quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Corsino Fortes

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Não há fonte que não beba da fronte deste homem (Corsino Fortes – poeta de Cabo Verde)

I

Nas rugas deste homem
Circulam
xxxxxxxxxxestradas de todos os pés que emigram
Quebram-se
xxxxxxxxxxvivas! as ondas de todas pátrias
Anulam-se
xxxxxxxxxxde perfil! as chinas de todas muralhas

Na mão bíblica
No humor bíblico deste homem
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcrepitam de joelhos
Desertos & catedrais
Onde
xxxxxxxxxxxdeus & demónio
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxjogam
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxnoite e dia
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxa sua última cartada
E do pó da ilha à mó de pedra
xxxxxxxxxxxNão há relâmpago
Que não morda a nudez deste homem
xxxxxxxxxxxnudez de liberta!
Que a dor germina
XxxxxxxxxxxE o espaço exulta
E pela ogiva
Xxxxxxxxxxxogiva do olho
XxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxNão há poente
Que não seja
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxUma oração de sapiência

Sobre a face deste homem
xxxxxxxxxxo povo ergueu a praça pública
E os tambores transportam
Xxxxxxxxxxxo rosto deste homem
Até à boca das ribeiras
E ao redor
xxxxxxxxxxos vulcões respeitam
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo silêncio deste homem


I I

Não há chuva
Que não lamba o osso de tal homem
À porta da ilha
XxxxxxxxxxxDiz o sal de toda a saliva
O sol ondula oceanos no sangue deste homem

Oh cereal altivo! vertical & probo
Ainda ontem
xxxxxxxxxxantes do meio-dia
O vento punha velas na viola deste homem
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxHoje!
A viola
De tal dor é sumarenta
E projecta
xxxxxxxxxxsobre as almas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxa seiva
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxDe uma árvore imensa
Oh oceanos! que ladram à boca das tabernas
Se o sangue deste homem
Xxxxxxxxxxxxxé tambor no coração da ilha
O coração deste homem
xxxxxxxxxxé corda no violão do mundo
E os joelhos
xxxxxxxxxxrodas que vão! hélices que sobem
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcom ilhas no interior


I I I

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado
Quando
xxxxxxxxxxpastor & gado jogam à cabra-cega
E chifres de sol
xxxxxxxxxxxxxxxprojectam
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcidadelas no ocidente
O poente galopa a maré-alta
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxE ergue
"À taça da noite
Sobre as têmporas deste homem"
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxOh noite verde! oh noite violada
Que a noite não apague
A memória das cicatrizes
E cicatrizes de ontem
xxxxxxxxxxxxxxxxSejam
Sementes de hoje
Para sementeira E floresta de amanhã

Como Noé
As espécies conhecem
xxxxxxxxxxxxxxxxxxA sílaba E a substância deste homem
Não há milho
Que não ame o umbigo deste homem
Não há raiz
Que não rasgue a carne deste homem


xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxE na fome pública deste homem
Cresce
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxa ave no voo E a gema na casca
Cresce
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo cabo d'enxada E a cintura da terra
Cresce
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxa porta do sol E o alfabeto da pedra verde
Não há fonte
Que não beba da fronte de tal homem
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxQue
A erecção deste homem é redonda
E tem o peso da terra grávida


extraído de "A Cabeça Calva de Deus", a obra poética de Corsino Fortes, editada por Publicações D. Quixote, 2001.
Em <
http://www.breadmatters.org/BM/CF/Cor_For.html > acessado em 17 de setembro de 2008, às 00h58.

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