sexta-feira, 5 de junho de 2009

Arménio Vieira - poemas


Arménio Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Foi integrante da geração dos anos 1960 da poesia cabo-verdiana. Geração marcada por uma poesia marcada pela revolta e combate ao governo colonial português, à época sob a ditadura salazarista.

Arménio Vieira escreveu quatro livros, dois de poemas e dois romances, respectivamente, “Poemas” e “Mitografias e “O eleito do sol” e “No inferno”, fora vários outros textos publicados de forma dispersa em revistas como "Fragmentos", "Boletim Imbondeiro" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.

O poeta foi recentemente galardoado com o Prêmio Camões. Pela primeira vez um autor de seu país atingiu tal reconhecimento, o que valerá para dar maior visibilidade à literatura de Cabo Verde.

Vieira foi um dos fundadores da revista Seló (1962), que seguia a proposta de publicar textos de cabo-verdianos para Cabo Verde fundamentada pela Claridade e por Certeza, marcos da literatura do arquipélago. Arménio participou com um poema no seu segundo e derradeiro número; não devemos estranhar a quantidade escassa de edições devido à forte perseguição que os opositores da ditadura sofriam, logo, qualquer manifestação com voltas à libertação das colônias era rapidamente sufocada.

A poesia de Vieira apresentava as preocupações com o estado em que se encontrava o país, relia temas pertinentes à geração claridosa como o mar, o que podemos conferir no trecho do poema publicado em Seló:

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ)

Pensar o futuro, imaginá-lo com novas possibilidades para o arquipélago, entretanto, sem a certeza utópica, mas sim com diversas possibilidades:

Talvez um dia
Onde é seco o vale
E as árvores dispersas
Haja rios e florestas.
E surjam cidades de aço
E os pilões se tornem moinhos.
Ilhas renascidas
Nuvens libertas...
À medida dos nossos desejos.

Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!
(Apa;Barbeitos; Dáskalos. p. 165-166)

Contudo, a poesia de Arménio Vieira consagra-se não só por sua abordagem das preocupações inerentes ao cabo-verdiano, mas sobretudo pelo caráter universal das referências literárias, pela ousadia das experiências estéticas, pela criatividade metapoética e pela permanente ironia dos versos a desmascarar a mediocridade imposta pelos líderes das sociedades, que contaminam as vidas das pessoas desfavorecidas com a miséria hipócrita de suas existências. Vieira com seu olhar arguto sempre foi coerente e fiel a sua obra, conseguindo extrair de um mundo infestado por decepções e desconforto matéria para tecer uma poesia cuidadosa, sutil e bela. Parabéns ao Poeta que jamais se corrompeu!

Os poemas seguintes são uma pequena recolha feita por mim.

Ricardo Riso


MAIS NADA

Alexandre Puchkine: o maior poeta da Rússia.
Georges Dantes: galões de oficial, mais nada.

Entre aquele e este o ciúme: fruto amargo
Com raízes no sexo. Faca fria e pontiaguda
Encostada ao coração.

Em 27-7-1837 Dantés mete uma bala
Na fechadura da História e entra.
Puchkine retira-se, com direito à estátua.

Victor Hugo, grande voz, garganta de leão,
Diria, como disse em “Notre Dame”: FATALIDADE!
Mentira. Por uma fêmea somente, mais nada.
(VIEIRA. p. 126)


RETRATO DE POETA*

Pobre Fernando sem Dom nem Formoso!
Rei somente em poesia
que o mundo – tu mesmo o disseste –
é para os que têm o dom da conquista

Pobre Fernando de mãos-postas!
De tal sorte fingidor e poeta
que até fingia que cria!

Pobre Fernando de óculos e chapéu
a sonhar com navios e aves do mar!
De que te valia ser marinheiro
num mundo descoberto e achado
ou ser pássaro e voar
no meio de falcões a rondar?

Pobre chapéu de poeta
ridículo como uma carta de amor!
Ainda se um raio de sol
(transido no tempo e na bruma)
ou uma gota de chuva
(oblíqua e pequena que fosse)
te viesse tornar necessário!

Pobre Fernando de mãos-postas!
Patética pose de poeta


* Este poema foi-me sugerido pelo desenho intitulado Fernando Pessoa Não-Ele-Mesmo, da autoria de c. pinheiro, inserto na revista Nova 1.
(VIEIRA. p. 49-50)


UM GATO LÁ NO ALTO

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.
Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco
Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.
Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta
– não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.
(VIEIRA. p. 29-30)


FÁBULA DE ESOPO

Um touro, ignorante de cabeça,
mas rijo de couro e carcaça,
quis ser elefante

Engoliu vento, inflou...
e já feito imenso balão
(de meter medo à selva e ao leão)
deu um estouro e tombou

Um elefante, por ali vagabundo,
esfregou os olhos, descrendo,
e foi acordar em cima dum ouriço-cacheiro

Uma rã pulou à loja, defronte,
e coaxou ao caixeiro:
– Faça favor de me vender um foguete!
(VIEIRA. p. 33)


DIDACTICA INCONSEGUIDA

Tu nunca viste um homem
Subitamente triste
Ao descobrir um tesouro ou paraíso
Ou alguém com dor no peito
E um gume encostado ao coração
Cuspindo riso pela boca
– Entretanto ensino-te os caminhos
que não passam pela porta de ninguém
e dizes que sou louco
(VIEIRA. p. 59)


SÍSIFO

Peguei numa pedra
e a seguir pus outra em cima
e assim procedi
continuamente
até erguer alta a minha torre

contratei violinos e cantores
e povoei-a
com música e canto

sentei-me e escutei...
mesmo assim não gostei

e então procurei
a donzela mais rara
e trouxe-a comigo e sentei-a nos meus joelhos
e vi como eram tristes os seus olhos

tinha uma boca
como nunca vi outra
mas os seus lábios eram frios
e não pude aquecê-los
– nem com taças de vinho
nem com versos de amor

Peguei num monte de violinos
e quebrei-os até a última corda

encostei-me a uma janela
e vi a moça dos olhos tristes
fugindo como gazela pela noite

pronunciei então a frase terrível
e fiz tombar a minha torre
os deuses rangeram como bronze
e acordaram do seu sono

depois fui condenado
a transportar até ao cimo mais alto
a pedra mais pesada
– talvez aquela em que peguei primeiro
e dei início a minha torre
(VIEIRA. p. 65-66)


CAVIAR, CHAMPANHE E FANTASIA

A esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de janeiro de 1971
é uma hipótese de bomba termonuclear
de que não se calculou a ogiva
é o projeto de um foguetão apontado para a lua
que nunca chegou a partir
(ficou só o esboço da rampa
que não foi concluída)

A esplanada da Praia – mesmo em dia de sol e suão –
seria um oásis magnífico e fresco
se a nossa fé (que remove montanhas)
fosse um milésimo do grão de mostarda

E haveria café
sem que se fosse plantar um cafeeiro
na cabeça do gerente que entra e que sai
e à noite regista os proventos do dia

A esplanada teria um leite mais branco
e clientes catitas e empregadas bonitas
e baixaria para uma média razoável o número de pedintes
e caçadores de beatas
e haveria por certo uma clínica ali perto
e remédios para tudo (até para os males sem cura)

A esplanada teria um helicóptero para os poetas dilectos
e o chafariz ao lado não teria sacado

E haveria cisnes brancos a boiar todo o tempo
e até um jardim suspenso
com tulipas de estufa e girassóis

A esplanada teria aviões de jacto à distância de um braço
ali – no coreto da praça –
que só tem músicos de banda e bombo
a cinquenta mil-réis por semana

A esplanada teria um odor a DDT perfumado
e talvez uma catedral feita por Oscar Niemeyer
(tão diferente da igrejinha do lado
com suas quatro paredes quadradas
e uma cruz tão fora da moda)

A esplanada da Praia seria uma maravilha do mundo
por cuja abóboda cristalina e bordada
as estrelas chegariam coloridas até nós

A esplanada, por fim, teria outro nome
– Morabeza, sem dúvida, é um termo inventado
para ali estar como luva ou sapo imbecil
(estou mesmo a vê-lo, sobre o balcão, a turvar o aquário)

Pelo que ficou dito
e pelo que não –
talvez fosse oportuno morrer aqui e agora
em vez de comemorar minhas três décadas de vida
a sonhar com champanhe e caviar
na esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971.
(VIEIRA. p. 46-48)


PARÁBOLA

Por esse tempo um monstro, a Esfinge, devastava os arredores de Tebas, devorando os viandantes que não adivinhavam os seus enigmas (...)

Sobre o desenho de um templo
traço o poema e digo

é néscia a palavra
é fífia o som
é vazia a garganta

Falsa é a voz que vibra o santuário
- a besta de Tebas ocupa já
o plano mais alto
no pedestal dos deuses

tudo encenado e em acto
(Oh, não falte quem engula
o oráculo e a hóstia!)

COM ÉDIPO AUSENTE
- TAL É A MISTIFICAÇÃO DA PALAVRA
(VIEIRA. p. 95)


POSFÁCIO

Para Manuel Ferreira

Num retomar constante e abandono
os poemas podem ser assim ou de outro modo
até ao infinito. Só que estes
(não importa o sangue ou seiva que a outros se foi pedir)
são bem as marcas que o estar-no-mundo e a dor
feriram numa certa pedra.
E fora outra a sorte ou talvez o lugar e o tempo
e seria diferente o livro
e a lembrança que de uma obra fica
depois de lida e entregue aos bichos.
(VIEIRA. p. 108)


SE...?

Se não houvesse
mar, nem vento,
nem flor, nem planta,
nem lar, nem gente?

E tudo o que é
deixasse de ser:
o dia e a noite,
o macho e a fêmea,
a dor e o gozo.

E as estrelas fossem
palavras sem nexo
e o tempo vazio
de vozes e gritos


Haveria Deus,
sem mais,
amando coisa nenhuma,
para si mesmo
sábio e santo.

Sonhador solitário,
sonhando que sonho?
Sem mundo, só Ele,
redondo como um zero.
(VIEIRA. p. 119)


FALA O PAPA JOÃO PAULO SEGUNDO

A voz é outra, porém a mesma,
como outrora Pedro
exortando à Fé.
Eco talvez do verbo crucificado
ou semente lançada pela mão de Saulo.

Entre a multidão que reza e canta,
Silvenius, o poeta, santo sem fé,
fica triste, estremece.
E sonha ter sido um anjo,
expulso do Céu, por ser julgar igual a Deus.
(Fragmentos. p. 26)


POEMA

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Não o mar azul
De caravaelas ao largo
E marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
De ondas
Que estalam na praia

Não o mar salgado
Dos pássaros marinhos
De conchas
Areia
E algas do mar

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ, nº 2)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). Poesia Africana de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003.

FRAGMENTOS – Revista de Letras, Arte e Cultura. Praia: Movimento Pró-Cultura. Ano IV, nos 7/8, Dezembro de 1991.

SANTILLI, Maria Aparecida. Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas – Cabo Verde: Ilhas do Atlântico em prosa e verso. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

SELÓ – Página dos Novíssimos (edição facsimilada). Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1990.

VIEIRA, Arménio. Poemas. Mindelo: Ilhéu, S/D.

2 comentários:

Norma Lima disse...

Uma das características mais fantásticas da obra de Armênio é o uso do humor, da ironia.
Já está mais do que evidente que a Literatura Cabo-verdiana apresenta autores maravilhosos, desde sempre, cada qual com a sua especificidade.
Parabéns ao poeta das ilhas e do infinito que se vê delas.

paula disse...

Ricardo riso,
encontrei o seu blog no acaso de estar 'a procura de poemas de armenio vieira.
Faco cp (copy past)do poema tao conseguido da didactica daquele que e' o mais poeta dos poetas vivos cabo-verdianos.
Obrigada pelo seu blog que e' um estoiro!
Paula Vasconcelos
DIDACTICA INCONSEGUIDA

Tu nunca viste um homem
Subitamente triste
Ao descobrir um tesouro ou paraíso
Ou alguém com dor no peito
E um gume encostado ao coração
Cuspindo riso pela boca
– Entretanto ensino-te os caminhos
que não passam pela porta de ninguém
e dizes que sou louco
(VIEIRA. p. 59)