segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mito Elias – Private Z(oo)m, por Ricardo Riso



Mito Elias – Private Z(oo)m

Ricardo Riso
Artigo publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 147, de 24 de junho de 2010

A literatura perpassa a obra do artista plástico praiense Mito Elias desde o século passado com a revista “Sopinha de Alfabeto” às recentes criações em vídeo, como “Poemix”. Um caminho natural repleto de generosidade e humanismo aos seus pares escritores para este artista também poeta.

A ousadia apresentada em meios múltiplos desnuda a inquietação e o rigoroso comprometimento na incessante busca por novas experimentações sensoriais deste abnegado perscrutinador do tempo que lhe coube viver.

A criação, ou melhor seria a recriação, para Mito Elias não se esquiva da irreverência, da ironia e da ludicidade, e é isso que encontramos nas surpreendentes imagens de “Private Z(oo)m” - http://www.buala.org/pt/mukanda/private-zoom - acompanhadas por poemas do prestigiado Arménio Vieira.

Um arqueológico olhar pela, por vezes, caótica e desgastada paisagem urbana revela seres fragmentados do outrora, reformulados pela lírica sensibilidade do artista que extrai do sujo, do lascado, do borrado nas paredes da cidade imagens ancestrais capturadas pela lente fotográfica. É esse olhar ampliado, o zoom, empenhado em reelaborar a percepção dilacerada do homem contemporâneo pelo qual Mito Elias, a nos mostrar a necessidade de reconfigurar os sentidos para que não sejamos os “homens cães” de Arménio Vieira, nos conduz às nossas imagens primordiais, as pinturas rupestres.

Das pinturas nas paredes das cavernas à reinvenção dos animais desse zoo privado de Mito Elias flagrados em singelas fotografias, arquétipos urbanos de nossa ancestralidade, simulacros fragmentados de pinturas rupestres pós-modernas que nos remetem à origem primeira da arte, da sensibilidade do homem extraída dos escombros da memória coletiva.

Esse procedimento confere à série Private Z(oo)m um lugar de reflexão, de atualização signíca, de reconfiguração visual da nossa histórica imagética. Avisa-nos da pertinência de um olhar acurado, de um olhar poético como o de Vieira que visualiza “um gato / saltando de uma nuvem para outra / até ficar oculto / num floco todo branco”; de um olhar que recorre à fotografia, e aqui lembramos da relação com a pintura, do artesanal e por vezes longo processo de realização do artista e da efemeridade captada por uma lente; da relação passado-presente apontada para o futuro reinscrito nas lentes deste vate consagrado da arte cabo-verdiana.

"Private Z(oo)m" propõe o alargamento do olhar através da recriação dessas pinturas rupestres, propõe, além disso, a experiência de renovarmos de forma constante a experiência de buscar imagens em lugares inusitados. Apropriando-se daquilo que poderia ser tido como lixo ou descuido com a nossa casa, afinal paredes nos abrigam e materializam nossa casa, as fotografias da série aqui referida revelam a sensibilidade perdida desde esses milenares tempos idos, o descaso com a nossa casa, propõem a conscientização ontológica, a reformulação das utopias esgarçadas e desacreditadas pela insensível ordem vigente.

"Private Z(oo)m" ao retomar nossa memória imagética primordial sugere a reaprendizagem do olhar fraturado e dilacerado sobre as pessoas, sobre o mundo no qual vivemos, cada vez mais frio, cruel e egoísta. Contra a indiferença dos tempos atuais, “Private Z(oo)m”, em imagens insólitas e líricas, demonstra a viável possibilidade de um novo tempo, recompondo os estilhaços do olhar. Assim é Arte. Assim é Arte, sobretudo, para Mito Elias.

5 comentários:

lita duarte disse...

Oi, Ricardo.

Como vai?
Post muito interessante.
Como sempre: grandes informações.

Beijos.

Carol Mota disse...

Olá, Ricardo!
Dei uma olhada no seu blog e achei muito bom! Parabéns, novamente... Sua presença na aula da prof. Norma no sábado contribuiu bastante para as nossas reflexões sobre os temas abordados. Andarei por aqui de vez em quando aprendendo um pouquinho mais sobre o universo africano.
Um abraço!

Ricardo Riso disse...

Oi, Carol! Tudo bem?
Muito obrigado pela visita e pelos elogios.
Bom, devo dizer que se foi bom, foi porque a Profa. Norma me inspira.
Volte outras vezes e envie e-mail quando julgar necessário.
Grande abraço!
Lita, sua presença ilumina o blog. Ando sumido, mas tarefas intensas afastam-me. Os beijos e abraços de sempre.

Anônimo disse...

Olá meu caro,

Obrigada pela tua infinita generosidade.

Mito

Ricardo Riso disse...

Caro amigo Mito Elias,
presença ilustre no blog.
Muito obrigado pela visita!
Estamos juntos!
Grande abraço!!!