (filme também) de Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e os regionalistas da Geração de 30. Além da literatura de cordel, a arte da xilogravura de Samico e o repente na Feira de São Cristóvão, dentre outras referências que não as listarei para não cansar o leitor. Daí surgir imensa expectativa quando há oportunidade de ver alguma arte que tenha o sertão como tema.

Entretanto, não quero aqui tecer maiores considerações sobre mim e menos ainda a respeito do clássico roseano da nossa Literatura, mas, sim, comentar sobre a agradabilíssima surpresa que foi o espetáculo O homem provisório, da companhia paulista Casa Laboratório para as Artes do Teatro, dirigida por Cacá Carvalho.

Quando peguei o folder da peça, gostei do que li. Porém, gato escaldado, procurei não criar maiores expectativas a partir do texto, pois já assisti peças em que o folder era melhor que a atração principal. Atentei para o trabalho de pesquisa na região do Cariri durante quarenta dias, o contato com artistas locais como o xilogravurista Nilo, que participa com uma bela exposição de gravuras na entrada do teatro, o músico Di Freitas e o poeta de raríssima beleza sertaneja Geraldo Alencar, parceiro de Patativa do Assaré, e responsável pelo excelente texto da peça (120 sonetos). Como bem afirma Cacá Carvalho: “Guimarães virou Geraldo”.

Todavia, foi com inenarrável satisfação que percebi rapidamente que não havia necessidade para maiores apreensões. A peça remete-nos a um sertão de extrema aridez, jagunços broncos e duros como a terra rachada. Belas e criativas transposições para as cavalgadas e lutas. A música é de um lirismo impressionante, às vezes assustadora, às vezes encantadora, mas sempre marcante e muito bem encaixada no decorrer do espetáculo. O cenário é formado por panos com paisagens do sertão e a iluminação sobre eles é fantástica. Simplicidade e bom gosto casados com perfeição. O sertão está por toda parte.

Surpreendentes e chocantes são as cabeças inspiradas nos cangaceiros mortos do bando de Lampião e o seu uso constante no decorrer do espetáculo. O elenco está afinado. O diabo Hermógenes é apavorante. Comovente os flertes entre Riobaldo e Diadorim, sem exageros e com grande sutileza. A cena final da morte de Diadorim e o sofrimento de Riobaldo é de marejar os olhos. Mas o que me pareceu o ponto alto da peça, talvez tenha sido a feliz transposição do imaginário místico e da fé exacerbada do sertanejo que permeia todo o espetáculo. A relação com o real fantástico do homem do sertão, daquele que diz que Deus “fez o mundo / Urgente porém sem pressa / Ele fez em um segundo / Esta é a lei do milagre / Do soberano profundo” e do “diabo não existe / Por isso ele é tão forte / Na rua, no redemoinho / Tem nome de toda a sorte”.

Bom, a peça ficará em cartaz somente até o dia 30 de setembro no Espaço Sesc - Copacabana e prestigiarei novamente a linda encenação. E trata-se de uma forte concorrente a qualquer lista de melhores do ano.

Parabéns para a Casa Laboratório para as Artes do Teatro! Parabéns a Cacá Carvalho, a todos os que participaram da criação deste belo e comovente espetáculo, que conseguiu transpor a travessia da existência humana das letras para o palco.

2 comentários:

Anônimo disse...

a música do espetáculo é arrebatadora

Riso disse...

Pois é, Anônimo, vale a compra do cd.
abraço.