sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cuti - Quebranto

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto

às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego

às vezes...

CUTI. Quebranto. In: Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. pp.53-54.

2 comentários:

ana franciele disse...

não consigo ler esse poema e não chorar, analiso o tamanho da nossa "inocência", somos todos iguais, formados pelos mesmos descendentes, mas insistimos em julgar e excluir por cor e classe social.

Ricardo Riso disse...

Pois é, Ana Franciele, imagina o que nós, os que não foram "agraciados" com a pele clara e o cabelo liso, sofremos diariamente? E ainda somos obrigados a escutar que não há racismo neste país e, quando ocorre, somos nós, negros, que somos racistas. Difícil lutar contra tanto hipocrisia, mas insistimos.
Valeu a visita e o cometário!
Abraços!