quinta-feira, 18 de março de 2010

Seló - Página dos Novíssimos, por Ricardo Riso (Semanário A Nação 133, de 18 a 24/03/2010)



Por Ricardo Riso
*artigo publicado no semanário cabo-verdiano A Nação nº 133, de 18 a 24/03/2010, página 14. 
O século XX determinou mudanças cruciais nas relações entre as metrópoles europeias e as colônias africanas. A urgência da libertação desses países sedimentou-se ao longo das décadas, acompanhando a evolução de um sentimento nacional opositor à injustificável tirania colonizadora. Tais eventos mobilizaram diversas camadas sociais, logo a vocação libertária da poesia impôs aos poetas participação ativa na desintegração do sistema opressor.
Em Cabo Verde a consciencialização dos escritores alvoreceu com a revista Claridade (1936). Em seguida, o já insustentável colonialismo exigiu radicalização e comprometimento com o nacionalismo por parte dos poetas, nascia a revista Certeza (1944). Enquanto isso, a PIDE, a polícia salazarista, tentava dizimar as manifestações subversivas.
A resistência ao regime organizou-se e sob a iluminada liderança de Amílcar Cabral surgia o PAIGC, em 1953. Sucessivas independências espalharam-se pelo continente, antes de findar esse decênio o Suplemento Cultural (1958) e o Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes (1959) estremeciam os pilares lusos nas ilhas.
Embora a ditadura salazarista não aceitasse as evidências do anacronismo colonial e recrudescesse a violência, o brilho da liberdade urgia e atraía jovens poetas para se tornarem atores da História. Assim, em Mindelo, Ilha de São Vicente, com apenas duas edições e quatro páginas do jornal Notícias de Cabo Verde irradiavam as viscerais palavras formadoras de Seló – Página dos Novíssimos, em 1962.
Três nomes marcariam a literatura do país despontaram em Seló: Mário Fonseca, Osvaldo Osório e Arménio Vieira. De acordo com Osório, seló era a forma como se anunciava a chegada de algum barco nos portos da Ilha da Brava. Bela metáfora do passado das naus portuguesas e seus dissabores, pois Seló trazia o desejo contínuo, inquestionável e legítimo da libertação, e “a necessidade de protestar e dar alarme” às agruras que assolavam as ilhas.
Além dos poetas citados, completam a edição inaugural Rolando Martins e Jorge Miranda Alfama. Este narra em “Carta” um comovente pedido para que o emigrante “não negues o destino da tua terra”, apesar do desespero que o levou a partir diante do “esboço de vida nas ilhas”. Este em diálogo com o poema “Holanda” de Osório, retrata a esperança do emigrante na terra longe: “Chegamos com barcos guildas nos olhos e desejos de vencer (...) e poremos todo o nosso esforço”. Para quem fica, a miséria causada pela fome é repudiada no expressionismo voraz de Mário Fonseca: “Gargalhadas de escárneo/ Rasgando / Até as comissuras dos lábios”. Imagens inusitadas e o tom apocalíptico surpreendem em “Advento” de Martins, pois “Na hora crepuscular uma estrela cortaria o alumbramento dos céus / hossanas e maldições, blasfémias e orações negariam o silêncio / Coros incorpóreos seriam o eco do anúncio da Hora”.
Em 28/08/62 a derradeira edição foi publicada, acrescida de Arménio Vieira e da bem-vinda presença feminina de Maria Margarida Mascarenhas. Esta comparece com um conto que narra dificuldades várias, o desencanto apodera-se em “O destino de Egídio”: “Abandonar uma esperança para agarrar uma vaga promessa, isso indefinidamente?” O metafórico “Poema” de Vieira renega o passado colonial, “Não o mar azul/ de caravelas ao largo/ e marinheiros valentes”, para revelar a sua “revolta contida (...) Mar! do não-repartido/ e do sonho afrontado”.
O característico compromisso social de Fonseca e a defesa inexorável dos desfavorecidos iluminam-se no poema “Estrangeiros” com a simples troca do pronome em um verbo: “Lá vão eles! Vedê-os! Vedê-nos!”. A denúncia social também é a tônica do misterioso conto “O Segredo” de Osório.
Seló – Página dos Novíssimos marcou o seu tempo e deixou seu legado às gerações posteriores. Deve-se parabenizar a iniciativa do Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco pela edição facsimilada e pelo cuidadoso texto de Maria Lucia Lepecki. Trata-se de uma bela e justa homenagem à literatura de Cabo Verde.

5 comentários:

Tchale Figueira disse...

É fascinante o teu amor pelas tuas, nossas raizes. Longo caminho a percorrer, mas como dizes bem: Sonhos não envelhecem.

um grande abraço.

Tchalê

Ricardo Riso disse...

Oi, Tchalê! Que prazer a sua presença por aqui.
Tenho um carinho inenarrável por Seló desde quando li a explicação do título feita pelo Osvaldo Osório. Isso, motivou-me um a criação de um desenho ao qual presenteei a professora Simone Caputo Gomes. Além disso, há todo o contexto histórico da época e a coragem que exalava daqueles textos.
Você não tem ideia da minha felicidade quando comprei a edição facsimilada. Foi um momento de grande alegria.
Obrigado pelo comentário!
Abraços fraternos,
Ricardo Riso

lita duarte disse...

Oi, Ricardo.

Teu blog tá repleto de coisas boas.
Excelentes matérias.

Beijos.

Ricardo Riso disse...

Olá, Val!!
Que bom que esteja gostando do conteúdo do blog. Se puder, inscreva-se nas palestras da África e Africanidades e ajude a divulgá-las, por favor.
Passei no seu blog hoje, li e comentei aquele belo conto do casal que se separou, mas a casa ficou.
Bjs

Ricardo Riso disse...

Olá, Val!!
Que bom que esteja gostando do conteúdo do blog. Se puder, inscreva-se nas palestras da África e Africanidades e ajude a divulgá-las, por favor.
Passei no seu blog hoje, li e comentei aquele belo conto do casal que se separou, mas a casa ficou.
Bjs