quinta-feira, 3 de junho de 2010

Entre mar e céu: a fluidez libertadora da palavra líquida em Outros Silêncios de José Geraldo Neres


Por Ricardo Riso

Reconfigurar os sentidos anestesiados pelo desarranjo da caótica vivência urbana, ampliando as ressonâncias do verbo poético, libertador por excelência, em um inimaginável furor semântico a desbravar novos caminhos para a linguagem, pois como versa o sujeito lírico: “A vida já sabemos sem sentido” (p. 153) diante da efemeridade de uma época na qual temos os “heróis com prazo de validade” (p. 105).

Quando os sentidos da palavra parecem desgastados, dilacerados pelas incongruências da contemporaneidade, caberia aos poetas ressignificá-los? Em seu livro “Outros Silêncios” (Escrituras, 2009), José Geraldo Neres cumpre com louvor essa missão em uma depurada escrita, posto que “somos a tentativa de decifrar símbolos, símbolos além dos símbolos” (p. 153), e recorre a Octávio Paz: “O poeta não é o que nomeia as coisas, mas o que dissolve seus nomes” (p. 155).

O poeta busca a “linguagem da inconsequência, alegoria / que nunca chega ao fim” (p. 153), como as imagens insólitas e libertadoras dos simbolistas e surrealistas; a loucura poética a remeter Pessoa e outros nomes fundamentais como Charles Baudelaire, William Blake, Walt Whitmann, Murilo Mendes, Mário Quintana, Garcia-Lorca e a marginais como Cláudio Willer e Roberto Piva. O relacionamento com o onírico e com procedimentos consagrados pelos surrealistas, como o automatismo psíquico, encontram insólitas e surpreendentes imagens, “sombras se agitam / a uivar para as nuvens de martelos assustados” (p. 32), no qual o tempo apresenta um outro ritmo marcado pela “mão sonâmbula” (p. 111), “o ponteiro dos minutos custa a se mover”, refeito pelo sujeito lírico que afirma: “perdi a confiança nos relógios” (p. 133) e segue o seu próprio tempo, “o relógio sou eu & me transformo em procissão infinita” (p. 144).

Na escrita por vezes corrosiva do poeta, “palavras invertidas temperam a fome” (p. 136) e “ela me ensina que escrever é deixar cicatrizes” (p. 127), enquanto “um poema desce / torna-se mais pesado que um punhal” (p. 136) e “a poesia transborda no dorso do enigma” (p. 142), segredos de um tempo anterior à palavra primordial, espelho retorcido que se revela nesses outros silêncios: “os segredos quebram o espelho & retiram seus olhos líquidos / desnudam a chuva para sentir a sua pele / esse rio subterrâneo a devorar o tempo anterior a palavra” (p. 123).

Mister dizer que as motivadoras imagens consagram o apuro estético recheado de metáforas sinestésicas desses “Outros Silêncios” propostos por José Geraldo Neres que se escutam em nossos olhos. O intenso uso criativo de elementos da natureza como o ar, “as árvores cantam / levam meu corpo / suas raízes criaram asas” (p. 20), e principalmente a água, a navegar por outras margens, ou melhor, como versa o sujeito lírico, “espero um navio líquido” (p. 20), que “revela o segredo do abismo” dessa “água de fala adormecida / onde se encontra o eco da sua voz” (p. 23) de “um rio sem margens” (p. 20). Rio da utopia do Verbo transformador de um sujeito lírico que se afirma como “o corpo do menino / que desafia o sol / e entra no bosque escuro com as naves do verbo” (p. 50), revelador de novos sentidos “na linguagem da água” (p. 24).

“Outros Silêncios” de José Geraldo Neres apresenta-se como uma necessária oxigenação líquida para o panorama poético brasileiro.



poemas

UM ABISMO ATRÁS DOS OLHOS


I

silêncio
língua anterior ao tempo
língua na canção das águas
o vento abre os olhos
senta sobre o hálito do primeiro espelho
um dilúvio de pupilas
dá ao cego um cardume de cavalos sonâmbulos


II

a alma do horizonte
carne líquida em jogos de anjos obesos
na pesca onde as nuvens se fazem pedras
voz de dúvidas
sua língua atravessa de lado a lado uma chuva de asas
dois pássaros de olhos queimados

um riso debaixo da terra


III

um calafrio a cortar a seda dos lábios
as casas recolhem migalhas
e as costura em outro espelho
desaparecem dentro do calendário


IV

na voz do rio
se planta um deserto
o desafio da face criadora
pó dentro do homem
herdeiro na pele das lágrimas
uma criança tece uma estátua de chamas
salta do ventre
na dor de ser uma ilha

um riso do abismo com seus espelhos


V

o tempo atravessa a casa
e o mistério de nascer num rio com lábios abertos
nos pés da noite
o esqueleto da música na voz da morte
pele dentro da pele
no sofrimento da nudez
exilada fora do corpo
desenha a areia dentro do vento

e dois icebergs flutuam nos olhos do cego
(p. 27-31)


EPISÓDIO

Metal impuro
medalhão da sorte sem poderes ocultos
moeda cunhada nos tempos do sofrimento
Estas foram as primeiras hipóteses
para descrever o objeto que estava cravado
entre os dedos daquele incógnito ser na angustiada
mesa de necropsia

Ele fora encontrado no cume da montanha
- ironicamente denominada
Paraíso-
Ainda não atingira a idade do lobo

Concluídos os primeiros exames
tentava eu montar o quebra-cabeça do devorador de minha tranqüilidade

Não saí da primeira peça

Nenhum indício de sua morte
os órgãos internos estavam perfeitos
o que era incomum para alguém de sua idade
Uma luz artificial refletiu-se em meu rosto
& o Senhor das Dúvidas percorreu-me o corpo
A moeda abandonou seu hospedeiro
furtando-me a concentração nas análises

A ampulheta é invertida

As runas traçam diferente destino

O vento noturno conduz a uma estranha sensação
estou na montanha Paraíso
Solitário
Vestígios de sanidade
Abruptamente o cenário é invadido por outra criatura
mas ela não sente minha presença
Senta-se em posição de lótus
parece admirada com o horizonte
Num movimento angelical
ela retira um objeto circular de suas entranhas
Olha-o
& seu semblante transforma-se
Grita
& atira furiosamente o objeto montanha abaixo
Vira-se para mim
olhar vago
um quê de decepção

Chove

A chuva cobre seu corpo num lamento
Uma gota rubra remete-me à cena inicial
[Metal impuro - Forja mestra de almas
invento impondo sua cadência
arquitetando o cotidiano
monarca das ilusões

Sou servo banhando-me em espelhos de lágrimas]

Permitiram-me o sol
mas há dias não sinto sua luz
(p. 51-53)


A QUARTA LÍNGUA DA LUA

passa pelo corpo
& a primavera
soluça espectros de pétalas
sua semente
- o manso golpe do machado -
rasga o peito
saem
dois girassóis
com a idade do silêncio
um com os pés de criança-órfã
o outro com as mãos de trigo
a língua
perfura o pensamento
congela os olhos do tempo
beijos a devorar a música do orvalho

um grito pesca uma estrela

- sela o abismo -
(p. 69)


DORSO DO ENIGMA

a poesia transborda no dorso do enigma
estou longe de mim no fundo dos olhos do centauro
o mundo me habita e uma aquarela espera o seu galope
dentro da infância busco atravessar a ponte

sua voz me guia
trago em mim outras feras e um peixe a escrever flores
procuro um milagre e resta apenas este poema
centauro de língua escarlate a galopar o espelho

estou aqui na poeira dos seus passos
de mãos dadas com seu filho a cravar palavras a afogar dias
não importa o labirinto brinco de deus e beijo suas raízes
no balanço da rede resta o silêncio e o cheiro do sol na carne
carne da moça na encruzilhada a construir a
arca da salvação
longe de mim a olhar a sombra dos vaqueiros

estou aqui tragédia a morder poeira
trago em mim um epitáfio e uma romaria
não sei ser quase sou pedra barro lama sêmen
semente de relógio em um deserto de cicatrizes
minha cruz a marcar o silêncio
não me ofereça o paraíso preciso de uma sombra
o poema se aproxima a caminhar além das preces
(p. 142-143)


OUTROS SILÊNCIOS

I

o sol
balança a rede
sem medo de despertar
o punho da serpente

o vento treme n’água

- a morte caminha nos seus olhos –
mergulha & ressuscita tempestades
acordo no meio de seus tentáculos

(eles ainda arrastam estrelas)
sinto arder os espelhos
desenho o silêncio
com as cores
das suas entranhas


II

retirar do corpo a sombra
não existe mais o corpo
a sombra é gravada no tempo
labirinto transformado em dragão de ópio
no rebento da tempestade
o grito dos ossos afogados no peito da noite
seus olhos
leopardos mergulhados na morte

sombras amontoadas
& nos lábios
cobertores de palavras


III

no aquário
corpos desenham um arco-íris
nadam na saliva dos anjos

crianças brincam
amarradas nos calcanhares dos deuses de terno
enforcadas em borboletas de pele humana
(p. 91-93)

5 comentários:

lita duarte disse...

Meu amigo, só o título do livro já é demais.
Que poemas!
Um dia desses, coloco alguns no meu blog.

Teu blog é uma fonte de riquezas.

Ricardo, bom dia.

Beijos.

Ricardo Riso disse...

Bom dia, Lita!!
Muito obrigado, minha assídua frequentadora.
Recomendo a compra deste livro repleto de imagens impressionantes.
Grande beijo!!

Zelinda Barros disse...

Escolhemos seu blog para receber o Prêmio Dardos! Sugerimos passar lá no blog e conferir.
Abraço!

Blog Fazer Valer a Lei n. 11.645/08

http://fazervaleralei.blogspot.com/2010/06/nosso-blog-recebeu-o-premio-dardos.html

nely disse...

Parabéns!

Ricardo Riso disse...

Prezada Zelinda,
muito obrigado pela indicação deste blog a este prêmio. Fico feliz pelo reconhecimento conquistado.
Grande abraço,
Ricardo Riso