terça-feira, 4 de outubro de 2011

“Vida que voa”, de Lena Martins (resenha)



“Vida que voa”, de Lena Martins
Ricardo Riso

Já com uma consolidada trajetória como artesã afro-brasileira, graças à inovação de suas delicadas Bonecas Abayomi, que são personagens negras sem expressões faciais exatamente para contemplar as diversas etnias africanas forçadas a vir para o Brasil pelo criminoso tráfico negreiro, as Bonecas Abayomi são confeccionadas sem cola ou costura, retratam o cotidiano afro-brasileiro, a mitologia, os orixás, os aspectos culturais etc., são criações de Lena Martins que agora investe na literatura infanto-juvenil e lança “Vida que voa”, sob a chancela da novíssima editora carioca Escrita Fina Edições.

A agora autora Lena Martins acerta ao ilustrar a breve história de “Vida que voa” com painéis criados para acompanhar a narrativa que possui duas personagens: a avó e a sua netinha Isadora. Esses painéis estão conotados à maneira singela, serena e clara do desenvolvimento da narrativa, transportam para o pequeno leitor e também para o adulto a delicadeza de contar história e, principalmente, a afetividade entre avó e neta, sendo a questão do afeto, em nosso entendimento, o grande destaque dessa curta história.

O espaço da narrativa resgata a nossa ancestralidade afro-indígena, o Jardim Boiuna, ou o jardim das cobras grandes, onde avó e neta ficam deitadas em uma rede à frente de uma floresta. Nesse cenário, destacamos as personagens negras fora do espaço das atividades domésticas, do trabalho, dessa maneira, o narrador de Lena Martins subverte os espaços comuns às personagens negras em nosso cânone literário trazendo-as para o espaço do relaxamento, do repouso e da contemplação da paisagem, do direito ao lazer, da companhia familiar e da relação afetiva que ainda assim estimula o aprendizado oral da anciã para a criança através de canções bucólicas “que falam de pássaros, borboletas, vida que voa”.

Voo da vida, do tempo que passa no ritmo das canções embaladas na rede. E no balanço da rede se dá o crescimento, muitas vezes, imperceptível da menina: “E o tempo passa... Passa num tempo que não se sabe se foi só um balançar...” A menina começa a falar, apresenta seus questionamentos e observações à avó, a continuidade do aprendizado, a permanência do espaço e a temporalidade atravessando os anos fortalecem os laços familiares, a cumplicidade entre avó e neta nesse espaço afetivo. E a menina conclui: “A gente tem asa, vovó, é a rede...” Algures, o poeta Manoel de Barros disse, “Poesia é voar fora da asa”. A expansão do mundo proporcionada pelo aprendizado oral desvela a poesia dessa relação afetiva. As canções e as conversas que voam como os pássaros instigam a menina; a asa, símbolo máximo do voo, é associada pela criança ao movimento suspenso da rede. A rede como metáfora da liberdade de pensar, imaginar, criar, conhecer.

Destacamos a escrita concisa, também precisa da autora, muito bem distribuídas pelas páginas em harmonia com as imagens das bonecas. Um grande acerto da equipe de diagramação. Reforçamos a importância do espaço de lazer e da graciosa relação entre avó e neta, destacando a afetividade entre as personagens negras e a relevância de uma história com tal cariz, lembrando que lazer e afeto infelizmente ainda não são vivenciados em sua plenitude pela maioria de nossa comunidade negra. Por esses pontos assinalados, embalados pela intensa afetividade das personagens negras da doce narrativa de “Vida que voa”, celebramos a gratificante estreia literária de Lena Martins em uma caprichada produção gráfica da Escrita Fina Edições.


Vida que voa
Lena Martins
Fotografias de Ivone Perez
Ilustrações de Carolina Figueiredo, Luciana Grether Carvalho e Lena Martins
Escrita Fina Edições
Rio de Janeiro, 2011
www.escritafinaedicoes.com.br


Sobre as Bonecas Abayomi
www.bonecasabayomi.com.br

4 comentários:

Luana Cândido disse...

Encantador!

Bjuxxx

Ricardo Riso disse...

Muito obrigado, Luana!
Livro recomendadíssimo!
bjs!

Lúcia Leme disse...

Como é bom saber coisas novas. Que trabalho lindo essa mulher faz. Obrigada pelas informações. Adorei.

Bjusssss.

Ricardo Riso disse...

Exato, Lúcia! A desenvoltura encontrada nas bonecas abayomi foi transferida para o texto literário.
Obrigado pelo comentário!