sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Naguib: arte moçambicana

São Paulo, a capital paulistana, sempre foi um lugar surpreendente e agradável para mim. Na adolescência ia para curtir as peças teatrais de Zé Celso e Antunes Filho e os shows de rock no saudoso Dama Xoc, visitar as lojas de vinil Baratos Afins e Woodstock, e a Galeria do Rock, é claro, com seus quatro andares repletos de rock’n’roll, tattoos e skate. Logo em seguida, as amizades e amores de estrada em lugares como Trindade, São Thomé das Letras e Ilha Grande. Depois, com a entrada da pintura em minha vida, passei a ir constantemente em busca das exposições nas galerias, museus e, principalmente, na Bienal de Arte.

Em uma dessas viagens, lembro de um final de semana que a programação era intensa e de altíssima qualidade. Só para ficar no espaço do Ibirapuera, havia no MAM uma retrospectiva sobre o Alfredo Volpi com mais de cem obras; o MAC/USP estava com o seu importante acervo de arte modernista brasileira, com obras fundamentais de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Samsor Flexor e tantos outros. Porém, a maior surpresa viria com a exposição ao lado, “África/Brasil: um retorno às raízes”, apresentando o artista moçambicano Naguib Elias Abdula.

Nascido em 1955 na cidade de Tete às margens do rio Zambeze, Moçambique, Naguib freqüentou a Escola de Belas Artes de Lisboa, estagiou Serigrafia na Universidade do Cabo (África do Sul), partiu para a Alemanha onde fez Conservação e Restauro no Kunts Museum de Colônia e freqüentou a Universidade de Nothumbria, Reino Unido.

Iniciou sua trajetória artística após a independência moçambicana em 1975, participou de várias coletivas até realizar sua primeira individual em 1986, chamada “Grito de Paz”, na Galeria Decorama, em Maputo/Moçambique. Desde então, solidificou uma carreira consistente e inquietante, que denuncia o caos social do país, a valorização da condição humana e da pluralidade cultural moçambicana. Sua arte atravessou as fronteiras de seu país e do continente africano, conduzindo-o ao título de embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, Naguib é um dos grandes nomes da arte moçambicana, equiparando-se aos artistas Malangatana Valente, Chissano e Roberto Chichorro.

Para o escritor Mia Couto, Naguib:

“é um artista plural, empenhado na procura de sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo (...). Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos moçambicanos, as diversas raças do nosso colectivo (...). A pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique.” (Naguib. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 45-48)

A valorização da mulher, o erotismo exacerbado e a diversidade de temas tratados por Naguib em suas obras são apontados por Ana Mafalda Leite:

“É esta também a marca da terra actual, generosa de alegria e de indevidos abusos e corrupção, mas a esperança, sem rosto, com um tremendo corpo de desejo não permite abandonar a promessa de um país culturalmente diverso e rico que também se prolonga, recriado em teus quadros. Talvez por isso volvam em alguns deles as inscrições rupestres, marcas zoomórficas, traços de crianças, reinícios nas tuas pinceladas, em que fragmentos fósseis, letras que retomam algumas frases de Samora Machel. Hieróglifos de um tempo novo que é preciso decifrar nas letras antigas, na tinta que escorre dos murais, em certas palavras de ordem que urge relembrar. As crianças percorrem esse princípio de pedra gravada, em que os répteis dançam, emolduram o negro-castanho-branco de fragmentos de tecidos nos corpos de mulheres.” (Naguib, op.cit., pp. 39-43)

Na referida exposição, a primeira obra é um site specific que denuncia com dados oficiais a miséria e abandono que vivem as crianças africanas e brasileiras. Apesar de sempre fazermos força para esquecer, é bom lembrarmos que temos indicadores sociais piores do que alguns países africanos. Temos uma elite corrupta e governos opressores como qualquer país periférico. No site specific, Naguib apresenta sua coragem em apropriar-se de objetos de consumo na construção do trabalho utilizando-se de bonecos enforcados e queimados em um forno, e ainda unir pintura e texto pichado na melhor escola neoexpressionista dos anos 1980. Explodem na memória a semelhança com as intervenções e instalações de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.

A ousadia híbrida na escolha de materiais para suas telas impactantes e viscerais dão a tônica do restante da exposição deste multifacetado artista. Naguib presta uma bela homenagem ao poeta moçambicano José Craveirinha na intervenção "Karingana wa karingana (In memória do Tio Zé Craveirinha)". Trata-se de postes pintados nas paredes, seus fios e roupas rabiscadas com trechos de poemas do Velho Cravo nesse varal lírico criado pelo artista.

Karingana Wa Karingana, 2005 (In memória do Tio Zé Craverinha)



Na série de três trabalhos chamada “Alquimia de jóias na dança de ucanho”, Naguib espanta-nos com a pluralidade de elementos concentrados sobre a tela, mostra a incessante procura por novas formas de expressão. Fotografias pintadas com mulheres zoomorfas, ora girafas, ora zebras, em intenso erotismo, estão ao lado de embondeiros geometrizados, aves sagradas, motivos tribais na busca de um lirismo primordial.

Alquimia de jóias na dança de ucanho I, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.48 X 1.83 m


Alquimia de jóias na dança de ucanho II, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.01 X 2.49 m

Alquimia de jóias na dança de ucanho III, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.50 X 2.37 m


Também nas três pinturas de “Exaltação lírica nas margens do Zambeze”, a manipulação digital alia-se aos traços rupestres da pintura, imagens de embondeiros e pedras ancestrais mesclam-se com hieróglifos representando mulheres ora nuas, ora com capulanas, tartarugas, elefantes, crianças e seres tribais a lembrar que o ato criativo do homem é ancestral. E mais, Naguib mostra-nos que se apropria de referências desse passado ancestral para criar o seu presente pictórico e, sobretudo, moçambicano.

Exaltação lírica nas margens do Zambeze I, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.55 X 1.80 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze II, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.00 X 2.43 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze III, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s /tela. 2.60 X 1.87 m

A liberdade do seu traço, a sensualidade feminina, a mãe com a criança, os símbolos tribais reaparecem na série “Reinventário de manhãs para amar sem medo”. A originalidade de Naguib ao rabiscar e pintar tais motivos sobre jornais causa furor aos olhos. Naguib é um artista que busca se reinventar a cada série, apropriando-se de materiais inusitados e criando pontes surrealizantes entre os elementos que, quando unidos, transbordam em lirismo.

Reinventário de manhãs para amar sem medo I, 2005
(in memória de Carlos Cardoso)
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela
2.34 X 1.82 m

Reinventário de manhãs para amar sem medo II, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Reinventário de manhã para amar sem medo III, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Um expressionismo visceral é escancarado nas pinturas “Efabulírica com todas as claves” e “Australírica numa variação de nyau”. Telas em grande formato, grandes áreas com predomínio de uma cor, máscaras, mulheres sensuais, galinhas, tartarugas e símbolos rupestres embelezam essas obras.


Efabulírica com todas as claves, 2004
terra vermelha, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrilico s/ tela
1.43 X 1.10 m

Australírica numa variação de nyau, 2004
resíduo de mármore, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrílico s/ tela
1.45 X 1.78 m

Todavia, cabe aqui algumas considerações pertinentes quando nos referimos ao termo expressionismo ao lidarmos com artistas africanos, pois a nossa referência é o expressionismo alemão do início do séc. XX, mais precisamente aos artista do Die Brucke (A Ponte): Ernest Kirchner, Emil Nolde e outros da cidade de Dresden. Logo, a partir do momento em que os artistas modernistas tiveram contato com a arte africana na virada dos sécs. XIX e XX, isso fez com que se encorajassem e partissem para a ruptura com a prática de ensino acadêmico adotado nas escolas de artes e os valores burgueses europeus da época.

Os artistas apresentam novas características formais: o emprego livre das cores, pinceladas com gestual expressivo, rompimento da perspectiva renascentista, geometrização, abstracionismo das formas da natureza, emprego da luz sem preocupação em destacar ou modelar figuras, indistinção na relação figura/fundo e despreocupação com a verossimilhança. Ferreira Gullar, ao comentar tal ruptura em “Argumentação contra a morte da Arte”, diz que:

“a civilização européia, do mesmo modo que se julgava a única sociedade civilizada, considerava também sua arte como a expressão suprema e perfeita, diante da qual o que faziam os povos da Ásia, da África ou da América era puro barbarismo. A ruptura radical com as concepções acadêmicas e, em seguida, com os vínculos entre arte e natureza conduziu à desintegração progressiva da linguagem artística e pôs à mostra a expressividade das formas até então consideradas não-artísticas. A primeira conseqüência disso foi a valorização da arte dos povos ditos primitivos ou selvagens, como a escultura negra africana, as máscaras e totens da Oceania etc.”

Na arte ocidental européia, o expressionismo carrega uma relação conturbada com a mimese. Há o objetivo do artista em expressar o real, entretanto, este real é contaminado pela carga emocional que o pintor ou escultor emprega no momento da ação. O artista vale-se de um gestual agressivo, levando-o a distorcer as formas da figuração humana e da natureza, comprometendo, assim, o aspecto naturalista da obra. Contudo, tal desleixo e aparência rude das obras expressionistas, trazem em si outras discussões como o questionamento às rápidas mudanças tecnológicas que a modernidade apresentava, dilacerando a sensibilidade e oprimindo o homem em relação à máquina. Daí o retorno às coisas da natureza e um olhar atencioso aos povos ditos "primitivos".

Portanto, ao mencionarmos o expressionismo de um artista africano devemos levar em consideração essa diferenciação, pois, para o artista tradicional africano, conforme afirma Nei Lopes em “Kitábu”, a desproporção e assimetria da figuração humana é algo natural porque ele está ilustrando uma entidade que não tem forma. Por isso, quando uma escultura fala de uma deusa ou deus da fertilidade, apresentar-se-á com as genitálias maiores do que o normal; se for para falar da sabedoria, a cabeça será maior que o corpo e assim por diante.

Após essas considerações, voltemos a Naguib. É fascinante a diversidade de materiais utilizados por ele, tornando-o um artista diferenciado na arte moçambicana e atento às propostas contemporâneas dos principais artistas do mundo. Carlos Lopes, no catálogo da exposição, frisa que:

“Naguib destaca-se dos demais pela sua jornada estética arrojada. Nunca se deixou esgotar numa única visão. A sua originalidade não se mede pela alteridade repetida depois de encontrado o denominador comum da diferenciação. Não! Naguib prefere demarcar-se pela reinvenção, rebuscando no produto acabado por ele próprio a fonte para fazer diferente logo depois. Uma auto-alteridade assumida por séries que quase parecem sair de mãos diferentes, não fossem algumas constantes evocações à mulher, à terra e aos símbolos totêmicos.” (Carlos Lopes, Naguib, p. 3)

E é na incansável procura por novas manifestações de sua arte, que Naguib Elias Abdula renova e surpreende a cada tela, fazendo a constante ligação entre passado e presente, exaltando a natureza humana carregada em erotismo, revelando a multifacetada cultura de Moçambique com um olhar contemporâneo que funde o local ao universal.

Riso


Bibliografia:
Catálogo da exposição África/Brasil: um retorno às raízes – NAGUIB. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. 30 de março de 2006.
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da Arte. Editora Revan. 1993.
LOPES, Nei. Kitábu – o livro do saber e do espírito negro africanos. Rio de Janeiro: Senac/RJ, 2006.
NAGUIB. Lisboa: Editorial Caminho, 2005.

Internet:
http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/AfricaBrasil.asp
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=456

2 comentários:

Anônimo disse...

entrei hoje,dia 28 de julho e 2008, nas salas do museu de arte de mocambique, e pode comigo reflectir sobre a arte deste artista.Naguib emociona, faz viver e reviver a beleza existente no mundo..apaixonei-me pelas mulheres zebras, pela perfeicao em que os poemasde craverinha se encaixam nos seus quadros..vivi 1 hora de muita sabedoria.Valorizar o artista e valorizar o que e nosso..tornei-me um fa desde sonhador..espero um dia poder omprar um quadro dele, que ronda aos tantos mil dolares...

edson luis bernardo

Ricardo Riso disse...

Felizardo, Edson Luís!
Que bom que assistiu a uma exposição do sensacional Naguib. Só tive contato com a obra dele no MAC/USP, o que motivou este texto, e minhas futuras pesquisas com a poesia de Patraquim e Eduardo White.
Fico com uma frase da Ana Mafalda Leite, que diz mais ou menos assim: "Naguib cria novos hieróglifos para tentar redescobrir um tempo de outrora".
Obrigado pela visita.
Um grande abraço deste lado do Atlântico,
Ricardo Riso