quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Filinto Elísio – Li Cores & Ad Vinhos (resenha)


Inebriantes metáforas consagram a escrita etílica do poeta

Por Ricardo Riso

Explosões dos sentidos, êxtase do Verbo. Tais sensações encontram-se após a travessia instigante, surpreendente e prazerosa pelos cinquenta e três poemas do recente livro de poesia de Filinto Elísio, com o etílico e sugestivo nome Li Cores & Ad Vinhos (Lisboa: Letras Várias, 2009). Este é o seu quinto título em poesia; constatam-se, comparando ao anterior “Das Frutas Serenadas”, o erotismo exacerbado do sujeito lírico a exigir do leitor especial atenção a respeito da linha tênue que se apresenta ora mulher, ora poesia, ora pedra; o aprofundamento metafórico; e a semântica concupiscente das palavras buscando novos significados que vão além dos sentidos inertes impostos pelo discurso estabelecido.

Na poesia elisiana, o Verbo degusta, etilicamente, o poder transformador da palavra conduzido por um sujeito lírico inquieto que afirma: jamais deixarei morrer cá dentro o viés / que transforma esta amargura em poesia (p 13). É no mergulho à essência das palavras, atravessando as fronteiras dos sentidos e tendo a ousadia de investigar o âmago da liberdade poética que nos deparamos com imagens inusitadas e belas, reveladoras do compromisso assumido, dos riscos a que se submete o poeta: De todas as estradas, algumas por andar, / As de sinuosa curva das palavras, a mais íngreme, / Com metáforas penduradas ali no peitoril, / São as que, por visceral, me motivam à Poesia... (p. 81).

Como podemos perceber, caberá ao leitor desvendar os misteriosos versos, as inesperadas imagens que se formam a partir da imersão no desregramento dos sentidos propostos pelo sujeito lírico elisiano, a começar pelo inebriante título do livro: Li Cores & Ad Vinhos. Está presente o lado dionisíaco, o embriagar-se por licores e vinhos; por outro lado, há o desejo sinestésico, plástico, de ler as cores e de adivinhar, de tentar descobrir o insondável mistério da criação poética: Não te direi tudo dos verbos, (...) / onde a semântica, ciosa, / Se refugia silenciosa entre mim e o nada... / Virar, em passe de mágica, as cores de avesso, / Transmutar, pelo revesso, fiapos soltos de rosa, / Prosa que também se solta as flores que voam... / (...) Deste recheio de êxtase, de tudo ser nada disto... (p. 81).

A metapoesia predomina no livro. Ao versar sobre a criação e sobre o indecifrável segredo que envolve a poesia, somos convidados a um jogo inusitado, regado pelo néctar simbolista das letras elisianas, que esgarça o concreto e a tudo metaforiza: Tais palavras, como que a desejarem / Metáforas e seus caminhos transviados (p. 83), revelando-se, inclusive, entre os poemas, pois os últimos versos de “Nossos versos” (p. 83) são o título e os três versos iniciais de “Fuligem, riso e vertigem”: Na pedra – água que rumoreja, / No gargalo do mar – ali gorjeia: / Ave sem voo, rima e penugem... (p. 51) Sendo assim, devemos aguçar nossos ouvidos para escutar os poemas nesta acústica de pétala e desvendar a explosão etílica dos sentidos em “Ad Vinhos” que, com suas enigmáticas metáforas, de maneira lúdica, mostra-se: Qual é a cor da música? / Seu gosto de fruta e de cravinho. / (...) As horas do teu corpo batem / Em que lugar quando ressoa / Meia-noite no meu poema? / (...) Tudo isso adivinho seres tu, / Posto que travam como vinho / As cores que li no gosto. / (...) Tempero, em que novelo / És mais água do que sal? / Concha, em que segredo / Me és palavra repentina? // A cor da música... (p. 55)

Manifesta-se tamanha complexidade de uma poesia que não espera pelo vento (p. 39), de um poeta vitaminado pela sintaxe (...), semântico de mim próprio (p. 39). O sujeito lírico expande-se pelos elementos primordiais da natureza, Ora sou água, ora sou fogo / E se me invento terra, ar (p. 61) para transparecer a imensidão da sua poesia: Poente que sou, mirante do nada / Cavaleiro andante, aventureiro, / Puro horizonte tudo o que sou... (p. 61). Esse alargamento é bem sugestivo na figura da pedra, presente na trajetória literária cabo-verdiana, porém, na poesia elisiana ganha contornos que transcendem as configurações usuais, apresentando-se de maneira universal, revelando a forma peculiar como o sujeito lírico lida com a sua cabo-verdianidade, sempre com a presença da metapoética, fundindo-se, confundindo-se: Uma pedra, ínfima que seja, / No seu significado de coisa / No que esconde de átomo, / Nos conta Deus em tudo... // Medra nela certa melodia, / Alguma dita no seu dorso, / Outra dentro da matéria, / Onde, diurna, a lua soletra... // (...) Pode-se retornar ao Verbo / Ao recomeço, sobretudo, / Do encanto da poesia... (p. 27).

Deve-se destacar o cuidado gráfico de Li Cores & Ad Vinhos, tendo as páginas agraciadas com as ilustrações do artista plástico Fernando Elias, o Mito, amigo de longa data do poeta desde os tempos da “Sopinha de Alfabeto”, revista surgida na década de 1980. Os desenhos de Mito com seus traços que passam pelo insinuante ao simpático e atingem a ironia e o erótico, ajudam a compor a aura mística e misteriosa dos poemas, tornando-os essenciais ao livro e que, em nenhum momento, criam conflitos entre poema e desenho, mas, sim, apresentam uma harmonia impressionante. Harmonia que se estende à sólida amizade dos dois artistas cabo-verdianos.

Tal como o “pedreiro” Arménio Vieira, Filinto Elísio encara o seu ofício de forma corajosa, ousada, destemida, ou seja, ao escrever de pulso aberto (p. 17) procura extrair poesia da pedra (p.17), deslocando-se das sensações anestesiadas, das emoções dilaceradas dos dias atuais. Sua poesia mostra um caminho possível para suportar a amargura da realidade, valendo-se de um prazer ilimitado para fruir os sentidos, de gozar com as palavras. Filinto Elísio, ao transcender a semântica usual e apetecer o infinito metafórico, brinda-nos com sua bela escrita etílica em Li Cores & Ad Vinhos. Com isso, mais uma vez ultrapassa as fronteiras da literatura cabo-verdiana com sua inconfundível sensibilidade existencialista e universal, e agradará a todos os leitores das literaturas em língua portuguesa que se inebriarão com seus poemas.
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ALGUNS POEMAS DE LI CORES & AD VINHOS.
PROMESSA
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés
que transforma esta amargura em poesia.
O grito que me teima, mas que tu guardas
no instante dos sentidos, saberá sempre
em mim como um sopro de vida.
E, se não vou à noite como quem vai à maresia,
começarás tu a dissipar a neblina
no horizonte dos caminhos por andar.
É-nos pouco o tempo, mas naveguemos
numa alegria sem demora. Diante do mundo,
algo mais do que esta enseada de águas
mansas, não quererá a eternidade ser parte
do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas,
de remanso com que as horas são batidas
monocórdicas no relógio. E todos os fados
são universos de cada transeunte.
(p. 13)

CAVERNAS

O que dizer das criaturas, miniaturas,
No breu das grutas, que sintaxe, algo
Como um labirinto de versos, paralaxe,
Extracto de escuridão ou de solidão?

Estar apartado da vida, asceta, monge,
Sequestrado de si próprio, em dúvida
Na prece, sendo caverna este silêncio
E seu bulício, esfinge e o que ele finge?

Uma parelha de poesia, duas cotovias,
Três árvores ao redor e quatro tambores,
Essas leiras, medidas e mesuras, números...

Momentos tão de quedas e de vertigens,
Flutuantes almas, quantos impregnados,
Lugares de luz, de escuro e seu inverso...
(p. 23)

TODO DO SEU TUDO

Dos versos meus, neste e noutro fala-se da morte.
O resto, do consorte, é todo ele sem cabresto
Transversas, em pinote, pedras e pedras, a teta
E o desferrar, quase proxeneta, do bebé de proveta...

Quando assim instaura o poema ou fonema,
Por sorte, no meio da tecedura, tecem e fenecem
A textura e o miolo da palavra, a chula e a gula
Do poeta, louco e de pouco prumo, filho da puta...

Reversos teus, lado outro de mim, enfim à solta
Ajuíza e giza o encontro das sílabas, ora pervertidas,
Ora invertidas, soletrando antídotos do coração...

Como estilete no pulmão, lâmina nesses olhos,
Como veneno, às vezes para o doce, tipo fruta,
Poeta que desfruta, do Paraíso todo de seu tudo...
(p. 41)

AD VINHO (DE UM FRANGÉLICO)

De repente, és tu
À beira-rio
de mim;

Trago-te inteira
(de um Frangélico)
Taça
Inteira como um
Ponto...

Olho-te
de novo
- frutal
e floral
esse vinho.

Teu corpo
De um trago...
(p. 67)

ÊXTASES
De todas as estradas, algumas por andar,
As de sinuosa curva das palavras, a mais íngreme,
Com metáforas penduras ali no peitoril,
São as que, por visceral, me motivam à Poesia...

Não te direi tudo dos verbos, de como,
No topo de Abril, dos carapetos e cumes,
De outros parapeitos, onde a semântica, ciosa,
Se refugia silenciosa entre mim e o nada...

Virar, em passe de mágica, as cores de avesso,
Transmutar pelo revesso, fiapos soltos de rosa,
Prosa que também se solta as flores que voam...

Olhar, quando não sentir, só o das borboletas,
O dos arfares na calada e o dos suores receosos,
Deste recheio do êxtase, de tudo ser nada disto...
(p. 81)

NUVEM PEDRA
entre nuvem e pedra
de viajar um e de quedar-se outro
tal qual cinza que se sonha
outrora à roda do fogo
à dança da brisa
ou à trapaça do riso
quando a retina olha
coqueiros de sombra
dunas ondas búzios
areias pedras águas
ares de curvilíneo corpo
o ponto de salitre
piercing
instante
ião
mas também o quântico vão
de pedra e nuvem...
(p. 101)

AD VINHOS
andei por califórnias ródanos douros
sonhei ânforas do antanho
deusas etílicas taças de âmbar
poetei absintos versejei labirintos
naveguei pessoas & nerudas
tive orgasmos a imaginar borges
acordei diante de brancos secos
amei com os tintos maduros
encorpados lambruscos
alentejos chãs
ad eternum
ou aqui
agora...
(p. 107)

ILHA DE MIM
Ulterior outrora, quando à rosa, orvalho nenhum
Gotejava nos olhares, de soslaio e de vagar reparo,
Eras tu a latejar bocados, quando não apenas lapsos,
Prosa e poemas que em meus quotidianos inquietava…

Sempre detive madrugadas ainda de luas, estrelas
Cúmplices de serem zodíaco e de fazerem magias,
Estive, como que se esventram auroras, no cogito
Das angustiosas metáforas, néctares da ilha…

Caliban, meu perdido companheiro, quiçá alguém,
Outro que te lamba as chagas, e ali te represente
Quão próximo Prospero de vera te seja verbo…

Meu Poeta, quem sabe algo, espelho ou lago,
Te retrate a face e os contornos de teus sulcos,
As estradas de ti, o gotejar também de ti…
(p. 115)

POEMA DE SÊMEA
Dava-te, por dar dados ao vagabundo, palavras
E queria de ti, ou não se resumisse tudo à morte,
A conjugação dos verbos e dos sinais, a química
Com que as sílabas se liquefazem e deslizam,
Rios em milhas de mim, pelos meus caminhos.
Dava-te o discorrer da cidade, a boca carmim
Dos beijos contidos na semântica dos versos,
Dava-te dados, vagabundo, da sintaxe das coisas,
Este parar no meio da rua, este desespero de tudo,
Este vagaroso suicídio com o veneno de fêmea,
Dava-te letras, números, outros signos, sementes…
(p. 117)

2 comentários:

Denise Guerra disse...

Nossa que bom te ler/ver de novo na rede! Nunca sei dizer se vc só encontra preciosidades pra resenhar ou se é o seu olhar apuradíssimo e sensível que faz os textos que vc toca virarem ouro líquido-papel "sopa de letrinhas"! Grande beijo!

Ricardo Riso disse...

Sempre delicada Denise, obrigado pelas palavras carinhosas.
mas penso que qualquer elogio para a poesia do Filinto Elísio não atingirá a magnitude de suas metáforas.
Um grande abraço,
Ricardo