domingo, 13 de janeiro de 2008

Mario Quintana: Quintanear as palavras

Na atual edição da cuidadosa revista Entrelivros, a matéria de capa comenta sobre a resistência que o poeta gaúcho Mario Quintana ainda sofre por parte da crítica especializada e dos meios acadêmicos, apesar de seu enorme sucesso perante o público. Nesta questão, fico com a ironia do cronista esportivo Fernando Calazans que, ao abordar a polêmica de que só foi craque de futebol o jogador ganhador de Copa do Mundo, e em seguida tachar de fracassados excelentes jogadores como Di Stefano, Puskas, Zico e Platini. Calazans simplesmente responde que quem perdeu e teve azar foi a Copa do Mundo, exatamente por não constar em seu elenco de ganhadores craques como os citados acima. Creio que pensamento semelhante posso ter com os que menosprezam a obra de Quintana. Sem maiores pretensões, é o que pretendo desenvolver neste texto.

A estréia de Mario Quintana ocorreu durante a década de 1940 no auge da segunda geração modernista e dos regionalistas. Surge com um livro de sonetos, “A rua dos cataventos”, que causou grande polêmica entre seus contemporâneos, que consideravam um método ultrapassado, passadista, termo ao qual o poeta foi acusado por toda a sua vida mesmo tendo sonetos de altíssima qualidade, equiparados aos de Vinicius de Moraes. José Eduardo Degrazia resume a questão ao dizer que “formalmente Mario Quintana se colocava contra os modernos em plena vitória do modernismo” (QUINTANA, Esconderijos do tempo, p. 9). Por outro lado o poeta gostava de dar declarações inquietantes que demonstravam seu desprezo pelos grupos e escolas literárias: “O fato é que nunca evoluí. Fui sempre eu mesmo” (QUINTANA, Apontamentos de história sobrenatural, p. 23).

A simplicidade da qual é acusado advém do fato de tornar qualquer assunto matéria poética. O poeta traz para a poesia fatos corriqueiros do cotidiano, eleva o status daquilo que é simplório. Também recorre à infância durante toda a sua obra, com personagens e situações constantemente citados. Tudo com excessivo lirismo. Todavia, a simplicidade, a infância e situações banais não fizeram com que a sua poesia fosse simples. Quintana era extremamente rigoroso e exigente com sua matéria poética, talvez tenha adquirido tais características após a sua atividade como tradutor de clássicos da literatura, como Marcel Proust. E a simplicidade temática possa ter suas origens no tempo em que exerceu a função de cronista de jornal, pois ali percebia que tinha que atingir um público amplo e diversificado.

Sua poesia apresenta diversas tendências: o passadismo, o simbolismo, a linha lírica de Casimiro de Abreu, a recusa ao racional mas com rigor técnico e formal, o namoro com o realismo mágico e o sobrenatural, o soneto, a prosa poética... Ao prefaciar uma antologia de Mario Quintana, o crítico Fausto Cunha tece considerações sobre o estilo, temas, recursos e características formais do poeta:

“A verdade é que, sob o campo visual da poesia de MQ, se esconde em uma teia infinita de raízes, um entrançado de sentidos, duplos sentidos, alusões, elipses, subentendidos, um código vivencial de cuja tradução o poeta é o único a possuir a chave. E sua aparente simplicidade formal, aos olhos de leitores mais atentos, encobre uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de soluções rímicas e rítmicas; revela-se também o conhecimento, por parte do poeta, das grandes fontes da poesia universal.” (QUINTANA, Melhores poemas, p. 9)

A matéria escrita por Claudia Nina, “A alma de passarinho”, aponta alguns caminhos que possam ter dificultado a aceitação de Quintana, tais como a “dificuldade de assimilação da poesia lírica”, pois segundo Silviano Santiago “O poema lírico é auto-suficiente. Convida menos à reflexão e mais à leitura prazerosa”; o fato de o meio acadêmico e os outros poetas preferirem uma poesia melhor elaborada, recheada de citações, mais cerebral e menos emotiva, ou seja, a forma aparentemente descomprometida de escrever do poeta incomodava; a já mencionada dificuldade em enquadrá-lo nas escolas literárias; e jamais ter morado em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, tendo morado sempre em Porto Alegre pode ter ajudado no seu afastamento.

Bom, popular Quintana já o é, falta o respeito e a aceitação do meio acadêmico ao profundo lirismo do cotidiano, de uma poesia complexa que pode ficar oculta em uma primeira leitura rápida e sem compromisso. O poeta é um dos grandes da nossa literatura e aprimorou um estilo que raras vezes encontramos nas letras brasileiras.

A seguir, alguns poemas.

Riso

Os retratos
Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventa para enganar a solidão dos
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx caminhos sem lua.
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 67)


O poema interrompido
A lâmpada abre um círculo mágico sobre o papel onde escrevo. Sinto um ruído como se alguém houvesse arremessado uma pequenina pedra contra a vidraça, ou talvez seja uma asa perdida na noite. Espreguiço-me, levanto-me e, cautelosamente, escancaro a janela. Oh! Como poderia ser alguém chamando-me? Como poderia ser um pássaro? Na frente do quarto, acima do quarto, por baixo do quarto, só havia solidão estrelada... Quem faz um poema não se espanta de nada. Volto ao abrigo da lâmpada e recomeço a discussão com aquele adjetivo, aquele adjetivo que teima em não expressar tudo o que pretendo dele...
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 59)


Eu fiz um poema
Eu fiz um poema
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...

Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um
dicionário
eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de
de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a
terra...

Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 31)


Quem seríamos?
Veio um instante, partiu de novo,
Leve, sem nome...
Para que nomes? Era azul e voava...
No véu das horas punha o seu motivo.
Partiu. E nem
Ficou sabendo
Como eu, acaso, me chamava...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


O velho do espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto... é cada vez menos estranho.
Meu Deus, meu Deus... Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga... Que importa?! Eu sou,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxainda,
Aquele menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra! –
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


Recordo ainda...
Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 25)


O poema
Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
xxxxxxxxxxxxxxxxxpara sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcondição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 20)


O Anjo Malaquias
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase... E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, pp. 87-88)


Fontes:
CARVALHAL, Tania Franco. Para comemorar a vida. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural – Centenário Mario Quintana 1906-2006, São Paulo: Globo, 2005.
CUNHA, Fausto. O último lírico Mario Quintana. In: QUINTANA, Mario. Melhores poemas Mario Quintana – seleção Fausto Cunho. São Paulo: Global, 2003.
DEGRAZIA, José Eduardo. Anotações do esconderijo. In: QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo – Centenário Mario Quintana 1906-2006. São Paulo: Globo, 2005.
NINA, Cláudia. A alma de passarinho – dossiê Mario Quintana. In: Entrelivros, ano 3, número 32. São Paulo: Duetto, 2007. Pp. 30-34.

2 comentários:

Wesley disse...

Caro Riso, escolheste apenas poemas que tocam o íntimo da alma. Obrigado

Ricardo Riso disse...

Agradeço o comentário, Wesley. Quintana conhecia os caminhos da alma. Abraço.