segunda-feira, 1 de junho de 2009

Bonfanti – o enigma da existência em obras viscerais do artista

Por Ricardo Riso
31 de maio de 2009

Uma grande retrospectiva no Paço Imperial (RJ) reúne mais de três centenas de trabalhos que cobrem quarenta anos da carreira plástica de Gianguido Bonfanti. Quando falamos do artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mencionamos uma obra consistente, segura, fiel a um expressionismo voraz, poucas vezes realizado no Brasil, encontrada apenas em Iberê Camargo, o Ivan Serpa da Fase Negra ou Crepuscular e uma meia dúzia de dois ou três nomes da Geração 80 carioca ou da Casa 7 paulistana.

Como todo artista que se vale do expressionismo, o homem, com todos os seus desejos, angústias, dúvidas, perversões e anseios ocupa lugar de destaque em suas realizações plásticas, revelando um mundo de desarranjo, incerto, inquieto e devorador. É latente a presença da desilusão do homem contemporâneo, tornando sua obra atemporal e de difícil compreensão para seus pares, fato comum a artistas como Goya, Egon Schiele, Francis Bacon, Willem de Kooning, Lucien Freud, Leon Kossof, Frank Auerbach Geog Baselitz e principalmente o brasileiro Iberê Camargo. Artistas que mergulharam nas profundezas do âmago humano, desmascarando a incompreensão e a incomunicabilidade do tempo que lhes coube viver.

Esse homem em crise encontra-se em conflito no olhar do observador quando se depara com as soluções plásticas concebidas por Bonfanti. Sua gestualidade agressiva, solta, em pinceladas espaçadas e densas em total descompromisso com a forma da figuração humana e insubmissa ao contorno, exige que o espectador retire do corpo da pintura, da matéria pictórica, essa figuração e recrie-a, se necessário for, em sua mente. É nessa tensão latente, proporcionada por figuras ora fantasmagóricas, ora beiram a abstração, que a pintura de Bonfanti cresce, surpreende e se equipara aos maiores nomes da história da Arte, porque consegue extrair as sensações que desnudam as inquietações do homem, nos conduzindo à busca de nossa essência, a tentar descobrir o enigma da nossa existência.

Por isso, não há em Bonfanti preocupações com modismos, em seguir novas tendências ou experimentalismos opacos, ocos, inconsistentes, efêmeros, pois Bonfanti é fiel a si mesmo, é fiel à pintura. Sentimos verdade e entrega do artista diante de sua produção.

24.08.2005 - auto-retrato - óleo sobre tela - 40 x 35 cm*

Em um rápido resumo, vemos um Bonfanti expressando trabalhos sombrios, figuras híbridas, horríveis e surrealizantes, assustadoras como as criadas por Hieronymus Bosch ou H. R. Gigger. Retratam um período de predomínio das trevas da ditadura simbolizados plasticamente por meios em que o preto e o branco sobressaem, como o nanquim, a água-forte e a xilogravura. A cor, quando surge, revela-se como na série “Doenças Tropicais”: figuras deformadas, escatológicas, hediondas como foram aqueles anos marcados por mentes e corpos obliterados por um regime de exceção.

25.09.1979 – nanquim - 53 x 76 cm*

O início dos anos 1980 já revela uma fase de colorido intenso, exagerado, alegre, erótico e de forte figuração em diálogo com o kitsch e o fauvismo. Em alguns momentos o óleo bastante diluído lembra a aquarela, enquanto seus desenhos em pastel seco são livres e leves. Em contraste com o terror da década anterior, os anos 1980 são impregnados pela renovação dos ares trazidos pelos exilados políticos da ditadura que começam a retornar ao país em 1979, por causa da Lei da Anistia. Logo, havia uma esperança de dias melhores, uma certa euforia com o fim da ditadura, agonizante e inócua, sem razão para continuar e perpetuar seu poder opressor. O que culmina com o "retorno à pintura" e o clima festivo da mostra “Como vai você, Geração 80?” no Parque Lage e com os comícios gigantescos pelas “Diretas Já!” nas principais capitais do país, ambos em 1984.

01.10.1980 - pastel seco - 64 x 81 cm*

É no decorrer dos anos 1990 que a pintura de Bonfanti começa a adquirir linguagem própria. Sua pintura começa a ganhar em emoção e lirismo na mesma proporção em que a figura humana passa a ficar cada vez mais fragmentada, densa e tensa. Essa figuração começa a ganhar em impessoalidade devidos aos rostos despersonalizados. Com esse recurso, o artista expõe o homem coletivo, o homem comum. Há uma presença constante de um erotismo que beira a perversão, em cores escuras, em tons baixos de vermelho e azul, principalmente. Figuras próximas da abstração, brutalizadas, expressões que navegam da dor ao prazer.

Seus trabalhos recentes apresentam pinturas com pinceladas soltas, espaçadas e agressivas, que não preenchem a tela completamente, porém intensas nas áreas atingidas. Demonstram, inclusive, um paradoxo, pois se há um descompromisso com a forma, há um certo e sutil rigor em tratar a figuração humana ou o seu autorretrato. Estes são um capítulo à parte em sua obra, pois são exaustivamente trabalhados em releituras constantes, numa tensão permanente entre figura e fundo. Seus rostos diluem-se nas pinceladas, tornam-se impressões, onde ganham destaques os olhos do artista - a região de maior impacto cromático -, de massa pictórica e excessiva gestualidade.

16.01.1997 - óleo sobre tela - 150 x 190 cm*

Nas figuras atuais, elas estão isoladas, são solitárias, buscando uma interação que não se realiza no espaço pictórico. Bonfanti, com sua gestualidade demarca o espaço de incomunicabilidade, de figuras distantes, arrasadas, incompreendidas, melancólicas. Bonfanti mostra a miséria da nossa existência. Há um silêncio angustiante quase que tangível nessas obras. E não há como ficar impassível diante delas. As pinceladas são mais livres; o gestual fica mais solto, abstrato e ganha força, torna-se independente. Porém, o fundo carregado e pesado dos anos 1990 agora é tratado com certa leveza, há pequenas áreas com a presença do branco puro da tela. Bonfanti se reinventa, segue em frente, coerente com sua história, com suas influências.

20.07.2001 - óleo sobre tela - 140 x 150 cm*

Isso tudo que procuramos relatar neste texto, revela a força da trajetória de um artista que se sobrepõe à velocidade do mundo contemporâneo, pois como um sábio, Bonfanti sabe que todas as sensações que atingem o homem são as mesmas de sempre, por isso concentra-se na essência da espécie humana, de um homem em intermináveis conflitos que vive em um mundo desconfortável. É essa agonia tão bem traduzida em suas telas que traz inquietação para quem as contempla, pois é o desconforto de nossas vidas que está representado em suas pinturas. Com isso, sua obra ficará para todo o sempre, algo apenas atingido por um grupo seleto de artistas, tornando a visita a sua exposição obrigatória.

11.05.2007 - óleo sobre tela - 140 x 160 cm*


Gianguido Bonfanti fascina por trilhar e mostrar os obscuros caminhos de nossas contradições. Viver é difícil, entretanto, percorrer a sua trajetória pictórica, sentir a entrega incansável ao seu ofício reafirma a vontade de se estar vivo, mesmo que seja apenas para acompanhar a sua luta incessante com a pintura e a vida. É a consagração de um artista que busca decifrar o enigma da existência humana.


Gianguido Bonfanti – 1969/2009
Paço Imperial. Praça Quinze, 48, Centro, 2533-4407. Terça a domingo, 12h às 18h. Grátis. Até 5 de julho.



*Todas as imagens foram retiradas do site de Bonfanti: http://www.gianguidobonfanti.com

3 comentários:

Anônimo disse...

de Bonfanti- bonfanti@centroin.com.br ocultar detalhes 11:27 (4 horas atrás)
para Ricardo Riso- risoatelie@gmail.com
data 01/06/2009 11:27
assunto Re: Exposição no Paço

Caro Ricardo,
Fiquei surpreso pela qualidade do seu texto, devo dizer que mesmo entre os nomeados críticos de arte não é comumu texto pertinente à obra como o seu. E os elogios são de grande peso, o que me enche de de energia para continuar a caminhada plástica.
Fiz uma pequena correção no texto, pois o número de obras expostas ultrapassa três centenas.
Grande abraço.
Gianguido
----- Original Message -----
From: Ricardo Riso
To: Gianguido Bonfanti
Sent: Monday, June 01, 2009 10:04 AM
Subject: Exposição no Paço


Prezado Bonfanti,

visitei sua exposição no Paço Imperial ontem à tarde. Fiquei encantado com sua obra, novamente, o que motivou a escrever o texto que segue abaixo para sua apreciação e publicado no meu blog - http://ricardoriso.blogspot.com . Já o conheço do período que estudei no Parque Lage (2000/2004) e fui aluno do João Magalhães.
Assim que puder, comprarei o catálogo da mostra.
Um grande abraço,
Ricardo Riso
.

Marta disse...

Estive hoje no Paço (ainda bem, pois a exposição termina no domingo) e fiquei impactada. Confesso que não conhecia a obra deste MAGNIFICO artista - vibrante e, em alguns momentos, desconfortável (nos coloca diante de nossa obscuridade).
Adorei a fase VERMELHOS.
Vou voltar amanhã, preciso ver novamente aqueles quadros.
Marta Cardim

Ricardo Riso disse...

Prezada Marta, a obra de Bonfanti é fantástica e pouca divulgada, ainda, infelizmente. Um artista vigoroso como ele não pode ter tão pouca visibilidade.
Sábado estarei lá também e no domingo haverá um concerto de música clássica às 12h para encerramento da exposição.
Abraços,
Ricardo Riso