quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena


Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena

O romance Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena, é o terceiro livro do autor e apresenta um relato vivo das personagens, dos lugares e vivências da sociedade cabo-verdiana.

Christian Zardel é um menino de rua em fuga de um traficante de droga, que encontra abrigo num velho farol, onde vive Simplício, antigo faroleiro do mar traiçoeiro da ilha da Boa Vista. O velho farol e o ilhéu são também, para a bióloga marinha Selma e o ex-etarra Kiko, uma espécie de recanto paradisíaco, mas por diferentes razões, obviamente, enquanto as suas vidas secretas se vão abrindo e cedendo à atracção física que sentem um pelo outro e à crescente cumplicidade na defesa do meio ambiente e da espécie animal ameaçada. Na Ilha de São Vicente, um advogado português e um cidadão espanhol seguem a pista do ex-etarra, responsável pela morte violenta da esposa do segundo. Se o espanhol nada tem a perder nesta busca perigosa, para o advogado português é uma dose suplementar de adrenalina, nesta sua nova vida.

Alguns excertos de Para Onde Voam as Tartarugas:

“Naquela hora já estou é a pensar onde me vou esconder deles nos próximos tempos. Logo de seguida, fecho os olhos e vejo a imagem do meu corpinho magricela enrolado no chão; a cara coberta de sangue e a levar pontapés e socos de todos os lados: a levantar-se e a cair outra vez. Vejo-me a entrar em casa, ajudado pelo meu irmãozinho, e a minha mãe, na sua escuridão, coitada, a tactear a minha cara partida.. Continuo a ver estas coisas todas mesmo depois de abrir os olhos. Há coisas que temos a certeza que nos vão acontecer; se não fizermos nada elas acontecem mesmo. Se fizermos, o mais provável é acontecerem na mesma.”

“Não era possível dizer ao certo que expressão lhe marcava o rosto naquele instante. Estava de pé na praia, do outro lado do canal: os braços descaídos, ao longo do corpo - a silhueta batida pelo vento. Mas à medida que o bote se aproximava revelava-se nela, debaixo da resoluta serenidade, uma emoção contida. Do outro lado do canal, o velho Simplício viu quando o basco acelerou o motor antes de o desligar e levantar a hélice para a proteger do embate no chão. O bote deslizou então por sobre as ondas e imobilizou-se na areia.”

“Abri a porta de um dos quartos e Kiko Rukya Olazabal esperava-me, lá dentro, de pé, com uma arma apontada à minha cabeça. Fiquei paralisado. Tinha o braço e o ombro esquerdo anfaixados por uma ligadura vermelha de sangue. Olhei para aquele cano apontado na minha direcção e pensei que assim que ele premisse o gatilho estaria tudo acabado. O braço começou a tremer-lhe. Estava sem forças, pensei. Deveria ter perdido muito sangue. Não aguentaria estar de pé por muito mais tempo. Mas o tempo que demorou até cair de borco, à minha frente, pareceu-me uma eternidade. Um momento que se transformou numa pergunta abafada no meu espírito.”

2 comentários:

lita duarte disse...

Oi, Ricardo.

Como vai?

Seus blogs estão sempre repletos de coisas muito boas.

Obrigada pelas dicas.

Bjos.

Ricardo Riso disse...

Valeu, Lita!! beijão!!!